Entrevista/ “A reforma não deve ser vista como uma diminuição do valor pessoal ou profissional”

Rita Piçarra, ex-diretora financeira da Microsoft e autora

“Os negócios mais bem-sucedidos são fundados por pessoas apaixonadas pelo que fazem”, assegura Rita Piçarra, profissional que deixou o universo corporativo para cumprir o sonho de concretizar uma reforma antecipada.

Nas últimas semanas, a propósito do lançamento do seu livro, Rita Piçarra saltou para a ribalta mediática por um motivo surpreendente: aos 44 anos, a ex-CFO da Microsoft reformou-se. Alcançou a independência financeira e assumiu as rédeas do seu destino porque acredita que “a vida é uma aventura a ser vivida com paixão e propósito. Há sonhos possíveis de alcançar, o primeiro passo é saber como”.

Concretizou o sonho que muitos ambicionam, a reforma antecipada, e passou para  livro os segredos, estratégias e passos práticos que lhe permitiram alcançar, depois de duas décadas de trabalho, a independência financeira e o bem-estar. Um percurso pontuado também por episódios difíceis e que minaram a sua autoestima. Agora, revelou ao Link to Leaders, abraçou a liberdade de escolher o seu próprio caminho e prepara-se para viver o seu novo propósito, ajudar pessoas.

Quem é a Rita Piçarra?
Reformei-me aos 44 anos, após alcançar a independência financeira, encerrando uma carreira que se estendeu por mais de duas décadas. Durante esse período, desempenhei diversas funções de liderança em empresas de renome, incluindo a Microsoft e a Deloitte. Entre essas posições, destaco o papel de CFO na Microsoft Portugal, que sempre foi o meu sonho.

A minha carreira levou-me a viver e a trabalhar em diversos países como Espanha, Brasil, França, Estados Unidos e, claro, Portugal. Em 2016, fui reconhecida como a melhor gestora financeira da Microsoft América Latina, conquistando diversos outros prémios ao longo do meu percurso profissional. Para além das realizações no mundo corporativo, sou uma apaixonada pelo mar e por viagens. Hoje em dia, dedico o meu tempo à minha família, aos amigos e aos meus passatempos preferidos, como o surf e o skate. Com o objetivo de inspirar os outros, sou oradora de várias palestras e publiquei o meu primeiro livro “A vida não pode esperar”.

“(…) o tempo é um bem precioso e que devemos aproveitar cada momento”.

A propósito desse livro: porque é que a vida não pode esperar?
A vida é uma dádiva preciosa e cada dia é uma oportunidade para vivermos plenamente. É um lembrete de que o tempo é um bem precioso e que devemos aproveitar cada momento. Sugere que as oportunidades e experiências não devem ser adiadas, pois a vida é imprevisível e o futuro não é garantido. É um convite a agir em relação aos nossos sonhos, à nossa ambição, valorizando o presente tento sempre encontrar o equilíbrio entre a nossa vida profissional e pessoal.

No livro partilho os segredos, estratégias e passos práticos que me permitiram alcançar a independência financeira e o bem-estar. Desde negociar o salário até superar um burnout, desde cultivar relacionamentos profissionais até investir de forma diversificada. Cada página deste livro é um convite para transformar não apenas a sua carreira, mas a sua vida como um todo.

Este livro é para todos os que sonham com mais do que uma rotina de trabalho exaustiva. É para todos os que desejam ser os arquitetos do seu próprio destino, é para quem acredita que a vida é uma aventura a ser vivida com paixão e propósito. Há sonhos possíveis de alcançar, o primeiro passo é saber como.

Porquê um livro agora?
Quando chegamos à reforma, ou nos retiramos do mundo corporativo, é necessário encontrar um novo propósito, um novo objetivo de vida, para nos sentirmos úteis para a sociedade e claro não cairmos em depressão, como acontece com muitas pessoas que passam por esta etapa.

Eu sabia que o meu novo propósito passaria por ajudar pessoas, porque é algo que sempre gostei de fazer. Não sabia exatamente como, se seria através de voluntariado ou a dar aulas numa universidade de terceira idade, mas após a minha história se ter tornado viral percebi que o meu novo propósito era incentivar as pessoas a tomar as rédeas da sua vida, a procurarem a sua ambição, alcançarem os seus sonhos e aumentar a sua literacia financeira.

Comecei a fazer umas palestras, mas depressa percebi que se quisesse chegar a mais pessoas e ter mais alcance o próximo passo lógico seria escrever um livro. A minha esperança é que, de alguma maneira, com o livro, eu tenha conseguido ajudá-los e inspirá-los ao longo das páginas. Acredito firmemente que todos os dias nos presenteiam com uma nova oportunidade de impactar a vida de alguém, de fazer a diferença na sociedade e no mundo que nos rodeia. A vida é uma dádiva preciosa, e cada dia é uma oportunidade para vivermos plenamente.

