Depois de um percurso internacional que passou por Londres e Nova Iorque, entre outras geografias, o Satore Studio de Tupac Martir instalou-se em Lisboa. Trabalha com produção virtual e realidade aumentada, ferramentas tecnológicas que quer pôr ao serviço das empresas e marcas nacionais, recorrendo sempre que possível ao talento português.

Tupac Martir é o diretor criativo e fundador do Satore Studio. É um artista digital multifacetado, cujo trabalho envolve as áreas de iluminação, projeção e vídeo, design de som, música e composição. Soma prémios internacionais e já trabalhou com nomes maiores da música e da moda como Alexander McQueen, Vivienne Westwood, Beyoncé ou Elton John, e marca internacionais como Diageo e Jaguar Land Rover.

O seu estúdio criativo, com escritórios em Londres, Cardiff, Lisboa e Nova Iorque, combina design e tecnologia para dar vida a conceitos arrojados, entregando experiências virtuais memoráveis ​​de desfiles, palcos e cenários para públicos em todo o mundo.

Há pouco mais de um ano instalou o seu estúdio em Portugal, em plena pandemia, e assinou uma residência artística na Fundação Champallimaud. Em entrevista ao Link To Leaders, Tupac Martir fala da sua carreira, do talento que encontrou no nosso país e da visão que o move.

Quais os objetivos para o Satore Studio em Portugal?
A empresa abriu no dia um de dezembro de 2020 e já vivo em Portugal há um ano. Mudar-me durante a pandemia foi muito, muito difícil… O objetivo é trazer toda equipa de R&D para cá. Em vez de ter a equipa em Londres ou Nova Iorque, a ideia é trazer a equipa e o que fazemos para Lisboa. Eventualmente aumentar a equipa para 8 ou 10 pessoas. Tudo com talento local. Quero construir a equipa com pessoas que se tenham formado nas universidades locais ou portugueses que se tenham formado fora e queiram regressar a Portugal.

“Ao longo dos meus anos de trabalho, conheci portugueses muito talentosos que deixaram Portugal (…)”.

Porque escolheu Portugal? 
Por vários motivos. Em primeiro lugar, pelo clima que é fabuloso. A qualidade de vida é fabulosa. Mas também porque há muito talento. Ao longo dos meus anos de trabalho, conheci portugueses muito talentosos que deixaram Portugal porque não encontraram oportunidades para ficar. Se tivessem oportunidades ficavam cá. O que significa que há talento. Então porque não vir para cá e descobrir esse talento e dar-lhes oportunidades? Mas também gosto porque é um excelente “testbed” em que se podem testar todos os elementos de uma forma muito controlada.

Que tipo de projetos tem estado a desenvolver?
Fizemos um projeto para a Verizon, que ganhou um Leão no Festival de Cannes, e fizemos tudo aqui. Temos feito muito R&D e estamos em várias competições. E também estamos a começar a trabalhar muito com motion capture, por exemplo. Devagar vamos começando a fazer trabalho aqui.

Depois de tantos anos de trabalho em Londres, que diferenças encontra na dinâmica empresarial dos dois países?
Não lido muito com a parte gestão, sou o tipo criativo. Abrimos a empresa no meio da Covid e há uma série de coisas que sei que seriam muito mais rápidas se tivesse podido fazê-las em pessoa. Dadas as circunstâncias, no final até foi bastante fácil.

É claro que é um pouco doloroso, mas abrir uma empresa é sempre doloroso em qualquer parte do mundo. Acreditem que já fiz isso, já tive cinco empresas em diferentes partes o mundo. É sempre difícil. Mas há muitas coisas que já se podem fazer digitalmente, o que dá sempre muito jeito, e depois o dia a dia das coisas que temos de fazer para mim não é muito diferente do que se estivesses em França.

“Queremos trabalhar com as empresas e desenvolver o ecossistema existente”.

Espera fazer parcerias com empresas portuguesas?
Sim, claro que sim. Tivemos conversações prévias com a NOS, com a Altice…estamos a discutir o que podemos fazer. Mais uma vez, no caso das universidades, falámos com a Lusófona, com a Nova e tentamos encontrar formas de podermos trazer-lhes algo de diferente. Como podem imaginar foi muito difícil no início encontrarmo-nos e tentar fazer coisas porque estávamos no meio de uma pandemia.

