Depois de vários anos ligado à banca, no Luxemburgo, o economista António Borges pôs em prática a sua veia empreendedora e construiu um hotel de charme de 5 estrelas no centro histórico de Tomar. Em entrevista ao Link To Leaders explica como nasceu o seu Hotel República, pelo qual já passaram inúmeras figuras públicas nacionais e várias estrelas de Hollywood.

No coração de Tomar, o Hotel República nasceu, em plena pandemia, do espírito empreendedor de um filho da cidade. António Borges, ex-residente no Luxemburgo, criou um projeto hoteleiro de 5 estrelas que nestes dois últimos anos já recebeu estrelas de Hollywood como Angela Basset, Millie Bobby Brown, Angela Basset, Robin Wright ou Nick Robinson, algumas das quais deram, inclusive, nome a alguns 19 quartos que esta unidade hoteleira oferece. Um buzz mediático que têm trazido projeção internacional ao espaço, a julgar pelas referências no Instagram das vedetas cinematográficas que têm passado pelo hotel.

O conceito de luxo “made in Portugal” é o ex-libris deste projeto, apostado em valorizar o património da região e os produtos nacionais, numa estratégia que também visa contribuir para a economia local. Agora com quase dois anos de atividade, os desafios continuam a ser diários, como explicou ao Link To Leaders António Borges empreendedor que segue o lema de que “aqueles que fazem algo na vida nunca se devem arrepender”.

Como é que nasceu o Hotel República?
O Hotel nasceu depois de uma visita aos meus pais a Tomar. Eu e a minha esposa parámos à frente destes dois prédios antigos abandonados no centro histórico da cidade, e já em mau estado, e foi aí que tivemos a ideia de juntos criarmos um hotel. Procuramos informações na Câmara e junto dos antigos proprietários e averiguamos a possibilidade de fazer uma unidade hoteleira. Demorou alguns meses e quando tivemos o ok lançámos o projeto.

Quanto tempo levou a criar o projeto?
Entre as primeiras visitas ao prédio e a abertura do hotel, levamos dois anos e meio. O que parece que é uma coisa muito rápida em Portugal. Mas estivemos muito presentes e acompanhamos o projeto do princípio até ao fim.

“O investimento realizado está próximo dos três milhões, entre a compra do prédio e as obras que forem feitas (…)”.

Qual o investimento realizado? Capitais próprios ou teve o envolvimento de investidores?
O investimento realizado está próximo dos três milhões, entre a compra do prédio e as obras que forem feitas, instalação e equipamentos. A maioria com capitais próprios, mas com o acompanhamento do Turismo de Portugal e uma parte de financiamento bancário.

Depois de uma carreira profissional feita fora de Portugal e noutros setores de atividade, porquê a hotelaria?
Fizemos um estudo de mercado e antecipamos um bocado o que seria o futuro nos próximos anos. A hotelaria é um setor que vai ser sempre preciso, uma coisa que não pode ser eliminada pelo digital, como está a acontecer em muitos setores.
Verificámos que aqui ainda havia um gap e também pode ter um crescimento muito interessante para o futuro. As pessoas têm de viajar e tem de ter alguém para as receber e para as servir. Por causa disso escolhemos a hotelaria e também pelo prazer e pela vontade de dar uma imagem à cidade de Tomar e a Portugal também. De valorizar tudo o que temos de bonito aqui nesta zona.

O vosso slogan é “o luxo de ser português”. Porquê a aposta no conceito made in Portugal?
É curioso, mas esta ideia do luxo de ser português nasceu no estrangeiro. Visitando muitas feiras de equipamentos, de decoração, em Paris, na Alemanha, verificámos que o que temos em Portugal às vezes é mais vendido fora do que em Portugal. Por causa disso decidimos mesmo adotar tudo nacional e só trabalhar com empresas portuguesas. Foi logo uma das nossas primeiras ideias e foi assim até ao fim.
Porque nós temos coisas luxuosas em Portugal e às vezes o que é mais difícil é vendê-las. O nosso logo foi algo que nasceu naturalmente.

“Somos adeptos do quilómetro zero, ou seja, evitamos fazer transporte e comprar coisas que vêm de longe”.

Qual a contribuição que o Hotel República pode trazer para a economia local?
Também ao nível da economia local, uma das primeiras ideias foi encontrar pessoas aqui da zona. Todas as empresas com que trabalhamos, 60 a 70% são da zona de Tomar, tudo o que são as compras diárias para o hotel passa sempre por esta zona. Somos adeptos do quilómetro zero, ou seja, evitamos fazer transporte e comprar coisas que vêm de longe. E identificar também as pessoas localmente para trabalharem aqui. Faz crescer a zona ao mesmo tempo e a economia também.
É uma honra ter o primeiro hotel de 5 estrelas em Tomar. Dá uma grande visibilidade à cidade e acho que as pessoas também se conseguem identificar com isso.

Abriram portas em 2020, em plena pandemia. Como é que um negócio desta natureza, virado para um target topo de gama, sobrevive a um acontecimento como este?
Abrir em plena pandemia, em 2020, permitiu-nos fazer uma slow opening. Ver o que funcionava e o que não funcionava, o staff que se podia identificar com o projeto, ir à procura desse nicho de mercado que faltava aqui na zona. Para dizer a verdade foi um grande sofrimento, mas isso não foi só para mim, foi para todos os atores deste setor e não só, porque atingiu outros como todos sabemos.

