Acelerador de start-ups ajuda imigrantes e refugiados a lançarem ideias de negócio

Os mentores da Capacity, sediada em Zurique, na Suíça, ajudam os refugiados a desenvolverem as suas ideias e a lançarem os seus próprios negócios. Na sua última edição, o projeto contou com 14 participantes.

Os refugiados são muitas vezes considerados um encargo potencial para os países e para as comunidades de acolhimento. Este é um fato, mas também um preconceito que compromete a integração daqueles em todo o mundo. Uma associação de Zurique quer lutar contra este estereótipo, mostrando que os refugiados são talentos muitas vezes ignorados.

“As pessoas estão cada vez mais dispostas a compreender quem são os refugiados. Estão mesmo a começar a interessar-se pelo que eles têm para oferecer. Algumas empresas oferecem-lhes formação, mas ainda há um longo caminho a percorrer no mundo das start-ups… Alguns segmentos da sociedade continuam estigmatizados”, explicou Ana Maria Angarita, cofundadora da Capacity, o acelerador de start-ups que apoia os refugiados, citada pela Swissinfo.

Ana Maria Angarita sabe o que significa um novo começo. Era menor de idade quando fugiu da sua terra Natal, a Colômbia, para os Estados Unidos, em 2001, como refugiada. Posteriormente, foi o seu trabalho que exigiu viagens internacionais – incluindo uma estadia para a UNICEF, na Índia.

Paradoxalmente, a ideia de criar um acelerador de start-ups para imigrantes e refugiados surgiu após uma mudança de casa. Mudar-se para Zurique com o marido depois de oito anos em Genebra parecia fácil, mas não foi.

“Tivemos de começar do zero”, conta. “Foi difícil, especialmente para mim, quando estava à procura de emprego. Vivi pessoalmente as dificuldades que muitos refugiados enfrentam aqui na Suíça para se integrar, trabalhar em rede, ganhar a confiança das pessoas, convencê-las de que você é uma pessoa confiável, um profissional confiável”, explica a jovem que estudou no Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais, em Genebra.

Segundo a empreendedora, os imigrantes que chegam à Suíça por motivos familiares passam anos à procura de emprego, mesmo que tenham uma formação superior.

As lições que Ana Maria Angarita aprendeu com as suas próprias experiências facilitaram o lançamento do Capacity em 2015, que contou ainda com três outros cofundadores, entre eles Alexa Kuenberg. Esta médica de Zurique, que também trabalhou com refugiados, está convencida que quem sofre de transtorno de stress pós-traumático irá recuperar mais facilmente, se tiver um emprego, um objetivo, algo que ajude a desenvolver uma identidade no novo ambiente.

Histórias na primeira pessoa

Depois de ter fugido da guerra no seu país, o sírio Mohamad Aldahouk vive agora na Suíça com uma autorização F, que significa que as autoridades suíças decidiram que deve ser repatriado, mas que foi provisoriamente admitido porque o regresso não pode ser efetuado por uma das seguintes razões: pode representar uma violação do direito internacional, pode colocá-lo em perigo real ou pode revelar-se tecnicamente impossível.

É um estatuto precário, mas Mohamad Aldahouk não se deixa desencorajar, tendo lançado o iCover, um sistema de fecho inteligente que consiste numa tampa que regista a data de validade de um produto e avisa o consumidor com um sinal luminoso ou sonoro.

O mercado mais evidente para o seu produto é a próspera indústria farmacêutica suíça. “Planeei este projeto de A a Z”, diz o sírio. “Estou a desenvolver atualmente um protótipo que posso apresentar aos investidores e patentear”.

Aldahouk é um dos 14 participantes no programa Capacity 2019, que terminou em junho com uma feira “pop-up”. Trata-se de um programa de desenvolvimento de ideias que junta refugiados e imigrantes com mentores qualificados.

A colombiana Natalia Sierra também se juntou ao Capacity para lançar a sua start-up chamada Power to the People, que visa incentivar os refugiados a organizar visitas guiadas para que os moradores locais descubram a sua cidade a partir de um novo ângulo.

“Quando comecei na Capacity, tinha apenas uma ideia muito vaga”, conta. “Agora vejo claramente o que quero fazer. E uma comunidade apoia-me”, explica Sierra que frequentou um Mestrado em Arte e Sociedade na Escola Superior de Arte de Zurique e que foi responsável por um dos cartazes do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados que visava celebrar as mulheres refugiadas na exposição Art Stands with Refugees, em Basileia.

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