Mas as coisas começaram a abrir e a avançar cada vez mais, o que torna tudo mais fácil. Fiz algumas reuniões pelo país com várias empresas, que não posso revelar, mas a nossa ideia é criar raízes aqui e não apenas viver aqui e trabalhar. Queremos trabalhar com as empresas e desenvolver o ecossistema existente. Por exemplo, já começamos uma residência artística na Fundação Champalimaud, com a artista portuguesa Clo Bourgard. Vamos estar a trabalhar com a Fundação nos próximos meses, a desenvolver projetos.

Trabalha com empresas em vários contextos. Pode falar-nos um pouco disso?
Sim. Trabalhamos com Verizon, com a O2, fazemos muitos trabalhos para empresas de telecomunicações. E o nosso trabalho no setor da moda é imenso. Trabalhos com Alexander McQueen, Max Mara, SportMax, Hugo Boss, Simone Rocha, Prada, Louis Vuitton…Normalmente não falo de marcas e parcerias porque é apenas uma das áreas. Trabalhamos com arquitetos, atualmente temos um espaço a ser construído em Manchester. Temos elementos que são usados em teatros, construímos em vários espaços. Portanto, o contexto daquilo que fazemos é muito variado.

O que torna a produção virtual mais fácil?
A produção virtual não é fácil. Esse é o problema. A produção virtual (VP) é um trabalho laborioso, que leva tempo e não dá para cortar caminho. Essa é uma das coisas principais, as pessoas que tentam cortar caminho no final acabam por “queimar-se”. É um processo e sim, esse processo está melhor desde 2017 o que é normal porque mais pessoas estão a entrar na atividade e a descobrir novas formas de trabalhar.

Claro que quanto mais trabalhamos com estas ferramentas, melhor as entendemos. Mas a produção virtual não é fácil. Tentamos encontrar maneiras de simplificar, mas temos de entender que a VP é uma tecnologia que não estava feita para ser lançada já.

Porquê?
A Virtual Production estava destinada a ser uma tecnologia para ser lançada em 2022-2023. Assim podíamos ter um período de gestação em que podíamos trabalhar muito neste tipo de coisas. Infelizmente, a Covid chegou e arrebatou tudo à sua volta e fez isso super-rápido e tivemos que a implementar. Mas não tínhamos a ideia de que ia ser assim tão rápido.

“Há a ideia de que a produção virtual é apenas para filmes ou espetáculos, mas não”.

Como negócio o que se pode alcançar com a VP?
Acho que há muito a explorar na VP. Uma das grandes questões que temos são os custos. Há muita coisa a explorar na forma como usamos a VP. Mas mais uma vez, quando mais usamos com mais coisas temos de lidar, de criar, de fazer. Se houver mais volume de trabalho, os custos diminuem. E também há o facto de que nem tudo tem de ser feito forma virtual. Há muitas coisas que podem ser feitas apenas com um bom set de filmagens. Fazemos muito trabalhos em que colocamos pessoas em carros para fingir que estão a conduzir e as pessoas que veem nem percebem.

Acho que há muito a explorar na indústria da moda, muito a fazer na indústria da música. Há a ideia de que a VP é apenas para filmes ou espetáculos, mas não. É claro que são os setores que tendem a ter mais dinheiro para fazer esse tipo de coisas, mas há muitas coisas que podemos fazer, que podemos alcançar se tivermos mais tempo para explorar. E também se as pessoas forem um pouco mais abertas, mais recetivas. Há muito receio porque isto custa muito dinheiro, por isso é um equilíbrio com que temos de jogar.

Quais são atualmente os principais desafios que enfrentam? É a tecnologia que não está acompanhar a criatividade ou contrário?
Um dos meus maiores medos é que a tecnologia se torne a criatividade. Quando a tecnologia se transforma em criatividade é um problema. A tecnologia está aqui para servir a criatividade. E não é só neste mundo que isso acontece. Acontece em live entertainment, no teatro, em muitos muitos outros locais em que os novos elementos tornam isso em criatividade. O tipo de luz que se vai usar depende do tipo de espetáculo que se está a tentar fazer.

O problema é que muitas pessoas, em muitas áreas, agarram na tecnologia como na criatividade e esquecem que a tecnologia é apenas tecnologia. É um personagem. Da mesma maneira que um ator, é um personagem e tem uma razão de existir, um comportamento que traz algo à peça. É o mesmo quando se usa tecnologia, para trazer algo de novo à peça, porque de outra maneira, qual o sentido?

