“Queremos chegar a todos os continentes com uma edição anual. Estamos em contacto com a África do Sul para chegarmos ao continente africano. Também estamos a explorar as Ilhas Fiji e a Índia. Esse é o objetivo”, revelou Israel Pons, cofundador do Pitch at the Beach, ao Link To Leaders nas vésperas da realização do evento que mistura sol e praia em Portugal.

Oeiras vai receber nos próximos dias 2 a 4 de julho, o Pitch at the Beach, considerado o evento de investimentos mais disruptivo da América. O Pitch at the Beach realiza, assim, a sua primeira edição na Europa e está à procura de 30 start-ups para apresentarem os seus projetos a um grupo de business angels, venture capitalists, family offices e investidores privados.

Em entrevista ao Link To Leaders, Israel Pons, cofundador do evento, refere que “o Pitch at the Beach tinha de ser diferente. Nós somos mais humanos quando estamos em contacto com a natureza e somos mais alegres e sociáveis quando estamos de férias. Quando vamos à praia somos mais simpáticos com as outras pessoas, sorrimos, conversamos. Por isso, este evento teria de se realizar junto à praia e sem crachás”.

Para o também business angel, CEO da Angels Nest LATAM e presidente do World Business Angels Forum, “o networking tornou-se mais humano, principalmente depois do contexto pandémico, e precisamos de recriar essas ligações humanas. O Pitch at the Beach promove este networking durante três dias”.

O evento já passou por Cancún, Tulum e na Ilha Pasión, em Cozumel, México, e conta com um investimento acumulado de mais de oito milhões de dólares (7,4 milhões de euros).

O que o levou a criar o Pitch at the Beach? E em que consiste?
Tenho ido a muitas conferências em todo o mundo e todas as que fui tinham o mesmo formato. Realizadas em salas de hotéis, quatro paredes, um palco ao fundo e alguns ecrãs. Na verdade, podíamos estar em qualquer sítio do mundo, em qualquer grande cidade, em Lisboa, em Londres, em Nova Iorque ou na Cidade do México. Todos os hotéis pareciam iguais. Além disso, temos de nos vestir formalmente para ir a estas conferências, temos de ser algo que, normalmente, não somos.

Usar gravata, envergar um crachá com nome e cargo, seja diretor, CEO ou investidor, algo que soe importante porque as pessoas vão olhar para lá. Durante as conferências tiramos apontamentos e tentamos escolher os speakers com quem queríamos tirar uma foto para colocar no Instagram e fazer boa figura. Até os coffee breaks são iguais, café e biscoitos, que muitas vezes nem são nada de especial.

Portanto, para mim o Pitch at the Beach tinha de ser diferente. Nós somos mais humanos quando estamos em contacto com a natureza e somos mais alegres e sociáveis quando estamos de férias. Quando vamos à praia somos mais simpáticos com as outras pessoas, sorrimos, conversamos. Por isso, este evento teria de se realizar junto à praia e sem crachás.

Próximo passo, o evento precisava de ter conteúdo, networking, interesse. Se estivermos em contacto com a areia, com a natureza, usando roupa confortável, podemos falar livremente com outras pessoas, desconhecendo se são diretores ou investidores ou empreendedores. Somos todos pessoas.

“Criamos aventuras e experiências para que as pessoas conheçam o local onde estamos, provem a gastronomia local, façam atividades típicas locais. Num ambiente informal, sem crachás, onde podemos falar com toda a gente”.

Qual a importância do networking no contexto dos negócios de hoje?
O networking tornou-se mais humano, principalmente depois do contexto pandémico, e precisamos de recriar essas ligações humanas. O Pitch at the Beach promove este networking durante três dias. No primeiro dia, escutamos keynote speakers sobre novas tendências de tecnologia, metaverse, inteligência artificial, blockchain, cripto, smart cities, para onde nos leva a tecnologia.

No segundo dia, falamos sobre o lado humano do empreendedor e do investidor. Todos sentimos pressão para ser os melhores e, neste dia, partilhamos essas experiências, pois é normal errar e ter dúvidas. No último dia, falamos de investimento, do impacto financeiro, angel investors, venture capitals, como se consegue o investimento e financiamento necessário.

Além disso, durante o dia, criamos aventuras e experiências para que as pessoas conheçam o local onde estamos, provem a gastronomia local, façam atividades típicas locais. Num ambiente informal, sem crachás, onde podemos falar com toda a gente.

O que o Picth at the Bicth traz de inovador?
Sabíamos que as start-ups estão dispostas a falar com os investidores e que esses investidores querem ouvi-las. Normalmente, essas conversas acontecem em salas fechadas, em hotéis ou em reuniões formais, em ambientes onde são obrigados a mostrar algo que não são. No Pitch at the Beach temos uma vantagem enorme: pessoas primeiro, negócios depois.

