Estamos a assistir a um certo pânico acompanhado de inflação, na sequência da invasão russa à Ucrânia. Tanto uma como outra detêm parte importante do comércio mundial de cereais, cerca de 20+10%. As sanções impostas à Rússia com as dificuldades de pagamento, bem como a imobilização da Ucrânia para exportar, lançaram uma corrida para se encontrar fornecedores alternativos.

Numa situação normal com os governantes dos países empenhados em ir ao encontro dos reais problemas da população, tudo poderia ser fácil de resolver, mesmo com algum conflito pontual. Mas parece que estamos a atravessar situações de pouca visão dos dirigentes, de países habitualmente grandes produtores, considerados quase os celeiros do mundo. Essa pouca visão terá levado a certa despreocupação, com uma produção temporariamente limitada, talvez porque os preços internacionais não eram muito compensadores.

Nesta matéria uma pequena variação da produção – para mais ou menos – induz a fortes alterações nos preços especulativos de compra e venda. A solução poderia passar por cada país manter um stock de segurança para fazer face a oscilações na produção, motivadas por calamidades naturais ou por se tratar de um ano seco.

Na atual situação, os países importadores tinham-se proposto comprar à Índia, dado o seu significativo superavit de mais de 20 milhões de toneladas. Contudo, nos meses de abril e maio houve uma forte onda de calor que comprometeu a produção do ano em curso, com uma redução previsível de cerca de 5 milhões de toneladas de trigo. Além disso, a Índia tomou as suas medidas de ajudar primeiro os países vizinhos mais vulneráveis. Terá talvez aprendido com o episódio das vacinas e a sua distribuição, nem sempre com critérios de justiça, para não deixar os mais pobres com as mãos vazias. Daí que no caso dos cereais, o Governo da Índia vá decidindo a que vizinhos ajudar em primeiro lugar. Parece natural que os compromissos assumidos serão tidos em boa conta.

Como é natural, qualquer país tem de velar pela segurança alimentar da sua população e, no caso da Índia, houve como um fazer esperar os novos pedidos, para ver se é possível satisfazê-los.

Veja-se que em matéria alimentar a produção de cereais vem crescendo, consistentemente na Índia, na sequência da revolução verde, tendo em 2021 sido de 308,7 milhões de toneladas. Previa-se para 2021-22 chegar aos 316 milhões de toneladas, número que poderá ficar algo comprometido com as inesperadas ondas de calor de abril e maio.

A produção de leite tem tido também uma trajetória crescente, desde os tempos da criação da Federação de Cooperativas de tipo Anand, com a marca AMUL, que foi replicada em diferentes localizações da Índia. Assim, a partir de 1997. a Índia passou a ser o 1.º produtor mundial de leite. Ele vai aumentando a razão de uns 6% ao ano, enquanto a média mundial cresce 2,2 % ao ano, somente.

O mesmo sucede com a captura de peixe, tanto do mar, como dos rios e lagoas de água doce, como da aquacultura, a ponto da Índia ser o segundo produtor mundial de peixe.

A forma de pensar da “revolução verde” aplicada aos cereais tem uma transposição imediata para qualquer tipo de agricultura. Daí que facilmente se possa concluir que em qualquer tipo de fruta ou vegetais a Índia, se não é o primeiro produtor, será com certeza o segundo. Em geral, toda a produção tem vindo a dar saltos sustentados, coisa que se nota muito bem nos mercados de abastecimento internos, bem como na crescente exportação de quase todas as variedades vegetais. Toda a agricultura que se beneficia com a metodologia de encontrar sementes mais produtivas, com processos de irrigação e fertilização bem estudados, levam ao necessário aumento da produção.

*Professor da AESE-Business School, do IIM Rohtak (Índia) e autor do livro “O Despertar da Índia”

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Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”,... Ler Mais