Ao contrário de todas as outras crises de que temos memória, as causas subjacentes à crise económica que estamos a viver são exógenas, têm uma natureza excecional e sabemos que são temporárias.

Isto não significa que, extinta a pandemia – e estamos ainda longe desse dia – tudo voltará a ser como antes. Mas esta constatação tem – ou deverá ter – implicações na resposta a dar à crise, ao nível, sobretudo, das políticas públicas a adotar.

Face a uma crise com causas excecionais e temporárias, justificam-se medidas igualmente excecionais e temporárias, sendo o seu impacto orçamental visto, igualmente, como excecional e temporário. Isso faz toda a diferença relativamente, por exemplo, à crise anterior, em que estava em causa, na sua origem, a sustentabilidade das finanças públicas e a forma como era percebida pelos mercados, o que condicionou a forma como pode ser enfrentada.

Tenho defendido que, na sequência das medidas de emergência que foram tomadas para acorrer aos problemas de tesouraria das empresas (algumas das quais já estão esgotadas), é agora altura de as reforçar e reorientar, evoluindo rapidamente para um verdadeiro plano de recuperação, mais ambicioso, mais focado no futuro e nas condições necessárias para recolocar as empresas e a economia na rota do crescimento.

Um plano que não tenha só numa perspetiva de recuperação, a curto-prazo, mas que parta de uma visão mais alargada, de resposta aos grandes desafios de fundo que se nos continuam a colocar, tendo sempre presente o objetivo do relançamento de uma base industrial renovada, mais forte e mais resiliente.

Reconheço que o esforço orçamental inerente à política que defendo, mais dirigida à injeção de capital nas empresas e menos em instrumentos que concorrem para o seu endividamento, será acrescido. Mas esse esforço, no presente, é imprescindível para garantir uma recuperação mais rápida e mais forte, que sustente, nos próximos anos, o regresso ao crescimento e a finanças públicas equilibradas.

Nesse esforço, não estaremos sós.

O plano de recuperação proposto pela Comissão Europeia proporciona uma resposta financeira comum e de dimensão apreciável às exigências da recuperação europeia, sem sobrecarregar os Estados-membros mais endividados.

É essencial, agora, que os líderes europeus cheguem rapidamente a acordo. As negociações vão ser difíceis, mas creio que, politicamente, o retrocesso não será admissível.

O que parece estar adquirido é-nos favorável e permite a Portugal uma resposta mais robusta e mais adequada, para uma recuperação mais rápida e mais forte.

Se, como se exige, o acordo for alcançado, Portugal terá em breve a possibilidade de recorrer a um montante muito considerável de verbas.

Teremos a oportunidade de financiar reformas e de reforçar o estímulo à retoma do investimento privado.

Teremos a oportunidade, também, de levar por diante um conjunto de investimentos estratégicos, que tardam, há muito, concretizar-se. Precisamos, por isso, de repensar o Programa Nacional de Investimentos, que nunca chegou verdadeiramente a sê-lo. Espero que essa oportunidade seja agarrada, com uma visão de longo prazo, prioridades e critérios bem definidos, que permitam um verdadeiro alinhamento entre os objetivos estratégicos e os grandes projetos que lhes dão corpo.

Destaco aqui a necessidade de investir a sério na competitividade dos nossos portos e rede de caminhos-de-ferro, com prioridade aos corredores ferroviários de ligação com a fronteira, em via dupla e bitola europeia, viabilizando um transporte de mercadorias com os nossos principais mercados de destino.

Em conclusão, é preciso definir, desde já, estratégias de políticas públicas e estratégias empresariais capazes de canalizar com eficácia os recursos que estarão à nossa disposição para áreas e investimentos relevantes, de forma a que possamos sair desta crise fortalecidos.

Se formos capazes de o fazer, estaremos mais perto de reconduzir Portugal ao caminho do desenvolvimento.

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António Saraiva nasceu em novembro de 1953 em Ervidel. Diretor da Metalúrgica Luso-Italiana desde 1989 e administrador a partir de 1992, adquiriu a empresa ao Grupo Mello em 1996, sendo atualmente presidente do conselho de administração. Começou a sua carreira... Ler Mais