Não sei qual o prazo do socialmente aceitável para artigos sobre o Web Summit. Sou um participante assíduo das últimas duas edições, em Lisboa, no entanto, acho que será difícil escrever algo que já não tenha sido escrito sobre este evento incrível – tão incrível como os mil “incríveis” ditos pelo Paddy Cosgrave na sessão de abertura do Web Summit e tão bem detetados por Ricardo Araújo Pereira.

Prefiro, portanto, passar a minha experiência naquela que foi uma presença muito peculiar para uma start-up. Estivemos cinco dias acompanhados pelo Prof. Mohan Munasinghe, vencedor do Prémio Nobel da Paz em 2007 enquanto vice-presidente do Painel Intergovernalmental para as Alterações Climáticas. Uma presença na cidade e no evento que passou bem mais despercebida do que a do outro vencedor deste prestigiado prémio, no mesmo ano.

Al Gore chegou, pregou e saiu. Uma fantástica demonstração de que é preciso criar momentum para um movimento de sucesso. Um movimento urgente e crítico, numa altura em que se torna cada vez mais clara a necessidade de mudar os comportamentos de uma sociedade que sabe o que fazer, mas na realidade pouco faz. Acredito que metade do caminho que devemos tomar parte destas intervenções. Parte da mensagem forte e da inspiração.

Agora…quantas daqueles milhares de pessoas saíram da Altice Arena e foram de bicicleta ou transportes públicos para as suas casas e hotéis? Quantos participantes, nos dias seguintes ao Web Summit, passaram a reciclar ou aumentaram a eficiência dos seus eletrodomésticos em casa? Que real mudança deixou Al Gore na cidade? No país? Nas empresas e start-ups? Estas são algumas das perguntas que me tenho colocado nos últimos dias. Mas nunca me atreveria a fazer uma sondagem por mera opinião pessoal.

O prémio nobel mais discreto esteve em Portugal cinco dias. Um dos principais intervenientes no Rio+20, na definição dos 17 Objectivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS) da agenda 2030 da ONU, nas negociações para o Acordo de Paris, com dezenas de projectos mundiais de investigação e ex-consultor de vários governos, entre os quais o dos EUA, para o ambiente. Este é o prémio nobel que esteve em Portugal cinco dias, a convite de uma start-up, para deixar a sua mensagem nas três frentes fundamentais à transformação global: Empresas, Consumidores e Líderes. Ofereceu a sua valiosíssima disponibilidade e experiência para ajudar uma empresa portuguesa recém-nascida que, segundo o próprio, não tem dúvidas que “pode desempenhar um papel crucial no caminho para os ODS”.

Domingo, dia 5 de Novembro. Um dia antes da sessão de abertura do Web Summit. Fiz questão de ir ao aeroporto receber o professor. Chego ao aeroporto com uma ligeira sensação de dejá vu – centenas de pessoas a chegar a Lisboa e a ir diretamente aos balcões de registo do Web Summit. Sempre com paragem obrigatória para uma fotografia com as letras gigantes WEB SUMMIT em modo de boas-vindas, no pátio central interior do aeroporto. Os voluntários do evento são às dezenas pelo edifício, perguntando se estamos lá pelo Web Summit (pergunta à qual devem receber uma resposta positiva cerca de 95% das vezes) e dispostos a ajudar sempre com a maior das simpatias.

Ainda consegui ter esta perceção durante umas boas horas devido ao atraso do voo do professor. A companhia aérea garantiu duas horas adicionais a uma viagem já de 12 horas. Assim que chegou, sempre acompanhado pela sua mulher, fruto de um casamento de 47 anos, escolheram o lado mais calmo das rampas de chegada, fugindo ao “cordão voluntário” que estava instalado na rampa oposta. Ao chegarem, o encontro parecia de amigos de longa data, apesar de apenas termos estado juntos uma vez, em Guimarães. Após todos os registos e check-ins, o professor fez questão de jantar na presença das nossas mulheres. O jantar foi um misto perfeito de trabalho com conversas sobre família e objetivos pessoais, num claro objetivo de compreender intenções sinceras de missão para mudar o mundo.

