Há uma frase de José Saramago que diz que “é preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não sairmos de nós.”

Curiosamente, e com alguma ironia, estamos a viver há mais de 1 ano um evento que nos obrigou a ficar fechados em casa, mas que de alguma forma nos levou a sair de nós próprios. E com isso obrigou-nos a olhar para nós próprios. Cada um na sua casa. Cada um com o seu relógio. Cada um com o seu próprio pensamento.

De várias conversas que tenho tido ao longo destes últimos meses, tenho ouvido estórias muito diferentes. Mas há uma linha comum em várias que passam por decisões de querer mudar o seu rumo profissional, mudar a sua gestão de tempo dando mais foco à família, a si próprio, etc. O sentimento de desejar mudança não é novo, já lá estava, intrínseco, mas a verdade é que no “silêncio” da corrida do dia a dia (pessoas com filhos vão perceber bem os parêntesis), cada um de nós conseguiu ouvir-se a si mesmo. Se há coisa que aprendi na minha ainda curta, mas intensa experiência é que precisamos de nos ouvir para saber o que realmente desejamos. Sem isso estamos apenas a seguir a corrente criada pelo que nos rodeia: vozes de terceiros, sugestões de quem tem outros desejos ou conceito de felicidade, receios de mudança…

Foi preciso ficarmos fechados para nos conseguirmos libertar.

Para mim o maior perigo no meio de tudo isto é que as pessoas agora voltem completamente à vida que tinham antes. Ao sistema e aos hábitos anteriores. Que olhem para esta grande prova a que fomos todos sujeitos como uma “paixão de verão”. Como se após as descobertas em férias, tivéssemos que cerrar os dentes e aceitar o regresso à realidade. Uma realidade que por ser antiga e conhecida não significa que seja melhor.

A melhor forma de evitarmos um mau caminho é reconhecendo-o.

Muito me têm perguntado se acho que a sociedade, o mercado, a economia irá sair desta pandemia com objetivos mais sustentáveis. Esta é a verdadeira pergunta para 1 milhão de dólares à qual adoraria saber a resposta, mas não tendo, apenas posso dizer que há dois impulsos característicos do ser humano que nos podem levar a dois caminhos distintos.

  1. Este acontecimento de introspeção geral e mundial, fará com que todos nós – líderes, empresários, governantes, cidadãos – tenhamos reconhecido que pretendemos deixar um legado diferente. Iremos reconhecer que queremos ser parte ativa numa mudança por um mundo melhor e com qualidade de vida para todos. E agiremos de acordo.
  2. O medo de não conseguir recuperar economicamente e a pressa de entrar dinheiro no tecido empresarial, fará com que se abram todas as mesmas “torneiras” de anteriormente. Resultados rápidos a custo da destruição de ativos futuros. Sendo o maior deles uma vida saudável e com qualidade para os nossos descendentes.

Sendo um eterno otimista que trabalha todos os dias para transformar este otimismo em realismo, acredito que conseguiremos encontrar o primeiro caminho. Mas para isso é preciso sermos ambiciosos e termos a coragem de promover mudanças, por vezes radicais, em todos os setores deste sistema em que estamos a viver. Inovar não só por inovar. Inovar não só pelo posicionamento tecnológico, mas inovar nos modelos de negócio e de governaça. Inovar pela capacidade de poder entregar todas as condições necessárias a uma vida feliz e próspera. Este é o posicionamento certo de um País. Um País que somos nós – pessoas. E cada um com uma palavra a dizer e fazer, independentemente do seu papel na sociedade. Precisamos de uma lente sistémica em todas as decisões que tomamos e projetos que implementamos. E para isso é preciso entender sobre sustentabilidade. O desenvolver projetos dentro de condições sociais integras e dentro dos limites ambientais do planeta.

Alguns governantes começam a demonstrar uma capacidade de reorientação das políticas e da estratégia económica. Até por via das diretrizes europeias vislumbramos já uma vontade oficializada em apostar numa recuperação económica verde e inclusiva. Não só vemos isso no reforçar de que a pandemia não foi um acontecimento que cancelou o Green Deal, mas pelos pacotes de financiamento que apontam claramente para regras de jogo que se focam na descarbonização, na proteção e regeneração dos ecossistemas naturais e na inclusão de toda a sociedade na remontada económica. E por isso tiro-lhes o chapéu.

Agora, a prova dos nove – a execução. Algo que começa mal com os atrasos sucessivos da tal “bazuca” e com tantas empresas e pessoas que diariamente veem o seu oxigénio financeiro a chegar ao fim. No entanto, assumindo que teremos rapidamente os processos de apoios a funcionar, a segunda questão surge: tem Portugal a capacidade de avaliar o que é realmente sustentável? Ou inclusivo? Ou que perdure no tempo? Ou que seja verde, ecológico ou o que quisermos chamar?

A minha resposta é sim. Portugal tem todas as capacidades para o fazer. Tem o talento. As relações internacionais. Uma localização geográfica absolutamente estratégica. A mentalidade certa de conquistar mares nunca antes navegados. Mas é preciso mais do que Governo e é importante que o Governo entenda isso. São precisos os cidadãos, mas acima de tudo são precisos os incentivos colocados nos sítios certos para as empresas empurrarem realmente esta mudança na direção certa. Igual no sentido contrário, muitas empresas têm já o conhecimento, a rede internacional e os recursos certos para ajudar com a sinalética do governo ao construir esta caminhada.