Este evento é sobre conexão de pessoas, só depois chegamos às conexões de negócios. Para nós, é importante criar essa ligação entre pessoas, pois, se nos relacionarmos com alguém, mais facilmente iremos avançar com uma parceria ou investimento.

O que espera da edição portuguesa?
A edição portuguesa vai ser a primeira na Europa. Esperamos muitas start-ups portuguesas, investidores, diretores de empresas e diretores de inovação. Também temos promovido o evento junto da nossa comunidade internacional e o feedback tem sido muito positivo, com muito interesse pelo evento e pelo mercado português.

Era um objetivo chegar à Europa e a forma como fomos recebidos e o entusiasmo dos nossos parceiros locais tem sido extraordinário. O Taguspark, desde o primeiro momento, tem sido o principal impulsionador e embaixador do Pitch at the Beach Portugal e, para nós, é importante ter este apoio do principal parque de Ciência e Tecnologia do país. Esperamos que esse entusiasmo se alastre ao ecossistema de inovação de Oeiras Valley e de Portugal.

“Existem mais de 100 business angels só em Lisboa, mas há mais em todo o país. Isto é muito interessante pois, onde há capital, os empreendedores e as start-ups tendem a estar lá e não precisam de migrar para outros países à procura de capital”.

Como descreve o estado do ecossistema empreendedor português?
É provavelmente um dos ecossistemas mais ativos na Europa. Muita inovação, ótimos parques de ciência e tecnologia, especialmente na região de Oeiras onde existem muitas start-ups que criam inovação. Os empreendedores encontram uma ótima qualidade de vida nesta região e estão englobados no ecossistema português, onde os business angels são muito ativos.

Existem mais de 100 business angels só em Lisboa, mas há mais em todo o país. Isto é muito interessante pois, onde há capital, os empreendedores e as start-ups tendem a estar lá e não precisam de migrar para outros países à procura de capital. Assim, os talentos, os cérebros e a inovação ficam no ecossistema português.

O México tornou-se no mercado mais atrativo para start-ups na América Latina. O que tem contribuído para isso?
O próprio mercado mexicano está mais tecnológico, a população está mais tecnológica. A maioria das pessoas tem, agora, um smartphone com acesso a apps para melhorar a sua vida e conectar-se com outras pessoas. Aliado a isto, o facto de o México ser o maior país de língua espanhola da América Latina, torna-o uma localização privilegiada para start-ups locais ou que queiram crescer na região. À medida que os empreendedores chegam ao México, os investidores estão atentos e também promovem este crescimento. Estima-se que a América Latina seja o mercado mais apetecível para venture capitals nos próximos três anos.

Como foi a última edição mexicana?
Pela primeira vez, tivemos uma audiência muito maior, devido ao fim das restrições causadas pela pandemia, mas também porque a marca e o conceito Pitch at the Beach tem-se afirmado como “o” evento no continente americano – pela qualidade dos temas, dos speakers, das start-ups e do próprio evento, que se tornou um evento a não perder. Na última noite, tivemos uma oferta de 1 milhão de dólares para uma start-up. Portanto, foi uma edição de sucesso, com ótimo feedback e que terminou, como sempre, com um passeio de barco e coincidiu com uma noite de eclipse lunar.

O que podemos esperar do projeto no futuro?
Acima de tudo, esperamos continuar a crescer internacionalmente. Temos tido um crescimento orgânico e queremos manter os pés no chão. Pela primeira vez, vamos estar na Europa, graças ao nosso parceiro Taguspark. O Eduardo Baptista Correia, CEO do Taguspark, esteve em três edições, acreditou no projeto e ajudou-nos a abrir esta porta. Estamos muito entusiasmados e esperamos ter casa cheia e superar as expetativas.

“Estamos em contacto com a África do Sul para chegarmos ao continente africano. Também estamos a explorar as Ilhas Fiji e a Índia. Esse é o objetivo”.

Onde gostaria de realizar o Pitch at the Bicth e ainda não teve oportunidade? Que países podemos esperar?
Queremos chegar a todos os continentes com uma edição anual. Estamos em contacto com a África do Sul para chegarmos ao continente africano. Também estamos a explorar as Ilhas Fiji e a Índia. Esse é o objetivo. Temos um evento que acrescenta valor a quem marca presença, consegue ser poderoso e grande e, ao mesmo tempo, pequeno e humano, podendo ser realizado em qualquer parte do mundo.

Como se tornou num investidor?
Quando vivi no Reino Unido, duas pessoas vieram ter comigo e disseram que eram business angels e queriam investir. Tornámo-nos amigos, foram meus mentores e sempre soube que, se tivesse sucesso, queria ser um business angels. Acredito que, as pessoas bem-sucedidas nos negócios devem partilhar o seu conhecimento e, até, o seu dinheiro com os empreendedores.

