Opinião

Campeões de desporto, artistas e outros

Eugénio Viassa Monteiro, professor da AESE-Business School*

Como se fazem os campeões? Ao observar de onde eles surgem no desporto e os bons componentes de coros e grupos musicais, constatamos que um papel muito importante está no facto de terem tido aulas interessantes nesses campos quando ainda eram jovens, o que os fez interessarem-se por tais atividades.

O que se aprende de criança, sobretudo o que capta a sua imaginação e a atenção, depressa se transforma numa ideia mobilizadora que não mais a deixa. Isto acontece quando se tem bons mestres, dedicados, que inspiram, apoiam a ultrapassar dificuldades e a praticar com regularidade aquela modalidade.

A criança sente-se feliz e desejosa de fazer melhor. O sentido otimista e impulsionador que os bons mestres imprimem a essas práticas, ajudam-na a tomar consciência de que ela é mesmo muito boa e pode chegar longe, porque se sabe dotada para tal.

Há casos de exceção, que não tiveram instrução adequada, mas como têm uma grande sensibilidade, desenvolveram-se nalgum campo, mesmo sem aulas ou professores.

Quando se quer formar um escol amplo de pessoas habilitadas nalgum dos campos de desporto ou artes, o melhor é formar muitos com boas aulas, incidindo sobre um número elevado de jovens, dos quais alguns poderão ter habilidade para o que se pretende. Pode surgir alguma pessoa de génio. Mas um amplo conjunto delas terá uma boa prestação. É o resultado de um treino cuidado, gradual e sistemático.

Felizmente, os clubes desportivos também estão atentos para onde irão buscar as suas futuras estrelas. Por isso oferecem aulas regulares de muitas práticas desportivas, para observar os que têm potencial para fazer rápidos e consistentes avanços.

Professores e pedagogos são precisos
Como em todos os estudos, o papel do professor é único. Daí que sejam necessários muitos e bons pedagogos, bem remunerados no exercício profissional, que atuem nos primeiros anos de vida da criança, quando têm mais possibilidade de estimulá-la nas matérias em que ela se sente vocacionada. Um professor ou pedagogo não pode saber de todas as matérias, mas pode intuir e verificar onde ela faz bem e se sente mais inclinada, para que tome consciência disso, apoiando-a a crescer nesse campo.

É um trabalho ciclópico ter professores bem preparados, capazes de conhecer as aptidões e de estimular cada criança no que ela tem de específico. De certo modo o Professor é um “coach”, orientador em certas áreas e estimulador daquelas em que a criança é mesmo boa.

Lembro-me que em muitos países socialistas se notava na época dos jogos Olímpicos ou de jogos de Inverno, que havia muito bons atletas e ginastas, pois as aulas de educação física e práticas desportivas no seu ensino eram muito mais frequentes que nos sistemas de ensino ocidentais. Isso faz pensar no equilíbrio que deve haver na prática das atividades, sem cair no exagero de levar uma criança a praticar demasiado desporto, deixando-a algo anã noutras matérias mais intelectuais.

Os países socialistas ganhavam uma elevada percentagem de medalhas, talvez pela deformação de darem muita importância a essas aulas físicas, provavelmente com piores classificações nas outras matérias mais de ciência. O equilíbrio é sempre importante, como condição para um desenvolvimento harmónico dos conhecimentos e da personalidade, a par com o desenvolvimento físico, sem a deixar cair na esquizofrenia de só saber muito de certos temas e práticas, em detrimento de outros.

Com grande população há probabilidade de mais campeões
Num país como a Índia, com uma elevada população, é natural que apareçam muitas pessoas dotadas para serem campeões em diferentes modalidades desportivas: muitos jogadores de futebol e de críquete. E também bons cantores para os coros, dançarinos, etc. Importa que todas as modalidades ganhem uma nova importância na mente dos diretores das escolas, que levem a recrutar bons professores da especialidade, capazes de entusiasmar as crianças e formar, se possível, um grupo de desportistas, outro de cantores de coro e outros de ginastas….

Para uma primeira afirmação é bom que haja um treino mais intenso para uma apresentação em público de números de ginástica, ou exibição de uma modalidade desportiva, entre outros. Os ensaios e a importância que se lhes dá faz destacar os que são os melhores em cada atividade.

Ser muito bom em alguma coisa
Um pedagogo irlandês notava ser importante descobrir em que é que uma criança é muito boa. Há quem seja muito bom em raciocínio matemático, outros em ciências, outros em geografia, outros na geometria espacial, outros na dança. Importa que o pedagogo descubra e reconheça em cada um em que é, ou pode ser, muito bom, para ir exigindo e estimulando a ser cada vez melhor.

Dizem que quando Cristiano Ronaldo se deu conta da sua capacidade de se concentrar e do efeito do treino para dar uns pontapés certeiros, treinava-se para que tal acontecesse. É isso que os seus colegas dos estudos secundários se lembram, pois, após os intervalos, ele sempre chegava atrasado pois ficava a treinar um passe ou um chuto, até que ficasse perfeito… colocando a bola no sítio exato e desejado, na baliza adversária.

Na Índia não havia muito estímulo para se dedicar aos saberes que não fossem os clássicos, como a matemática e a física…. Pouco valor os pais davam se os filhos eram bons em ginástica ou futebol ou dança, pois isso não ajudava a ganhar a vida. Em todos os empregos, contavam as classificações tidas e o que cada criança sabia fazer, respeitante ao seu trabalho.

Felizmente hoje as coisas começaram a mudar e todos veem como o críquete é fonte de altas remunerações, como o é o ténis, o futebol, o ser Chef de um restaurante, um bom cozinheiro, etc. De repente, parece que apareceram muitas outras ocupações em que se pode ter boas remunerações, desde que se seja mesmo muito bom nelas.

Para além do fator pessoal inato em cada um, em toda a prática profissional há espaço para melhorar e otimizar o que cada um espontaneamente faz. Um bom cozinheiro também se aperfeiçoa na base da sua inclinação e vai aprendendo sobre os sabores e melhorando.

É muito interessante ver alguns coros dos Estados no Nordeste da Índia com prestações muito interessantes da música local. Do Norte ao Sul do país podem desenvolver-se alguns tipos de músicas da respetiva zona, com grande benefício para os jovens e também de todo o país.

Falando da música, práticas desportivas e de atletismo, elas têm vindo a dar desportistas de exceção, campeões, provando o seu mérito. Agora que as pessoas já vivem melhor, a gente nova pode dedicar-se a algumas ocupações do seu gosto e inclinação para as quais se podem ir preparando e começando a atuar na sua escola, na sua aldeia, na sua terrinha.

*Professor da AESE-Business School, do IIM Rohtak (Índia) e autor do livro “O Despertar da Índia”

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Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”, publicado em português, espanhol e inglês. Foi diretor-geral e vice-presidente da AESE (1980 – 1997), onde teve diversas responsabilidades. Foi presidente da AAPI-Associação de Amizade Portugal-India e faz parte da atual administração. É editor do ‘Newsletter’ sobre temas da Índia,... Ler Mais..

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