Opinião

Criar valor através do smart money

Daniel Ibri, cofundador e managing partner da Mindset Ventures

Ao longo dos últimos anos, o mercado de venture capital cresceu exponencialmente, atingindo mais de 200 biliões de dólares em transações em 2021 e atraindo a atenção até dos investidores mais conservadores, cuja aversão ao risco abriu exceção para a curiosidade de como essa indústria explodiu num período tão curto de tempo.

Embora muitos empreendedores tenham enfrentado dificuldades durante a pandemia, quando os investidores congelaram os seus investimentos e o capital se tornou escasso, esse cenário reverteu-se tão abruptamente quanto a maneira como começou, e 2021 chegou ao fim de forma diferente da que vimos no ano passado.
Hoje, o excesso de capital força os investidores a competirem entre si pelos melhores deals e permite que os empreendedores sejam seletivos em relação a quem será seu próximo sócio investidor. No meio dessa nova realidade, os valuations atingiram valores nunca antes vistos e as oportunidades de investimento em condições razoáveis tornaram-se difíceis de encontrar. Com a disponibilidade de capital não sendo mais um problema, os empreendedores passaram a exigir algo a mais pela participação nas suas empresas: smart money.

Apesar do quão bem os investidores têm convencido os empreendedores de que os seus esforços de criação de valor farão diferença para as start-ups, o smart money parece ser oferecido como falsa publicidade na maior parte das ocasiões. Em linha com isso, a Forward Partners reportou que, enquanto 92% dos investidores oferecem iniciativas de criação de valor, 59% dos empreendedores sentem-se enganados sobre o que havia sido inicialmente prometido, com 49% relatando que essas iniciativas não surtiram efeito nos seus negócios. Esse problema apresenta dois lados da mesma moeda, uma vez que, ao mesmo tempo que uma parte relevante dos investidores não cumpriu com suas promessas, outra parte ainda mais significativa realizou esforços bem-intencionados, mas que falharam por quaisquer razões.

Com isso em mente, é razoável concluir que apenas um pequeno número de investidores é bem-sucedido nas suas iniciativas de criação de valor e cumprem adequadamente o que foi prometido aos empreendedores. Seria obviamente injusto desconsiderar aqueles cujos esforços bem-intencionados foram mal sucedidos. No entanto, esse tipo de iniciativa depende de experiência, processos bem estruturados e persistência para gerar resultados, e dificilmente funcionará sem que estes três fatores trabalhem juntos.

Na nossa história, já ajudamos cerca de 20% das nossas empresas a expandirem suas operações para o Brasil e muitas outras a aumentarem as suas vendas, a contratarem executivos-chave, a captarem rondas subsequentes e a tomarem decisões estratégicas. Como diversos outros processos de aprendizagem, iniciativas consistentes de criação de valor são precedidas por incontáveis acertos e erros. No entanto, diferentemente de outros processos do tipo, investidores de venture capital podem cometer um número limitado de erros antes que a sua reputação seja manchada no mercado, sendo crucial a aprendizagem rápida neste espaço. Olhando para tudo o que acertamos e erramos na criação de valor para as nossas start-ups, estas são as principais lições que aprendemos no decorrer da nossa jornada:

1- Crie uma equipa dedicada
Criar uma gestora com uma equipa dedicada de Value Creation desde o primeiro momento pode ser um passo longo demais no começo de qualquer fundo de venture capital. Todavia, conforme a empresa cresce e as iniciativas de criação de valor começam a se multiplicar, contar com um responsável por centralizá-las faz uma enorme diferença. Isso não significa que as iniciativas devam mudar ou que o resto da equipa não deva mais estar envolvido. Pelo contrário, as contribuições são sempre positivas, desde que estejam centralizadas e processadas por uma equipa dedicada a isso, responsável por definir os melhores passos a serem tomados nesta atividade, acertando mais do que errando e levando a empresa para outro nível de forma mais rápida do que seria noutro cenário

2- Engaje a equipa em doses homeopáticas
Encorajar a equipa a investir alguns minutos procurando formas de contribuir para dar suporte a uma empresa pode ser positivo, contanto que não sobrecarregue os funcionários com algo que não esteja no seu escopo de trabalho. Pela nossa própria experiência, pedir à equipa pequenas contribuições geralmente gera resultados melhores do que pedir imensas contribuições menos frequentemente.

3- Assegure que todos estejam na mesma página
Um dos hábitos que desenvolvemos é o de regularmente comunicarmos a todo a equipa os esforços de Value Creation. Algumas vezes, isso pode causar a impressão de que o tempo da equipa está sendo consumido com uma tarefa fora do escopo de trabalho de grande parte dos funcionários. No entanto, essa é uma maneira eficiente de fazer com que todos possam pensar em formas de providenciar o apoio que a equipa de Value Creation possivelmente ainda não tenha planeado. Além disso, isso também ajuda a garantir que nenhum projeto de criação de valor seja abandonado desnecessariamente e que a iniciativa que havia sido inicialmente prometida para as empresas seja devidamente desenvolvida e entregue.