Existe alguma coisa em particular que procura nas start-ups? Alguma coisa que possa aconselhar os empreendedores a se concentrarem e que considere atrativa?
Nós olhamos para o lado humano dos empreendedores. Na parte de negócios devem ter tudo bem claro e o meu conselho é que conheçam o mercado, perceberem se o consumidor vai comprar o produto, se o produto é relevante, se promove a qualidade de vida ou se resolve um problema que custa dinheiro. As pessoas só estão dispostas a pagar por algo que as ajude a poupar dinheiro ou que lhes permita ter mais qualidade de vida.

Tudo o resto não é relevante. Portanto, como fazem dinheiro, qual é o tamanho do mercado, qual é a equipa que tem consigo e como usam a tecnologia são aspetos que não podem descurar. Além disso, devem pensar muito bem por que estão a arriscar naquele projeto. Por que estão a tornar-se empreendedores.

Quais são os maiores desafios para os business angels no momento?
Atualmente, os empreendedores estão a crescer rapidamente e necessitam de maiores investimentos. Isto significa que alguns business angels não vão conseguir investir em algumas start-ups. O maior desafio é encontrarem outras redes de investidores em quem possam confiar para coinvestirem.

Como vê a ascensão das mulheres no mundo dos investimentos?
Acho que esse será o maior desafio do ecossistema empreendedor. Precisamos de mais mulheres empreendedoras e mais mulheres a investir. Apenas 3% dos business angles no mundo são mulheres, apenas 1,5% na América Latina são mulheres. Na Europa, a percentagem é ligeiramente superior, mas continua a ser uma minoria.

Está provado que ter mulheres entre os investidores aumenta substancialmente o sucesso das start-ups e gostava muito de ver cada vez mais mulheres a entrar neste ecossistema, aproveitando também para convidar as mulheres empreendedoras, fundadoras de start-ups, diretoras de inovação, chefes de equipa e investidoras a marcarem presença no Pitch at the Beach Portugal.

Que países devem os BA e as empresas de capital de risco estar mais atentas às oportunidades de negócio nos próximos meses?
Os mercados americanos são dos mais interessantes, como a América Latina. Vemos também o crescimento do mercado africano, seguido do asiático. Se fores um business angels na Europa, além de investir localmente, há oportunidades para explorar parcerias com outros venture capitals e coinvestir internacionalmente, para ter mais sucesso, aumentar o seu portfólio e minimizar o risco.

“Sejam mais humanos. Parem de tentar ser como o Elon Musk ou o Steve Jobs ou o Mark Zuckerberg. Todas as suas start-ups, tal como a Google, a Netflix, o Twitter, etc., tiveram investimento de business angels”.

Que conselho  daria a todos aos empreendedores?
Sejam mais humanos. Parem de tentar ser como o Elon Musk ou o Steve Jobs ou o Mark Zuckerberg. Todas as suas start-ups, tal como a Google, a Netflix, o Twitter, etc., tiveram investimento de business angels. Nem todos os empreendedores podem ser como eles, existe apenas um Elon Musk, um Steve Jobs. Portanto, sejam mais humanos, sejam mais felizes, estejam com a vossa família, com os vossos amigos. Nunca te esqueças que há pessoas à tua volta que te amam e é importante que sejas feliz contigo próprio. De outra forma, como empreendedor, vais falhar se apenas te dedicares ao negócio. Os business angels e venture capitals investem em empreendedores, não em modelos de negócios.

Os modelos de negócio podem ser alterados, mas apenas o empreendedor tem a capacidade humana para gerir o negócio. Se não estiver feliz consigo próprio nem rodeado por pessoas que gostem de si, não vai ser totalmente humano ou transparente. Ao ser mais humano vai levar a que mais pessoas acreditem em ti.

Qual a principal lição que prendeu como empreendedor e também como business angel?
Número um: Nunca devemos parar de olhar para o cashflow. Isso diz-te quanto tempo tens até ficares sem dinheiro. Número um: rodeia-te de pessoas que acreditem em ti e no projeto, e não em pessoas que estão à tua volta porque lhes pagas. Principal lição como investidor: Faz as tuas diligências em detalhe, sempre. Nunca penses que as coisas vão estar todas certas depois de fechar negócio. Garante que confirmas sempre tudo. Lembra-te que só tens uma oportunidade para analisar tudo sobre uma start-up antes de investir.

Respostas rápidas:
O maior risco:
Investir dinheiro sem documentos assinados. Mas se acreditarmos no empreendedor, temos de agir logo.
O maior erro: Acreditar que o teu ego pode desaparecer. O teu ego vai estar sempre contigo e pode trair-te nos momentos em que mais precisas de ter a mente limpa. O meu maior erro é acreditar que consigo controlar o meu ego. Esse ego pode levar-nos a cometer os nossos maiores erros.
A melhor ideia: Pitch at the Beach.
A maior lição: Ter tempo para estar com a família. Nem tudo é (sobre) trabalho.
A maior conquista: levar o Pitch at the Beach para a Europa, para Portugal. Será seguramente o maior feito da minha carreira.

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