Poucos ecossistemas são tão favoráveis ao desenvolvimento de uma cultura de empreendedorismo impregnado de valores, como a família. É talvez por isso que mais de 60% das empresas europeias são Empresas Familiares.

Enquanto Mãe (orgulhosa!) de cinco filhos, sei bem como a vida em família exige que se empreenda todos os dias, que se aprenda a gerir recursos escassos, que se adquira a capacidade de mediar e esbater conflitos, que se inove a encontrar soluções para problemas (que parecem) insolúveis, que se combata o desperdício e se reaproveite o excesso, que não se delapide em benefício de uns aquilo que é de todos, que se saiba respeitar o outro, que se enfrentem as intempéries com confiança no futuro, que se (re)conheça a importância da solidariedade incondicional, que se alimente um sentido partilhado de propósito, que se não se comprometa, em caso algum, o futuro por causa do presente e… que nunca se atire a toalha ao chão! Que se vivam, em suma, todos os dias, os valores que são também os ingredientes principais do sucesso e perenidade (na linguagem corrente, da sustentabilidade) de uma empresa.

Num certo sentido, a Empresa Familiar é uma transposição da família para o mundo empresarial. A família tende a ver a Empresa como se vê a si própria: um “património” de longo prazo que deve ser preservado para as gerações futuras e que vive em função delas e para elas. Pensamento de longo prazo, governança impregnada de valores, forte sentido de responsabilidade social para com os trabalhadores, resiliência, tendência para o estabelecimento de relações duradouras ou até pessoais com clientes, fornecedores e demais stakeholders, são características comuns das Empresas Familiares. E razão do seu sucesso.

Significa isto que são muitas as Empresas Familiares que já nascem, para usar a gíria atual, sustentáveis. Ou que são geridas, desde a origem, de acordo com os agora chamados “critérios ESG” (Environmental, Social and Governance), muitas vezes sem o saberem (ou sem saberem sequer o que são os, felizmente cada vez mais incontornáveis, critérios ESG)… Ou que sempre deram um forte contributo para a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), mesmo antes destes terem sido definidos como tal pelas Nações Unidas.

A década seguinte àquela em que Portugal viu desaparecer os líderes carismáticos de algumas das mais emblemáticas Empresas Familiares portuguesas – Américo Amorim, Belmiro de Azevedo, Pedro Queiroz Pereira, Alexandre Soares dos Santos – é aquela em que a maior parte das empresas portuguesas tenderá finalmente, espera-se, a compreender o quanto o seu papel na sociedade mudou, e a década na qual as empresas que estiverem determinadas a assegurar a sua longevidade, terão de aprender a garantir o seu sucesso sem comprometer o futuro das gerações seguintes.

Ora, é justamente isso que fazem, regra geral, as famílias e que constitui, num certo sentido “a regra de ouro” das Empresas Familiares.

O facto de, na Europa, mais de 60% das empresas serem Empresas Familiares constitui, assim, um sinal de esperança e um motivo adicional para acreditarmos que a tão necessária “mudança de paradigma”, essencial para o cumprimento dos ODS, irá mesmo acontecer.

É pois com grande otimismo que, enquanto presidente do GRACE, encaro o início de um novo ano na vida das empresas e o dealbar de uma década transformadora na caminhada do mundo empresarial rumo à sustentabilidade.

*Presidente do GRACE em representação da Vieira de Almeida & Associados – Sociedade de Advogados

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Sobre o autor

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Margarida Couto é licenciada em Direito e pós-graduada em Estudos Europeus, pela Faculdade de Direito da Universidade Católica de Lisboa. Integra a Sociedade de Advogados Vieira de Almeida & Associados (VdA) desde 1988, sendo a sócia que lidera a área... Ler Mais