Nunca sendo demais reforçar: Tem que ser governo. Têm que ser empresas. Têm que ser cidadãos. Todos a empurrar para o mesmo lado. Acabar com os doutoramentos em falar mal do que está mal, mas vestir a camisola de uma equipa que apoia o que se faz bem. Mais do que isso, vestir a camisola de uma equipa que quer e sabe criar valor com as suas próprias mãos.

Agora… saímos da ilha. Olhámos para nós próprios. Já nos conhecemos?
Se não, continuem a olhar. Se sim, rememos para o lado que sabemos ser o correto. A paixão fará o resto.

 

Versão em inglês

Each of us is an island

There is a phrase by José Saramago that says “… you have to leave the island in order to see the island. We can´t see ourselves unless we leave ourselves”.

Interestingly, and with some irony, we have been experiencing an event for more than one year that forced us to stay indoors, but that somehow led us to leave ourselves. And with that it forced us to look at what we have become. Everyone in their homes. Each with their own clock. Each with their own thinking.

From several conversations I have had over the past few months, I have heard very different stories. But there is a common thread about decisions of wanting to change their professional course, change their time management, giving more focus to the family, to oneself, etc. The feeling of wanting change is not new, it was already there, intrinsic, but the truth is that in the “silence” of the day-to-day race (people with children will understand the parentheses well), each of us was able to finally hear our own voice. If there is one thing I learned in my still short but intense experience, it’s that we need to listen to what we really want. Without that, we are just following the current created by what surrounds us: voices of others, suggestions from those who have other wishes or a different concept of happiness, fears of change…

We had to be locked inside in order to free ourselves.

For me, the greatest danger in the midst of all this is that people now completely return to the life they had before. The previous system and habits. Just like a “summer passion”, this huge challenge which we’ve been facing and the lessons taken are forgotten. As if after all we’ve discovered on holydays, we had to clench our teeth and accept a return to reality. A reality which just because it’s known does not mean that it is better.

The best way to avoid a bad path is to recognize it.

I have been asked a lot if I think that society, the market, the economy will come out of this pandemic with more sustainable goals. This is the real 1-million-dollar question to which I would love to have the answer, but not having it, I can only say that there are two characteristic impulses of the human being that can take us to two different paths.

  1. This event of general and global introspection will make all of us – community leaders, business leaders, government officials, citizens – recognize that we intend to leave a different legacy. We will recognize that we want to be an active part in a change for a better world and with quality of life for all. And we will act accordingly.
  2. The fear of not being able to recover economically and the rush to get money into all economic sectors, will cause all the same “taps” to open as before. Fast results at the cost of destroying future assets. The biggest one being a health and quality life for our descendants.

Being an eternal optimist who works every day to transform this optimism into realism, I believe that we will be able to find the first path. But for that, we must be ambitious and have the courage to bring about changes, sometimes radical, in all sectors of this system in which we are living. Innovate not only for innovating. Innovate not only by technological positioning, but innovate in governance and business models. Innovate by for the ability to deliver all the necessary conditions for a happy and prosperous life. This is the right position for a country, for a continent, for the World. A World that is us – people. And each with a word to say and do, regardless of their role in society. We need a systemic lens in all the decisions we make and the projects we implement. And for that, it’s necessary to understand sustainability. The development of projects within integral social conditions and within the environmental limits of the planet.

Some leaders are beginning to demonstrate an ability to reorient economic policies and strategy. Even through the European guidelines, we already see an official will to bet on a green and inclusive economic recovery. Not only do we see this in the reinforcement that the pandemic was not an event that cancelled the Green Deal, but by the financing packages that clearly point to rules of the game which focus on decarbonisation, protection and regeneration of natural ecosystems and the inclusion of all society in the economic reassembly. And I take off my hat to them. Now, the “cotton test” – the execution. Something that starts badly with the successive delays of this economic “bazooka” while so many companies and people that daily see their financial oxygen coming to an end. However, assuming that we will have this support processes in place quickly, the second question arises: does Portugal have the capacity to assess what is really sustainable? Or inclusive? Or green, ecological or whatever we want to call it?

My answer is yes. Portugal has all the capabilities to do so. It has the talent. International relationships. An amazing strategic geographical location. The right mindset to conquer seas never sailed before. But it takes more than government and it is important that the government understands this. Citizens are needed, but above all, the incentives placed in the right places are needed for companies to really push this change in the right direction. The same thing in the opposite direction: many companies already have the knowledge, the international network and the right resources to help the government to put the right signs when building this road.

It’s never too much to highlight this: It has to be government. It has to be the companies. It has to be the citizens. Everyone pushing to the same direction. We need to end these PhDs in talking badly about what is bad and have everyone wearing the jersey of a team that supports what is done well. We need people wearing the jersey of a team that wants and knows how to create value with their own hands.

Now … we left the island. We had taken a good look at ourselves. Do we know ourselves already?

If not, keep moving and keep looking.

If so, lets paddle towards the direction we know it’s right. Passion will do the rest.

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Sobre o autor

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Sérgio Ribeiro é CEO e cofundador da Planetiers. Concluiu o mestrado em Engenharia Biológica no Instituto Superior Técnico de Lisboa. A sua tese de mestrado baseou-se na otimização da gestão de efluentes numa fábrica de biodiesel da Galp. Nos últimos... Ler Mais