“Para sermos os melhores profissionais temos de estar bem na nossa vida pessoal”.

Como é que aos 20 anos se planeia a carreira para não depender de uma empresa para sobreviver? Foi fácil tomar esta decisão?
Tomar a decisão foi fácil, alcançar o objetivo foi mais trabalhoso, e envolveu determinação, coragem e visão. De forma reduzida, partilho o que eu creio terem sido os quatro pilares do sucesso:

Ambição – escolhermos a nossa função de sonho e fazermos um plano de carreira para lá chegarmos. Definirmos o trajeto e lutar pelos objetivos. Executar o nosso trabalho de forma exemplar para sermos reconhecidos como tal e conseguirmos subir na organização;

Work Life Balance – para sermos os melhores profissionais temos de estar bem na nossa vida pessoal. Sugiro que façam o exercício das três caixinhas (Eu, a minha família e o meu trabalho) por forma a conseguirem o equilíbrio desejado. Delimitem as vossas prioridades e sejam intransigentes com elas;

Independência Financeira – a importância do planeamento financeiro, de termos controle sobre as nossas despesas e criamos um orçamento financeiro para entender onde estão os vossos gastos fixos e variáveis, os essenciais e os supérfluos. Relembrar que devemos tentar poupar, sempre. Quanto mais melhor para depois investirmos de forma diversificada.

Higiene mental – a importância de termos um novo propósito quando atingimos o FIRE, ou quando chegamos à idade da reforma, para nos mantermos ativos na sociedade e não cairmos em depressão.

Durante o meu percurso questionei as expetativas convencionais, encarei o medo de tomar decisões ousadas e abraçar a liberdade de escolher o meu próprio caminho. O futuro era uma tela em branco que estava à espera que eu a preenchesse com uma história de sucesso e felicidade.

A Rita tem estado sob os holofotes, principalmente depois de ter anunciado que iria parar de trabalhar aos 44 anos, por ter atingido os objetivos financeiros a que se tinha proposto e aos quais esperava chegar aos 50. Foi uma transição fácil? Tem sido desafiante?
Eu planeei a minha carreira e a minha independência financeira durante mais de 20 anos, e quando o momento finalmente chegou e anunciei a minha retirada do mundo corporativo deparei-me com um desafio, algo que eu não tinha antecipado. A realidade é que quando chegamos à reforma, ou nos retiramos do mundo corporativo, seja porque atingimos a nossa independência financeira ou porque chegamos aos 66 anos e quatro meses, é necessário encontrar um novo propósito, um novo objetivo de vida, para nos sentirmos úteis para a sociedade e, claro, não cairmos em depressão, como acontece com muitas pessoas que passam por esta etapa.

Trabalhei com uma psiquiatra para encontrar o meu novo propósito, entender o que ainda me põe um sorriso na cara. Depressa entendi que o meu novo propósito passaria por ajudar pessoas, porque é algo que sempre gostei de fazer. Não sabia exatamente como, onde …. se seria através de voluntariado, ou a dar aulas numa universidade de terceira idade.

O voluntariado seria sem dúvida uma opção já que não seria a primeira vez que o faria, mas após a minha história se ter tornado viral percebi que o meu novo propósito era incentivar as pessoas a tomarem as rédeas da sua vida, a procurarem a sua ambição, alcançarem os seus sonhos e aumentar a sua literacia financeira. A atenção mediática instantânea que recebi quando o podcast ficou viral, foi sem dúvida um desafio.

“A reforma deve ser vista como (…) momento na vida que que podemos encontrar um novo propósito (…)”.

Considera que ainda existe um estigma à volta da reforma?
Em muitos contextos, ainda existe um estigma associado à reforma. Embora a perceção esteja a mudar gradualmente, algumas pessoas podem ver a reforma como um sinal de envelhecimento ou de perda de relevância. No entanto, é importante reconhecer que a reforma não deve ser vista como uma diminuição do valor pessoal ou profissional. A reforma deve ser vista como o alcançar da liberdade em termos de gestão de tempo. O momento na vida que que podemos encontrar um novo propósito, um novo objetivos e continuarmos a ser úteis para a sociedade e nós mesmos.

O que é importante hoje em dia para reequacionar o papel do trabalho e da carreira? E para se conseguir o melhor dos dois “mundos”
Numa era onde o tempo se tornou um recurso cada vez mais escasso e valioso, a gestão do tempo e a capacidade de priorizar tarefas são competências fundamentais para prosperar, especialmente no mundo corporativo.

Quais foram as suas grandes referências para a sua formação?
Ambas as empresas onde trabalhei apostam na formação dos seus colaboradores o que as tornas excelentes escolas. Mas se eu tivesse de nomear pessoas, eu diria sem sombra de dúvida os meus pais e os mentores que me ajudaram ao longo dos anos. A educação que os meus pais me deram sempre teve como objetivo termos uma profissão que nos desse estabilidade financeira, uma profissão com “futuro”. Os meus pais deixaram-me valores, como a honestidade, a responsabilidade, a humildade, a solidariedade e a perseverança.

