Vivemos numa era em que o capitalismo parece estar fora de moda. As empresas estão numa crise reputacional única e muitas são as vozes que se atrevem a anunciar que o capitalismo está morto.

O estado do pensamento económico está num ponto de clivagem único e, a certeza que temos, tal como nos anunciaram Darwin e Popper, é que serão aqueles que souberem adaptar-se e inovar sobre a estrutura, que ditarão as tendências e tomarão as posições de liderança.

Em 1882 Friedrich Nietzsche anunciava a morte de Deus, como um grito de liberdade, tão arriscado, que o próprio Nietzsche o viria a aclarar posteriormente como perigoso e imaturo. Sem as bases morais do cristianismo europeu, dizia o mesmo, o nihilismo poderia apenas derivar no desespero coletivo. Afinal Deus não era inútil, mas apenas diferente nos nossos construcionismos.

O capitalismo está longe de ser um Deus, mas talvez faça sentido a analogia, e porventura, conhecê-lo melhor, antes de o sentenciar. E como em tudo, humanizá-lo.

Afinal o capitalismo e os princípios de Adam Smith, são tão maus quanto o espírito e o propósito dos seus promotores. Nunca a humanidade viveu um período de tão elevada prosperidade e qualidade de vida como atualmente, muito graças a esta evolução do pensamento filosófico e económico. Aparentemente, também nunca vivemos com tão pouco sentido e propósito, e talvez esta seja a razão da falha do capitalismo contemporâneo.

Como nos dizia Muhammed Yunus, Nobel da Paz, esquecemo-nos que o Pai da Economia (Adam Smith), sempre focou a ciência económica no encruzilhar da eficiência e do altruísmo humano. Este último parece ter desaparecido dos cadernos que ensinamos nas nossas faculdades e, erradamente, associamos o lucro como o serviço dos detentores de capital. Numa lógica de curto prazo e do capitalismo do instante, as empresas atuais vivem para o lucro do imediato, olvidando que porventura o seu maior valor está exatamente nos restantes stakeholders que são o sustento e alma da sua atividade: os trabalhadores, os clientes e a comunidade.

Como nos diz sabiamente Celso Grecco:“Não podemos ter empresas bem sucedidas em sociedades falidas”.

É nesta senda que um dos mais brilhantes economistas contemporâneos, Michael Porter, criou o conceito de Shared Value, para nos mostrar que o futuro dos negócios está definitivamente na criação de valor e não na sua captura egoísta e imediata. As empresas que rapidamente não mudarem de uma abordagem de lucro, para uma abordagem de propósito serão certamente as vítimas do capitalismo do instante: aquele que rapidamente traz lucro e rapidamente traz miséria, desigualdades sociais, destruição do ambiente, desmotivação dos trabalhadores, falências em larga escala.

Se olharmos para o S&P 500, que lista as maiores empresas norte-americanas, vemos que a expetativa de vida média de uma empresa encurtou em mais de 50 anos no último século, de 67 anos, nos anos 20, para apenas 15 anos atualmente. Também o instante parece afetar a longevidade das empresas, que vivem cada vez menos à medida que a sua lógica egocentrista se enfatiza.

O vício do lucro fácil, destrói o lucro do propósito.

Em 1970, Milton Friedman, economista filho da escola de Chicago, escreve numa peça do New York Times, bastante provocatória: “a única responsabilidade social das empresas é aumentar os seus lucros”. Apesar de nos parecer absurda, esta frase poderá ser hoje bastante acertada, se lhe pusermos uma diferente tónica: A única forma das empresas aumentarem os seus lucros é serem socialmente responsáveis!

Esta é a única verdade com que qualquer economista ou gestor se pode guiar nos dias de hoje.

Os mais audazes foram à frente: a Unilever, por exemplo, começou em 2011 a apostar numa linha de produtos sustentáveis, que colmatam desigualdades sociais na cadeia de valor, e são hoje os mais rentáveis desta gigante multinacional. Em 2018, Larry Fink, CEO da Black Rock (maior investidor institucional do mundo) lançou uma carta aos presidentes das suas empresas com uma mensagem clara: “A sociedade exige às empresas que sirvam um propósito social. Para prosperar no longo prazo, as empresas precisam de entregar uma contribuição à sociedade além de performance financeira.  (…) todas as outras perderão licença para operar”. Neste seguimento, foi recentemente anunciado em Silicon Valley a criação da Long Term Stock Exchange, com novas regras de longo prazo.

A responsabilidade social, ou ainda melhor, a criação de impacto social e ambiental positivo, parece não ser já mais uma opção. É definitivamente um imperativo.

O lucro é fundamental para a empresa operar, mas serão aquelas que souberem encarar os desafios sociais e ambientais como oportunidades de gerar diferenciação e vantagem competitiva, que liderarão os negócios do futuro, não porque serão apenas mais responsáveis socialmente, mas porque serão as geradoras de mais lucro.

Em alguns países europeus o propósito e o longo prazo também já foram vistos como o futuro dos negócios: o Reino Unido introduziu um novo código de governança corporativa, que coloca o propósito no centro daquilo que as empresas precisam, e em França, o presidente Macron introduziu igualmente a noção de raison d’être como fazendo parte do código comercial das empresas.

Afinal de contas, Friedman ajudou-nos em algo: a pensar que nem todo o lucro é igual. O lucro com propósito, é no final de contas o que nos levará a um novo capitalismo e a (re)encontrar o verdadeiro valor da empresa. O nome “companhia” (empresa) deriva do latim: cum panis. Significa “partir o pão em conjunto”, e incute na empresa o propósito comercial e o propósito social.

É desta forma que queremos ver as nossas empresas! Como construtoras de uma sociedade próspera, bem-sucedidas, geridas por líderes e animadas por colaboradores com Propósito!


Filipa Pires de Almeida é consultora e gestora de negócios de impacto estando a capacitar organizações públicas e privadas no desenvolvimento de negócios de impacto, de forma a que estas possam liderar a Economia do futuro. É mentora de negócios sociais em diferentes países e faz parte do Community Board da maior comunidade mundial de empreendedores sociais – Makesense. Anteriormente foi gestora de projetos de impacto e responsável pela gestão de comunidade no IES-Social Business School, ao qual se juntou em 2015 e onde coordenou a rede de alumni e a rede de mentores IES-SBS. Conta com experiências profissionais no setor público e privado, tendo, anteriormente, trabalhado como Policy Advisor para os assuntos económicos no Parlamento Europeu, na Comissão de Economia e Assuntos Monetários, onde acompanhou os desenvolvimentos da crise económico-financeira Europeia e os seus efeitos em Portugal.
Também passou pela Critical Software no Brasil, onde trabalhou na área de Business Development, pela Católica Lisbon School of Business & Economics, tendo lecionado como professora-assistente a disciplina de Microeconomia, e pela Deloitte Consulting, na área de Estratégia e Operações. É licenciada em Economia pela Universidade Católica do Porto e Mestre em Estratégia e Empreendedorismo pela Católica Lisbon School of Business & Economics.

*Membro da equipa de Coordenação – Portugal Agora

Comentários