4 – Saiba o quão longe a equipa pode ir
Mesmo que pareça óbvio, não se deve prometer o mundo caso ele não possa ser entregue. Não há problema em começar pequeno, mas não cumprir com a palavra pode comprometer a reputação do investidor e o seu relacionamento com os empreendedores. A nossa primeira iniciativa de criação de valor consistia em ajudar as nossas empresas a expandirem para o Brasil, promessa com a qual sabíamos que poderíamos cumprir e na qual fomos bem-sucedidos. O nosso escopo de iniciativas (contratação de talentos, mentoria, apresentação a possíveis clientes em escala internacional, entre outros) gradualmente aumentou ao longo dos anos somente após sabermos que poderíamos cumprir com cada uma dessas promessas.

5 – Conecte as start-ups com os LPs
Manter um relacionamento próximo com os investidores é um dos nossos pilares. Com isso, o engajamento deles sempre que precisamos criar conexões em uma indústria específica é substancialmente alto. Pela mesma razão pela qual os empreendedores esperam que os investidores entreguem mais do que somente dinheiro para eles, os investidores também esperam que os gestores de venture capital entreguem mais do que somente resultados. Nesse sentido, expô-los a circunstâncias em que eles possam aprender mais sobre o mercado no qual estão investindo é uma das melhores maneiras de se entregar o que estão esperando. Não surpreendentemente, muitas dessas circunstâncias surgem durante a criação de alguma conexão.

 6 – Nem todas as start-ups precisam de ajuda
Apesar da importância do smart money para a maioria dos empreendedores, algumas start-ups podem aceitar investidores por outras razões que não sejam necessariamente a capacidade de oferecer constante suporte. Na medida em que o portefólio do fundo de venture capital cresce, ajudar igualmente cada empresa investida torna-se uma tarefa praticamente impossível. No entanto, nem todas pedirão auxílio do investidor. Algumas podem prosperar sem precisar de ajuda alguma, outras negligenciarão a importância do suporte do investidor e outras start-ups, infelizmente, quebrarão antes mesmo que o investidor possa sequer começar a dar-lhes algum tipo de auxílio. Oferecer suporte (contanto que isso possa ser dado) pode ajudar, mas forçá-lo pode ser prejudicial.

7 – Qualidade é mais importante que quantidade
Embora os investidores possam acreditar que os esforços de criação de valor possam ser mensuráveis pela quantidade de tentativas de auxílio ou de criação de conexões que eles têm feito para as start-ups, entender o quanto tais iniciativas podem impactá-las é muito relevante. Para algumas empresas, ser apresentada a um potencial cliente relevante que realmente vê valor na solução oferecida, e que em algum momento decide fechar um contrato, é mais importante que dezenas de “apresentações cegas” que, mesmo que resultem em um ou dois pequenos contratos, dificilmente irão justificar o tempo consumido pela equipa de vendas da start-up. Além disso, é importante notar que, em algumas empresas, pequenas iniciativas de apoio podem significar muito mais do que os investidores poderiam imaginar. Negociar descontos com prestadores de serviços em prol da start-up, por exemplo, poderá reduzir sensivelmente a queima de caixa da empresa.

8 – Para algumas empresas, receber suporte pode fazer grande diferença
Para algumas das dezenas ou centenas de empresas em um portefólio, receber suporte pode significar ganhos maiores do que para outras. Idealmente, o investidor precisa de ser capaz de identificar as empresas que mais irão se beneficiar do seu auxílio e dedicar especial atenção a essas start-ups. Ao longo do tempo, as circunstâncias mudam, sendo crucial manter o acompanhamento em tempo real dessas empresas.

9- Organização é chave
Mais do que qualquer outra atividade, organizar apropriadamente os processos por trás dos esforços de criação de valor é extremamente importante. É difícil imaginar a geração de bons resultados nessa área sem que processos organizados sejam criados, mantendo todas as interações atualizadas e criando um plano de interação com todas as partes envolvidas no suporte às start-ups.

Mesmo que a indústria de venture capital seja cíclica como qualquer outro mercado, o que significa que ambos o excesso e a escassez de capital continuamente se intercalarão, iniciativas de criação de valor para as start-ups tornam-se uma clara tendência e eventualmente passarão a ser requeridas de qualquer investidor para que possam acessar deals competitivos, independentemente do quão escasso seja o capital disponível para investimentos naquele momento. Com isso em mente, qualquer fundo que procure competir pelos melhores deals deveria dar a devida atenção a esforços estruturados de criação de valor. Mais do que nunca, os empreendedores procuram mais do que somente dinheiro para aceitar novos investidores como seus sócios, e o smart money já mostra sinais de que se tornará uma nova prática pelos próximos anos

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Daniel Ibri

Daniel Ibri

Daniel Ibri é Managing Partner e cofundador da Mindset Ventures, fundo de Venture Capital internacional focado em start-ups dos Estados Unidos e Israel, e foi considerado um dos mais influentes investidores de 2018 pela publicação Venture360. Além disso, também é membro do Comité de Empreendedorismo, Inovação e Capital Semente da ABVCAP, membro do Conselho de Administração da Artemisia e de diversas start-ups no Brasil e exterior, mentor da Endeavor, da ACE, do Quintessa, da Alchemist Accelerator e do Lisbon-Challenge, além... Ler Mais..

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