Como avalia o mercado?
O mercado está aí para ser tomado. É apenas uma questão de ter relacionamentos com o mundo exterior, ter esses relacionamentos com a Netflix Europa, com a Amazon, com a Disney… para que saibam que estas coisas estão a ser construídas e para que possam vir até aqui.

É isso que espera que o seu estúdio faça? A ponte entre o mercado internacional e o português?
Não. Porque no final do dia não é esse o meu ambiente. Sei de pessoas capazes de o fazer, mas não eu. Eu sou um artista, andei na escola de artes, tenho um master em Theater Design… fico feliz em poder usar a tecnologia, em estar envolvido no que os estúdios estão a construir, partilhar o meu conhecimento, e o que podemos fazer, mas não tenho o contacto da Netflix… Sim, já trabalhamos para a Netflix, para a Amazon. Sim, trabalhamos para essas empresas para através das empresas de produção que trabalham com eles.

Em Portugal, com a pandemia, muitas empresas começaram a introduzir a VP na sua estratégia. Isso também aconteceu noutros países?
É exatamente o mesmo. E enfrentam o mesmo tipo de problemas. A grande questão é que é uma tecnologia cara e os budgets que existem não são suficientes para tentar usar esta tecnologia. É um problema de custo. Obviamente têm de adaptar a sua estratégia de custos à forma como se fazem as coisas, para se ser capaz de levar isto às pessoas em diferentes indústrias. Para mim essa é a grande questão.

“Portugal tem tudo para se tornar um hub, todas as oportunidades, com um excelente talento”.

Do que já conhece do mercado nacional, acha que Portugal tem possibilidade de vir a ser um hub dentro desta área?
Acho que sim. Portugal tem tudo para se tornar um hub, todas as oportunidades, com um excelente talento. É apenas uma questão de encontrar o investimento correto. E investidores. Porque a produção virtual é um futuro, não o futuro. É um dos muitos elementos que vão existir. Porque quanto mais se diz que é o futuro, está-se a bloquear tantos outros elementos criativos.

E quanto ao futuro. Para onde caminha esta área?
Agora estamos a afinar esta ferramenta. Está-se a melhorar. Mas, mais uma vez, para se conseguir fazer coisas tem de se gastar dinheiro, nos processos, nas máquinas que se usam, nos estúdios…é muito investimento e tem de se saber muito bem o que se está a fazer.

Há dinheiro em Portugal para isso?
Acredito que há pessoas interessadas em investir. É apenas uma questão de, como sempre, saber como chegar a essas pessoas, como falar com elas.

Há business angels que investem nesta área?
Não tenho a certeza aqui em Portugal, mas no resto do mundo sim. A questão é como investir 3 ou 4 milhões sem ter um retorno imediato. O retorno não acontece num ano, especialmente no meio de uma pandemia. É muito difícil para as pessoas investir.

Algum setor com maior potencial de crescimento no futuro?
Acho que na música e na moda. No dia em que perceberem o que podemos fazer vai ser enorme o salto. Finalmente estão a perceber que podem fazer coisas com realidade virtual (VR). A moda está 10 anos à frente de qualquer outra indústria. Acho que o setor automóvel também vai beneficiar muito da VR, tal como a área de training e da educação.

Qual era a marca que gostava que a Statore Studio criasse em Portugal?
Podia falar de 10 marcas com as quais gostava de trabalhar porque acho-as interessantes. Mas é mais do que isso. Como no caso da Champalimaud, é criar janelas para as pessoas verem o que a tecnologia pode criar, como a tecnologia, a criatividade e arte podem trabalhar conjuntamente com a ciência em novas coisas.

A visão que tenho para mim e para o estúdio são similares. Como pessoa, o meu propósito é ser o melhor líder que conseguir ser. Líder criativo, tecnológico, ser capaz de criar trabalho que o mundo possa olhar e sentir-se envolvido e sentir que alguém partilha exatamente a mesma coisa com quem fez, e isso liga-os. Criar pontos de interação com outros seres humanos.

Em termos do estúdio temos uma máxima que é “para prever o futuro tem de o desenhar”. A nossa visão é desenhar o futuro, desenhar essas interações com o resto do mundo. A visão é criar isso e trazer as pessoas connosco. Não é uma viagem para se fazer sozinho. É uma viagem em que convidamos todos a juntarem-se a nós. A minha visão é ser esse facilitador, ser capaz de abrir diferentes realidades às pessoas.

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