Segunda-feira foi dia de trabalho intensivo sobre o negócio da Planetiers e da estratégia de internacionalização. A envolvência do professor com uma humilde start-up foi total. No final do dia, o professor teve oportunidade de conhecer toda a nossa equipa e os embaixadores do projecto, como a Sílvia Rizzo e o Marco Galinha.

Terça-feira foi o primeiro dia do Web Summit. Um dia preenchido com reuniões com grandes players do mercado mundial como a Walmart e representantes do World Bank.

Quarta-feira começou com a intervenção do professor no Web Summit, logo pela manhã, na conferência “Reducing carbon-intensive activity: Will we always have Paris?”, que teve lugar no espaço Forum. O professor reforçou a sua teoria do Sustainomics, que defende a urgência de promovermos, de forma muito prática, o equilíbrio do triângulo desenhado pelos pontos: Economia, Ambiente e Social. O dia seguiu com várias entrevistas e mais reuniões com investidores e outros intervenientes neste sector, incluindo uma conversa muito produtiva com Alexandra Cousteau, neta do mundialmente famoso Jacques Cousteau e enorme ativista em prol do ambiente e questões sociais.

Quinta-feira, último dia do Web Summit. Para além do networking intensivo que caracteriza o evento, tivemos uma série de entrevistas para a rádio e televisão nacional. No final do dia, um evento (este também incrível mas de menor dimensão) organizado pela Planetiers com a colaboração total da Startup Lisboa, Lisboa E-Nova e Hub Creativo do Beato. The Gathering 2017 – um tributo máximo à sustentabilidade e ao meio ambiente, que contou com a presença de fantásticos convidados, parceiros, fornecedores de soluções ambientais e uma imperdível “conversa de jardim” entre o Prof. Mohan Munasinghe e Pedro Pinto, jornalista da TVI.

Apesar dos curtos três dias de Web Summit parecia que chegávamos ao final de uma maratona de semanas. Algo bastante compreensível tendo em conta a nossa agenda do mês anterior. Toda a preparação foi chave.

Sexta-feira. Dia da partida. Mais uma vez, fiz questão de levar o professor e a sua mulher ao aeroporto. A viagem até lá foi uma espécie de balanço dos dias anteriores com pontos extremamente positivos, mas o professor fez questão de salientar que era “crítico que, nos dias seguintes ao evento, todos os 60 mil participantes se focassem no caminho que querem seguir. É uma correria imensa durante três dias seguidos. Conhecem-se muitas pessoas interessantes e projetos promissores mas, sem o foco certo, todas aquelas start-ups vão se perder nas milhares de oportunidades que viram e não vão conseguir ter o sucesso que desejam.” Ainda houve tempo para uma pequena reunião ambulante entre o check-in e a porta de embarque sobre o futuro da nossa sociedade, do nosso planeta e de como poderíamos, de forma prática e eficaz, ter uma palavra a dizer em todo este processo. De sermos um agente ativo nesta mudança positiva.

A partida foi como a chegada. Com menos voluntários, mas com a mesma amizade na despedida. O professor manteve um contacto praticamente diário até agora, de modo a ajudar a Planetiers nesta jornada de transformação sustentável global.

Agora, espera-nos trabalho mais intenso que nunca. Que venha ele, pois a nossa motivação, apoios, embaixadores e equipa também é a melhor que já tivemos!

O Prémio Nobel mais discreto chegou, ficou, trabalhou, ensinou e saiu, mas sem deixar Portugal.
Ao nosso caro amigo Prof. Mohan Munasinghe, muito obrigado!

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Sérgio Ribeiro é CEO e cofundador da Planetiers. Concluiu o mestrado em Engenharia Biológica no Instituto Superior Técnico de Lisboa. A sua tese de mestrado baseou-se na otimização da gestão de efluentes numa fábrica de biodiesel da Galp. Nos últimos... Ler Mais