Olhando para o lado positivo deu-nos o tempo de acertar, de crescer em experiência e também neste mercado.  Se calhar, se tivéssemos chegado numa altura em que estava tudo a funcionar, teria sido um bocadinho mais complicado. Mas olhando para o lado positivo de um projeto é isto que consigo tirar como conclusão da pandemia.

Estava preparado para os desafios que esta atividade envolve?
Nunca ninguém está preparado para os desafios que uma empresa vai ter porque o mundo está em movimento. O mundo empresarial está em movimento, o negócio está em movimento, seja o meu, sejam todos, de todos os setores.

Mas isto é que faz o empresário. É a diferença de ser empresário e não ser empresário. Se não houvesse pessoas com a capacidade de criar, de avançar, acho que o mundo ainda estava como há três ou quatro mil anos. Quando olhamos para trás, acho que os empresários fizeram avançar o mundo em geral, com as ideias. Experimentar fazer melhor é o que faz crescer o empresário e a pessoa.

O Hotel República tem sido palco para a passagem de muitos figuras públicas nacionais e internacionais, que estão a filmar em Portugal. Como é que chegam até vós?
Os atores que nos têm chegado de filmes que estão a ser feitos em Portugal é por mero acaso. Portugal agora está a atrair muitos estrangeiros e muitos filmes estão a ser feitos no país. O que se está a passar nos países de Leste também ajudou essas empresas a virem para Portugal que é um país mais calmo, tranquilo e mais estável.
Não estávamos à procura, mas o lado histórico de Tomar, graças ao Convento de Cristo, atraiu. Nos últimos quatro anos foram feitos aqui quatro filmes internacionais, de Hollywood, da Netflix, com grandes atores. Foi uma coisa natural. Agora está a fazer uma “bola de neve” e está-nos a dar uma imagem muito boa também fora de Portugal. Só olhando para o Instagram destes pessoas algumas delas têm entre três a quatro milhões de seguidores.

O que é que este buzz mediático tem trazido ao hotel?
Tem trazido pessoas, tem trazido curiosidade. As pessoas querem saber onde dormiram os artistas, onde ficaram ou o porquê de terem vindo ao nosso hotel. Querem perceber se ainda estão no hotel, se é verdade ou não que estão no hotel. É uma coisa que se cria naturalmente. E ainda bem porque está a dar uma grande imagem ao nosso hotel.

Este é um nicho de mercado em que quer continuar a apostar?
Sim, este é o nicho de mercado que procurámos. Temos só 19 quartos e um restaurante também muito bom e reconhecido com prémios. E seguramente não podemos ter a 100 ou 200 quartos como outros hotéis, com outras tipologias. Tenho de procurar um nicho de mercado que é interessante para mim, para poder também gerir com o serviço de qualidade que consigo dar. Seguramente esse é o nicho de mercado que seguiremos para o futuro.

O que o motivou a lançar-se no empreendedorismo hoteleiro?
O que me motivou foi ter seguido muitos projetos pelo mundo e de antecipar o que o mercado também ia procurar para o futuro. Eu como pessoa privada não tenho capacidade de assumir grandes projetos hoteleiros. E também não é isso que me interessa. Acho que um pequeno hotel de luxo, um boutique hotel, está mais ao alcance de empresários privados. E também ao nível da gestão. Acho que vai ser uma coisa que vai crescer.

“Acho que uma pessoa pode arrepender-se é de não fazer nada na vida. Aqueles que fazem nunca se devem arrepender”.

Olhando para trás, para o percurso de construção e inauguração do hotel, quais os maiores desafios que teve de enfrentar?
Olhando para trás como empresário, acho que os desafios são diários. Cada operação, cada parte do projeto, na construção, no staff… cada desafio é um desafio permanente.
Sabemos que quando se é empresário todos os dias começa um novo desafio, cada dia é uma nova história. Na visita de uma escola, um dos rapazes, de 17 anos, disse-me uma coisa que achei incrível: “mas o senhor ainda não se arrependeu de ter feito isto?”
Acho que uma pessoa pode arrepender-se é de não fazer nada na vida. Aqueles que fazem nunca se devem arrepender. Faz parte do nosso desafio diário.

“O meu conselho é de resiliência. A capacidade que cada um tem para aguentar o projeto”.

Face a esta experiência, que conselhos pode partilhar com jovens empreendedores que queiram lançar-se no setor hoteleiro?
O meu conselho é de resiliência. A capacidade que cada um tem para aguentar o projeto. E às vezes quanto mais o tempo passa mais força temos para continuar. Os limites não o sabemos. O business plan é muito bonito, mas depois acontece uma coisa como o Covid, uma situação de crise, o aumento dos juros… há muitas coisas que podem condicionar a hotelaria. Mas com resiliência e a capacidade de aguentar, se o projeto é bom e a finalidade é boa, o sucesso deve estar à porta de uma maneira ou de outra. É só esperar.

Numa frase, como define esta sua aventura empreendedora?
Usando o nosso slogan, o luxo de ser português. Quase também o luxo de ser empresário. A vida dá-nos oportunidades e ter a oportunidade de ser empresário também é um luxo na vida. O luxo de ser empresário também se pode aplicar àquilo que estamos aqui a fazer.

Respostas rápidas:
O maior risco:
É o risco de não criar nada, de não fazer nada.
O maior erro: Ainda deve estar para acontecer.
A maior lição: Deve ser a lição da vida.
A maior conquista: Ainda está para chegar.

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