Entrevista/ “As empresas não sabem que oportunidades de financiamento existem ou para quais são elegíveis”

Bernardo Seixas, CEO e cofundador da Granter.ai

“Neste momento temos mais de 700 empresas registadas na Granter e perto de 400 candidaturas geradas por IA dentro da nossa plataforma”, revela Bernardo Seixas, CEO e cofundador da Granter.ai, que, desde setembro do ano passado, já preparou candidaturas a mais de 10 milhões de euros de fundos europeus.

Fundada em setembro de 2023, a Granter tem como objetivo democratizar o acesso ao financiamento e apoiar a inovação, e já ajudou mais de 540 empresas na submissão de candidaturas a mais de 10 milhões de euros em fundos comunitários.

Este ano lançou uma plataforma que através da inteligência artificial (IA) quer ligar PME a potenciais oportunidades de financiamento de fundos europeu e mais recentemente o concurso Granter Innovation Award, com o objetivo premiar as 10 start-ups e PME que apresentem as soluções mais inovadoras, acelerando a sua candidatura a fundos públicos, como o PT2030 e fundos europeus.

Ao Link to Leaders, Bernardo Seixas, CEO e cofundador da start-up nacional, faz um balanço das 70 candidaturas que receberam ao concurso, da ronda de financiamento que estão a preparar e dos projetos para o futuro da empresa que passam pela internacionalização.

O que levou a Granter.ai a lançar o Granter Innovation Award?

Decidimos lançar a Innovation Award porque acreditamos genuinamente que a inovação é a chave para o avanço e prosperidade da nossa sociedade. E a verdadeira inovação, muitas vezes, não vem de grandes empresas, laboratórios ou universidades. Pode surgir com pessoas ou pequenas empresas, sem grandes recursos, mas com uma grande vontade de mudar o mundo. E a nossa missão de democratizar o acesso a financiamento público vai de encontro a esses inovadores. Este prémio reconhece essas PME ou start-ups, dando-lhes acesso gratuito ao nosso serviço de elaboração de candidaturas a fundos europeus, para além de todas as funcionalidades de IA que já estão disponíveis na Granter, garantindo-lhes melhores condições para crescerem e cumprirem a sua missão.

“Estamos satisfeitos que o concurso tenha chegado a empresas fora do nosso círculo, atingindo mais de 70 inscrições em apenas 3 semanas de promoção.”.

Que balanço faz das candidaturas ao concurso?

Estamos satisfeitos que o concurso tenha chegado a empresas fora do nosso círculo, atingindo mais de 70 inscrições em apenas 3 semanas de promoção. Houve uma heterogeneidade muito grande a nível do tipo de negócios, dimensão e perspectivas de crescimento, o que tornou a atribuição dos prémios mais desafiante. No entanto, há algo que é comum entre todos os concorrentes: a inovação. Estamos bastante satisfeitos com os 10 vencedores escolhidos, que demonstraram um grande potencial de disrupção em indústrias completamente diferentes. Por exemplo, o vencedor, a iLoF, está a revolucionar a indústria farmacêutica ao utilizar IA para analisar amostras de sangue que mais tarde vão permitir a criação de medicamentos personalizados aos pacientes. No Top 10 também tempos, por exemplo, a Enline, que permite uma melhor gestão de recursos energéticos através de “digital twins” de redes elétricas. Ou a Clube de Autores que permite a qualquer autor independente ter o seu livro automaticamente editado, ilustrado, impresso e enviado aos seus clientes finais sem ter de passar por uma editora tradicional.

Quais os desafios que se colocam hoje em dia às empresas que procuram apoio a financiamento público? 

Existem dois grandes problemas: em primeiro lugar, as empresas não sabem que oportunidades de financiamento existem ou para quais são elegíveis. Infelizmente, não existe um diretório único com todas as oportunidades abertas. Aquilo que existe, como o Balcão dos Fundos, não é completo e não tem informação clara, o que torna a sua consulta muito difícil para pequenas empresas sem experiência. Em segundo lugar, toda a burocracia envolvida na candidatura a estes fundos. Mesmo para aqueles que sabem a candidatura que querem fazer, ainda têm de recolher todos os documentos necessários e perderem dezenas de horas a escrever os textos necessários e a submeterem-na na plataforma do governo.

