Tenho uma start-up. E agora?

Apenas 4/10 das start-ups chega à idade adulta, e apenas 1/3 se mantêm ativas ao fim de 7 anos, segundo o estudo da Informa.

Evolução da taxa de sobrevivência

Mais do que identificar as razões em detalhe pelas quais falham, é premente perceber o que podemos fazer para tornar as nossas start-ups numa força motriz da dinamização da economia.

Ainda de acordo com o estudo, uma das principais características das start-ups no período de 2007-2015 é a sua vocação exportadora, sendo a fatia de negócio que representam as exportações para as start-ups de 63%! Observando-se uma média de 47 mil empreendedores por ano, em quase 2/3 dos casos (64%) estes abraçam a sua primeira experiência como empresários. Adicionalmente, 76% dos empreendedores assumem a gerência das empresas que criaram.

Como é que estes empreendedores, recém gerentes de empresas, conseguem gerir um ambiente competitivo cada vez mais dinâmico e, ainda por cima, com uma componente internacional tão forte? Ou por outras palavras: Como é que os empreendedores orientam o desenvolvimento e a gestão do seu recém-criado negócio, sem prévia ou com reduzida experiência, ao longo de vários mercados locais e internacionais?

É neste contexto que o Competitive Intelligence ganha acrescida relevância. Não só como parte integrante do processo de gestão, mas como parte da filosofia de gestão da start-up.  O que é que isto quer dizer? Que é preciso dispor de insights acionáveis para tomar decisões informadas e desenvolver estratégias vencedoras. Mas também, e muito importante, ter uma filosofia e cultura de gestão que inclua a Cultura de Informações (Intelligence em inglês é traduzido para português como informações).

O que é a Cultura de Informações?

Cultura de Informações é a designação dada ao movimento de aproximação dos Serviços de Informações à sociedade, com o objetivo de sensibilizar os cidadãos para a importância da salvaguarda dos interesses de cada Estado e para o importante papel que, no caso português, é desempenhado pelos Serviços de Informação da República Portuguesa, mas também por cada cidadão.

E o que é que isto tem a ver com start-ups?

A ÅRØ Consulting resumiu neste artigo aqueles que são os principais fatores determinantes do insucesso das start-ups nacionais, de acordo com vários estudos recentes, incluindo o supracitado. Num brevíssimo resumo que não dispensa a leitura do artigo:

  • O produto/serviço idealizado não satisfaz uma real necessidade do mercado;
  • Conhecimento pouco aprofundado do mercado-alvo;
  • Fraca perceção e menosprezo da concorrência;
  • Gerar receitas que sustentem a atividade da empresa;
  • Incapacidade de estabelecer relações com investidores e/ou parceiros de negócio;
  • Empreendedor faz tudo sozinho e guarda todo o conhecimento para si;
  • Burnout dos empreendedores.

Em todos os pontos, o Competitive Intelligence e a inerente Cultura de Informações podem ajudar, e muito. Mas tal não se esgota nestes pontos! Senão vejamos:

  • Cada vez mais é necessário ter em conta que há sempre alguém a escutar, à procura de ideias novas com as quais possa alavancar o seu próprio sucesso. Neste contexto, ter a noção clara das oportunidades do ambiente competitivo, como mencionado no primeiro ponto acima, é tão importante quanto perceber quais as ameaças que se afiguram à start-up.
  • Uma grande ameaça é o roubo, cópia ou mero bloqueio da execução da ideia / modelo de negócio, e como tal do sucesso da start-up. Assim sendo, o counterintelligence – toda a atividade cujo objetivo é prevenir que os concorrentes tenham acesso à nossa informação crítica, mantendo-a secreta – é essencial.
  • Dentro do counterinteligence, é necessário ter em consideração que a segurança económica de um país é tão forte quanto menos resistente for o seu elo mais fraco. Ou seja, faz parte das boas práticas de gestão, assim como da segurança económica do nosso País, garantir uma boa defesa dos segredos de negócio, assim como dos nossos clientes.

Como tornar uma ameaça numa vantagem competitiva?

No sentido de fomentar esta tendência e suportar o espírito empreendedor, tem vindo a ser implementado um conjunto de iniciativas neste domínio, de que as start-ups podem, e devem a meu ver, tirar o máximo partido. Esta atitude poderá resultar numa vantagem competitiva, se for levada a sério. Para tal, podem ser alavancadas as seguintes iniciativas, das quais realço:

  • Os cursos académicos, nomeadamente a pós-graduação em “Gestão de Informações e Segurança”, iniciativa conjunta do SIRP, da NOVA IMS*, e do IDN, já na quarta edição;
  • Mais recentemente, e com início marcado para outubro, o ISEG lançou uma pós-graduação em Competitive Intelligence*, a única dedicada em exclusivo a este tema na sua plenitude;
  • O Programa de Segurança Económica que o SIRP criou em 2006, que, segundo o seu secretário-geral, sensibilizou “centenas de empresas portuguesas, desde as que integram o PSI20 até às mais recentes start-ups”;
  • Os eventos da SCIP Portugal* – Strategic and Competitive Intelligence Professionals – que pretendem, de uma forma informal, dar a conhecer o CI, assim como promover o networking da comunidade ligada ao tema;
  • A SCIP* European Summit que este ano se realiza em Portugal pela primeira vez, e que pode dar uma visão alargada, além de formação específica, sobre este tema.

Uma última chamada de atenção para o facto de ter de ser desde o início que as start-ups devem proteger as suas ideias, a sua propriedade intelectual e os seus segredos de negócio. Muitas start-ups baseiam os seus produtos e serviços numa componente de programação e tecnologia que cada vez mais está ao acesso de todos. Assim, é absolutamente crítico garantir que os concorrentes apenas têm acesso à ideia de negócio da nossa start-up o mais tarde possível! Caso contrário, concorrentes com mais recursos podem chegar primeiro ao mercado, de forma mais eficaz, e garantindo a escala necessária para materializar a ideia num negócio sustentável.  E pensar que, originalmente, a ideia desse negócio até tinha sido nossa…

*Disclaimer: O autor é docente ou stakeholder nestas organizações.

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Sobre o autor

Luís Madureira

Luis Madureira é fundador da ÜBERBRANDS, uma boutique de consultoria estratégica que ajuda organizações e os seus líderes a navegar o ambiente competitivo com sucesso. É chairman da SCIP Portugal e foi recentemente distinguido com o Fellowship e convidado a... Ler Mais