Estamos há três meses a viver, em muitas organizações, uma situação de trabalho remoto que tem colocado à prova a nossa capacidade de mantermos as nossas equipas “na mesma página”.

A minha experiência neste período tem mostrado que a natureza das funções, as características pessoais e as condições familiares são fatores críticos para o sucesso dos desempenhos, quando em trabalho remoto. Mas também tem sido muito claro que a atuação dos líderes é fulcral para que as equipas mantenham o seu nível de deliverable ou, nalguns casos, apresentem até melhores resultados.

Este período está a mostrar que modelos de liderança baseados no controlo pela presença ou no “dar ordens” para tarefas avulsas não se adequam a uma liderança remota.

Enquanto líderes, estamos a tatear e a reaprender. E é como contributo para esta caminhada, que partilho 7 dicas que a experiência recente veio reforçar:

1.ª Reforçar a missão, o propósito da empresa:

  • Numa altura de grandes incertezas, cabe ao líder reforçar a razão de existência da empresa. Use os canais que tiver à sua disposição para falar com todas as pessoas que lidera e recorde / reforce a missão da organização;
  • Algumas empresas criaram até um “grito de guerra” para unir as equipas em torno do que é preciso fazer nesta altura.

2.ª Focar no resultado e não nas horas trabalhadas: 

  • Defina objetivos claros e mensuráveis / verificáveis para períodos de curta duração (semanal ou 15 dias);
  • Ter objetivos definidos cria uma energia diária e mantem as equipas focadas.

3.ª Criar rotinas:

  • Crie rotinas de reuniões em dias e horas definidas para várias semanas, com cada elemento da sua equipa e com toda a equipa junta. Esta prática cria uma noção de seguimento dos temas de forma próxima e leva as equipas a evoluir nos assuntos que têm entre mãos;
  • Dizer apenas que “falamos sempre que for necessário”, não é suficiente e pode desconectar as pessoas ou não manter o sentido de foco.

4.ª Dar atenção a cada colaborador:

  • Aproveite os primeiros minutos de cada reunião individual para saber como está o seu colaborador, em termos pessoais ou familiares, sem ser intrusivo. Mostre interesse em saber se estão todos bem, se sente alguma dificuldade em trabalhar a partir de casa, se tem todos os recursos de que precisa, como está a ser esta experiência;
  • Partilhe também a sua experiência, reforce que compreende que trabalhar em casa pode criar tensões, sobretudo no contexto que estamos a viver, com os filhos também presentes, ou com preocupações com a saúde de familiares e que estarmos todos mais vulneráveis faz parte;
  • Líderes que se mostrarem genuinamente interessados em cada um dos seus colaboradores, serão recordados pelas melhores razões.

5.ª Comunicar, comunicar, comunicar:

  • Reforce os momentos de comunicação com as equipas;
  • É importante comunicar o que de positivo vai acontecendo na empresa, por exemplo, partilhar testemunhos de colaboradores ou de equipas que estão a fazer a diferença nesta altura, partilhar um cliente novo importante que se angariou, etc.;
  • É igualmente importante manter uma transparência em relação a temas mais difíceis ou decisões menos fáceis que tenha de tomar. As pessoas podem não concordar, mas entendem as razões que o levam a ir em determinado sentido.

6.ª Criar momentos sociais: 

  • Ainda que através das plataformas interativas, é fundamental proporcionar às equipas momentos para descontrair, em conjunto, e fortalecer laços. Por exemplo, crie um café digital por semana, onde todos estão presentes e conversam sem tema, ou lance um desafio para que todos possam dar o seu contributo (ex.: dicas para férias improváveis em Portugal este verão, ou se pudessem com que personalidade gostariam de almoçar e porquê).

7.ª Ter o trabalho remoto como um aliado: 

  • Aproveite esta ocasião para fazer um trabalho mais profundo sobre os prós e os contras do trabalho remoto e como pode fazer deste instrumento uma alternativa ao trabalho presencial;
  • Com uma atitude open minded, pode encontrar figurinos mistos muito interessantes para a empresa, para o seu negócio e para os colaboradores;
  • Analise os custos e os ganhos financeiros que o trabalho remoto pode trazer. Esta análise pode ajudá-lo a tomar decisões com ganhos para todos os stakeholders.

Ouvimos todos os dias que o mundo nunca mais será igual. Estou de acordo. E em temas de liderança, podemos ficar melhor do que estávamos antes do COVID-19.

Assim, aprendamos com o que estamos a viver, ponhamos em perspetiva os modelos tradicionais de liderança e avancemos na senda de uma liderança de maior proximidade e confiança.

Saber aproveitar as virtudes do trabalho remoto pode ser uma via. Não será o remédio milagroso, nem se adequará a todos os contextos. Mas tem um grande potencial!

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Sobre o autor

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Isabel Viegas é professora na Universidade Católica e Membro do Conselho Estratégico da Formação de Executivos da FCEE da mesma universidade. Foi Diretora-Coordenadora de Recursos Humanos do Grupo Santander em Portugal, de 2003 a 2016, bem como Diretora de Recursos... Ler Mais