A única solução que têm, neste momento, para estes problemas, é contratar consultores caros para gerirem todo este processo e, mesmo assim, continua a haver um grande esforço e tempo despendido do lado da empresa. Desta forma, as pequenas empresas, com poucos recursos, estão praticamente impedidas de se candidatarem a estes fundos por não conseguirem suportar o enorme custo burocrático e financeiro.

Quais as grandes vantagens que a Granter.ai oferece às start-ups e PME?

Uma empresa pode inscrever-se gratuitamente na Granter e, depois de nos dar alguma informação básica, vai ser feito o “matching” entre a empresa e as oportunidades que são mais relevantes para ela. Depois de escolher uma oportunidade a que se quer candidatar, tem apenas de responder a umas curtas perguntas e, a partir de toda a informação que temos, vai ser gerada uma candidatura específica a esse fundo. Depois temos uma revisão humana feita pelos nossos especialistas para garantir que a candidatura tem qualidade para ser aprovada. Tudo isto a uma fração do custo de um consultor tradicional e com um processo muito mais célere.

Quantas empresas já ajudou a Granter.ai? Quantas empresas já se inscreveram na plataforma da Granter.ai?

Neste momento temos mais de 700 empresas registadas na Granter e perto de 400 candidaturas geradas por IA dentro da nossa plataforma. Dessas, já tivemos mais de 100 que fizeram upgrade para o nosso serviço “Expert Review”, que inclui uma revisão completa e submissão das candidaturas por parte dos nossos especialistas, de modo a garantir a mais alta probabilidade de sucesso. No total, os nossos especialistas já prepararam candidaturas a mais de 10 milhões de euros desde que lançámos a plataforma em setembro do ano passado.

“Num contexto europeu, existem muitas candidaturas que são em consórcio, o que quer dizer que é obrigatória a participação de várias empresas/entidades de diferentes países europeus”.

Projetos para o futuro da Granter.ai?

Neste momento estamos muito focados em oportunidades de financiamento portuguesas, mas isso é apenas o início. Portugal é um ótimo mercado para testar um produto, contudo as nossas ambições são europeias. Num contexto europeu, existem muitas candidaturas que são em consórcio, o que quer dizer que é obrigatória a participação de várias empresas/entidades de diferentes países europeus. Neste momento, é muito difícil encontrar estes membros de consórcio e estamos também a desenvolver uma solução exatamente para isso.

Foi notícia na imprensa que estão a preparar uma ronda de financiamento de 1,5 milhões. Qual o objetivo e qual a previsão de conclusão?

Sim, estamos a levantar uma ronda de financiamento para expandir nacional e internacionalmente e continuar o desenvolvimento do produto. Neste momento, já provámos que a Granter está a resolver um problema real e com uma dimensão, no mínimo, europeia. Neste momento, precisamos de crescer a nível nacional, ganhar credibilidade com o tecido empresarial mais tradicional que tem alguma dificuldade em confiar candidaturas de centenas de milhares ou mesmo milhões de euros a uma jovem start-up de IA. Essa credibilidade, claro, vem com o tempo e com o nosso crescimento acelerado. Logo a seguir, iremos focar na expansão internacional complementada com um gradual melhoramento dos nossos modelos de IA de modo a garantir a melhor experiência aos nossos utilizadores.

“Aliás, acabámos de submeter uma candidatura de 1,5 milhões de euros à Comissão Europeia”.

Quais os planos de internacionalização da Granter.ai?

O nosso plano de expansão internacional tem duas fases e estão relacionadas com a maneira como os fundos europeus são distribuídos. Existe um orçamento comum da Comissão Europeia para ser distribuído em “grants” por empresas europeias. Estas candidaturas são muito competitivas mas são extremamente interessantes para nós porque são candidaturas em inglês e são elegíveis empresas em qualquer país europeu. Isso permite-nos expandir imediatamente para qualquer mercado, no contexto de candidaturas específicas e esse vai ser o nosso primeiro passo. Aliás, acabámos de submeter uma candidatura de 1,5 milhões de euros à Comissão Europeia. Depois, existem os fundos europeus que são distribuídos por todos os Estados membros e que depois criam programas nacionais como o Portugal 2030 ou o PRR. Cada país tem os seus programas e todos eles têm as suas nuances, o que nos obriga a ter uma equipa de especialistas locais. Sendo assim, expandir nesta vertente será o passo seguinte, especificamente para Espanha, Alemanha e Itália.