Com os meus mentores fui aprendendo os meandros do mundo corporativo e as competências que foram cruciais para desempenhar com sucesso as funções a que me propus. Um dos meus mentores ensinou-me o conceito de tornar o meu papel redundante. Essa frase tem estado na minha cabeça desde então. No começo, pensei: “Ele é louco! Vão despedir-me, vou ficar sem emprego em pouco tempo”. Mas com o passar dos anos, comecei a dar mais crédito a esta abordagem contraintuitiva, pois pode ser um poderoso catalisador de estratégia para o crescimento pessoal e profissional.

Tornar a nossa função redundante enquanto líderes não é tornar-se obsoleto, mas sim capacitar a equipa, delegar – confiar nas suas capacidades e fornecer orientação quando necessário. É um divisor de águas para alcançar um sucesso extraordinário. Ao nutrir talentos, promover a colaboração, oferecer oportunidades de crescimento e celebrar conquistas, criamos uma equipa dinâmica e de alto desempenho.

“Muitas vezes, quando nos deparamos com um ambiente de trabalho tóxico ou com uma chefia abusiva, temos receio de procurar ajuda junto do departamento de Recursos Humanos (…)”.

De todos os desafios pelos quais já passou, qual o que mais a marcou e teve impacto na sua carreira?
Quando as pessoas olham para o meu percurso profissional, presumem que tive um caminho fácil, em que tudo correu muito bem. Não é verdade, passei por momentos extremamente difíceis ao longo da minha carreira. Um dos episódios mais impactantes foi quando tive um manager que me agredia verbalmente, não aceitava sugestões, afirmou até que eu não deveria sorrir tanto e questionou as minhas competências e capacidades. Claro que tudo isto minou a minha autoestima.

Esta experiência foi profundamente angustiante e difícil de suportar. Muitas vezes, quando nos deparamos com um ambiente de trabalho tóxico ou com uma chefia abusiva, temos receio de procurar ajuda junto do departamento de Recursos Humanos, porque podemos ser mal compreendidos ou até mesmo rotulados como o problema.

É importante reconhecer que estas situações são extremamente desafiantes e podem ter um impacto significativo na nossa saúde mental e no nosso desempenho profissional. É essencial procurar apoio quando enfrentamos esse tipo de tratamento injusto no local de trabalho.

Há uma mulher antes da reforma e outra depois da reforma?
Sou a mesma mulher, mas estou a viver a minha segunda vida. No dia 17 de julho de 2023, deixei os escritórios da Microsoft Portugal pela última vez. No meu email de despedida lia-se: “Todos temos duas vidas, a segunda começa quando nos apercebemos de que temos apenas uma”- Confúcio. Esta citação ajudou-me a tomar uma decisão difícil: iniciar uma nova fase, retirar-me e deixar a empresa onde passei a maior parte da minha vida profissional.

Que conselhos deixaria a uma jovem executiva com ambição de alcançar um cargo de liderança?
Todos os que estão no livro incluindo: planear a tua carreira; ser excelente no que faz, estar preparado para fazer alguns sacrifícios; não descuidar o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional; ter mentores e acima de tudo “Have Fun” no processo.

E que conselhos deixa aos jovens que queiram lançar-se na criação de um negócio próprio?
Os negócios mais bem-sucedidos são fundados por pessoas apaixonadas pelo que fazem. Portanto, começa por descobrir as tuas paixões e o produto/serviço que queres comercializar. Antes de lançares o teu negócio, pesquisa profundamente a viabilidade, o teu público-alvo, o price point, a concorrência, o target e não só no mercado português…. e de resto aconselho o mesmo que a uma jovem executiva: der excelente no que faz, estar preparado para fazer alguns sacrifícios, não descuidar do equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, ter mentores e, acima de tudo, “Have Fun” no processo.

Quais os seus planos para o futuro? O que lhe falta fazer?
A nível “profissional” quero continuar a ajudar Portugal e os portugueses a saírem da cauda europeia em literacia financeira e a tomarem as rédeas da sua vida com ambição e propósito. A nível pessoal, falta-me chegar a conhecer 100 países no mundo.  Esse é um grande objetivo pessoal. Vou em 74 e este ano planeio acrescentar mais três à minha lista: Angola, Moçambique e Luxemburgo.

Respostas rápidas:
Maior risco: Ter mergulhado numa gruta cheia de tubarões nas ilhas Galápagos.
Maior erro: Ter comprado um carro novo em folha como primeiro grande investimento na minha vida.
Maior lição: Nunca dar o amanhã como garantido.
Maior conquista: Independência financeira.

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