A entrega vai ser feita pela Connect Robotics, uma start-up fundada em Portugal por dois brasileiros e que quer conquistar os céus portugueses com a sua tecnologia de entregas autónomas.

Qual é o futuro das cidades? Dada a tecnologia já existente e os planos de desenvolvimento de empresas privadas – que vão desde start-ups a multinacionais –, podemos dizer que se avizinha uma era tecnológica de apoio à mobilidade sem precedentes. No início da próxima década, as cidades mais inteligentes já poderão receber turistas em táxis que se conduzem sozinhos, terão camiões autónomos da Tesla a fazer descargas em grandes superfícies de retalho, trabalhadores que usufruem da sharing economy ao partilharem veículos no percurso para o trabalho, bicicletas e trotinetes espalhadas pelas zonas mais movimentadas com o objetivo de facilitar viagens de curta distância, os mais excêntricos poderão viajar pelo ar com táxis elétricos voadores e as entregas serão feitas via drone.

Há uma start-up portuguesa a lutar por esta realidade

É nesta última solução que este artigo se vai focar. Há uma start-up fundada em Portugal que está a lutar para implementar este novo modelo de entregas. A ideia começou no doutoramento de Eduardo Mendes na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). “Estava a trabalhar com controlo de veículos aéreos e, na altura, estava a montar drones para fazer testes do doutoramento e foi quando surgiu o boom das start-ups”, conta o empreendedor ao Link To Leaders.

Foi a partir daqui que Eduardo se apercebeu do potencial da tecnologia. Portanto, colocou o trabalho que estava a desenvolver na academia em stand-by e decidiu arrancar com um projeto próprio.

Nascimento da Connect Robotics

A Connect Robotics nasceu oficialmente em janeiro de 2015. Num avanço rápido até ao presente, depois de ter passado por um período de desenvolvimento e de ter recebido o apoio da ESA BIC Portugal – o centro de incubação da Agência Espacial Europeia em Portugal -, a start-up está em fase de adaptação à regulamentação e no início do processo de comercialização do seu serviço.

Eduardo & Raphael - Connect Robotics

O nascimento da Connect Robotics é resultado de uma parceria entre Eduardo Mendes (esquerda) e Raphael Stanzani (direita).

Num futuro próximo, com o apoio da tecnologia desta equipa, que é capaz de tornar os drones comuns – vendidos em lojas – em veículos de entregas autónomos, em vez das suas encomendas chegarem através de um estafeta que conduz uma carrinha ou uma mota, podem chegar pelo ar.

Contudo, por agora, aquele que poderá ser o futuro dos transportes de encomendas de curta distância ainda é dificultado pelo preço da tecnologia. “Para entregar pizzas é preciso um drone enorme que seja capaz de carregar uma caixa e um refrigerante de dois litros. Isto não é possível fazer com um drone de mil euros, mas sim de vários milhares de euros”, explica-nos o cofundador do projeto.

No entanto, espera-se que a tecnologia vá ficando mais barata: “os drones estão cada vez mais baratos e daqui a uns anos vai ser uma commodity – ‘todo o mundo’ vai utilizar drones para fazer entregas”, acrescenta Eduardo.

Mudança de direção

Devido ao preço dos drones de grande porte, a start-up decidiu focar-se num segmento de mercado específico: a entrega de medicamentos das farmácias aos utentes. O facto de serem bens leves, valiosos e que, por vezes, requerem alguma urgência na entrega, tornam esta área de atuação perfeita para a start-up.

Tendo igualmente em consideração que, regra geral, neste mercado é necessário um estafeta especializado para fazer a entrega, o serviço disponibilizado pela Connect Robotics apresenta-se como 50% mais barato e substancialmente mais rápido do que os meios de transporte atualmente utilizados.

Regulamentação dificulta atuação

Apesar de ser um segmento de mercado bastante atrativo para a operação, o transporte de fármacos está altamente regulamentado, o que significa que a Connect Robotics terá de se adaptar às regras impostas pelo INFARMED – a entidade supervisora dos setores dos medicamentos e produtos de saúde em Portugal.

Neste campo, explica o cofundador do projeto, as dificuldades estão praticamente ultrapassadas. A start-up já tem um cliente piloto, em Tondela (Viseu). “Estamos a fazer estes ajustes e depois voltamos a entrar em contacto com o INFARMED para ver os resultados. Eles autorizaram-nos a fazer o teste com esta farmácia”, refere Eduardo Mendes.

Os ajustes relatados são a um dispositivo que está a ser desenvolvido e que mantém a temperatura ideal para conservar os comprimidos. Depois de conseguir os resultados positivos com esta caixa refrigerada, a equipa espera conseguir o aval do INFARMED para que possa expandir o negócio para outras zonas de Portugal. “Temos algumas outras farmácias em espera que querem usufruir do nosso serviço”, afirma Eduardo Mendes.

Porém, há outra barreira à expansão para as zonas mais povoadas do país: o elevado tráfego aéreo. No caso de Lisboa, “o aeroporto tem-nos dado muitas dores de cabeça por estar no meio da cidade” e a start-up está a operar com “o mesmo grau de exigência do que uma aeronave tripulada”, esclarece o empreendedor. Neste âmbito, a Connect Robotics está a trabalhar junto da Autoridade Nacional de Aviação Civil (ANAC) para aprovar a sua operação.

Por estes motivos, a próxima expansão não passará por Lisboa, mas sim pelo interior do país continuando a promover o serviço por outras farmácias, como é o caso da de Tondela. Neste momento, a equipa quer fugir às zonas com aeroportos.

Remédios para lugares remotos

O facto da Connect Robotics ter optado por começar a trabalhar no interior traduz-se numa nova solução para os idosos que vivem isolados e em lugares de difícil acesso. “Analisando o caso real das farmácias [do interior], uma entrega demoraria, em média, 40 minutos e com o risco de haver acidentes” devido às estradas em mau estado. Em vez disto, a equipa de Eduardo Mendes propõe a celeridade de um drone que é controlado remotamente por alguém à frente de um computador. Neste caso, a encomenda chegaria em menos de 10 minutos.

Por esta altura, há uma questão que se pode levantar: como é que a start-up tem a certeza de que quem recebe a encomenda é o destinatário indicado? Eduardo Mendes explicou-nos que os drones ainda não têm um sistema de segurança e que as entregas têm de ser feitas em locais privados – como um jardim. Na altura de receção, as pessoas que encomendaram os medicamentos estarão em contacto telefónico com o farmacêutico de forma a terem a certeza de que a operação é bem sucedida.

O serviço já levou a start-up a receber o Prémio João Cordeiro 2018 – uma distinção atribuída pela Associação Nacional de Farmácias –  devido à entrega de medicamentos em zonas remotas.

O modelo de negócio praticado pela Connect Robotics assenta numa mensalidade paga pelas farmácias e uma taxa de adesão que inclui os gastos da manutenção dos drones. “É como um serviço ‘chave na mão’”, explica o cofundador.

Futuro

Para além do transporte de fármacos, a start-up está também a trabalhar num projeto com a Fundação Champalimaud que tem como objetivo a entrega rápida de amostras de sangue – uma outra solução que está a ser dificultada pelo elevado tráfego aéreo lisboeta.

Apesar de atualmente a Connect Robotics estar focada em expandir o seu serviço para o mercado farmacêutico, Eduardo Mendes revelou-nos que não está fora dos seus planos avançar para outras áreas de atuação, como a entrega de comida. A start-up já chegou a juntar-se à Santa Casa da Misericórdia para entregar refeições ao único habitante de uma aldeia no Centro de Portugal (confira no vídeo).

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