Venceram a 3ª Edição do Prémio Cidades e Territórios do Futuro, na categoria “Desenvolvimento Económico”. O que significa para a empresa este prémio?

Ficámos muito orgulhosos ao receber este prémio porque reconhece o nosso empenho em democratizar o acesso aos fundos comunitários, permitindo, pela primeira vez, que pequenas empresas encontrem e se candidatem a estas oportunidades de financiamento de uma forma simples e a um custo reduzido. Desta forma, estamos a contribuir claramente para o desenvolvimento do nosso tecido empresarial e para um crescimento económico sustentável.

“A nossa IA vai evoluir a um ponto em que as empresas que tenham várias candidaturas feitas com a Granter vão conseguir facilmente gerar uma nova candidatura, pronta a submeter, em apenas uns minutos”.

Como vê a Granter.ai dentro de 5 anos?

Em cinco anos, vejo a Granter como uma ferramenta que as PME europeias utilizam regularmente para procurar qualquer oportunidade de financiamento, desde pequenos prémios a grandes consórcios de milhões. A nossa IA vai evoluir a um ponto em que as empresas que tenham várias candidaturas feitas com a Granter vão conseguir facilmente gerar uma nova candidatura, pronta a submeter, em apenas uns minutos. Também espero que consigamos estabelecer uma relação estreita com diversos reguladores nacionais e europeus de modo a que consigamos disponibilizar a nossa tecnologia para facilitar todo o processo de distribuição de fundos comunitários, desde a candidatura até à avaliação, execução e análise de resultados.

Quais os conselhos que deixa às start-ups que procurem obter financiamento público?

Em primeiro lugar, diria para planearem com antecedência. Definam a estratégia da vossa empresa para os próximos 2 ou 3 anos, identifiquem quais são as maiores despesas (RH, equipamentos, I&D, Marketing ou outros) que vão ter com essa estratégia e tentem encontrar as oportunidades de financiamento que possam financiar essas despesas. Em segundo lugar, diria para procurarem ajuda para a elaboração das candidaturas. Muitas candidaturas são complexas e exigem alguma experiência técnica para conseguir garantir a sua aprovação. Esta ajuda pode vir da Granter mas também de consultores tradicionais, claro!

Por fim, é importante referir que uma empresa não deve mudar a sua estratégia apenas para obter financiamento público. É alarmante o número de startups que conhecemos que fecharam à espera de fundos europeus. São processos longos, e muitas vezes incertos, pelo que uma empresa deve utilizá-los para uma melhor eficiência dos seus recursos e não como a sua última salvação. Grants não substituem fundraising.

Que legado quer deixar no mundo?

Que não haja entraves ao financiamento de projetos verdadeiramente transformadores ou iniciativas com impacto. O meu inimigo número um é a burocracia.

Respostas rápidas:
Maior risco: Surgimento de alguma regulação desinformada contra a utilização de Inteligência Artificial na elaboração de candidaturas.

Maior erro: Tentámos internacionalizar a empresa digitalmente e com pouco tempo de preparação. Percebemos rapidamente que precisávamos de uma equipa no terreno e mais recursos.

Maior lição: Quando começámos sabíamos que a dor nestes processos de candidatura era real mas não tínhamos noção da dimensão do problema. Não é um ou outro atraso ou burocracia, nem é exclusivo a Portugal – é um problema que a vasta maioria dos pequenos negócios têm na Europa inteira e a nossa plataforma é a solução.

Maior conquista: Recentemente recebemos a notícia de que a nossa primeira candidatura foi aprovada – 20.000€ para o nosso cliente – validando o impacto real que conseguimos ter no tecido empresarial.

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João Sevilhano, Sócio, Estratégia & Inovação na Way Beyond