Como empreendedor em série em tecnologia e imobiliário nos últimos 40 anos e business angel há quase 15 anos, investi em mais de 75 start-ups. Sou também presidente emérito da European Business Angel Network (EBAN) e escrevi dois livros sob a marca Invested Investor.

Tenho a sorte de viver em Cambridge, Reino Unido, que é um “viveiro” de start-ups tecnológicas e investi em 17 spin-outs universitárias. Em todos os casos, a tecnologia tem sido pesquisada e desenvolvida por doutorandos, pós-doutoramento e professores dentro das universidades, financiados pela universidade e por bolsas. Algumas investigações são únicas, algumas parcialmente financiadas por parceiros empresariais e algumas são focadas na estratégia governamental industrial.

Costumo pensar nesses investimentos como “experiências científicas” em estágios avançados, onde o mercado ainda não foi identificado, ou mesmo que tenha sido, que seja um “trampolim” para outra aplicação da tecnologia.

Portanto, quais acredito serem as barreiras à comercialização bem-sucedida da pesquisa de fronteira [aquela é focada em tecnologias inovadoras de última geração com potencial de revolucionar a economia e a sociedade]das universidades?

Em primeiro lugar, os investidores em fase inicial, incluindo os business angels, investem sempre numa equipa empreendedora, que classifico como investir em “pessoas com um plano” em vez de um “plano” com as pessoas”.  Isto pode levar a um problema significativo, uma vez que a maioria dos grandes académicos não fazem grandes empreendedores, por isso um académico cofundador quase sempre precisa de um cofundador comercial que possa angariar financiamento externo, identificar mercados e vender o produto/tecnologia e, claro, recrutar e gerir uma equipa e criar uma cultura positiva.

O conjunto de gestores de start-ups experientes é pequeno, por isso pode ser muito difícil encontrar o parceiro comercial certo. Além disso, a maioria das spin-outs terá de reformar a sua equipa de gestão à medida que se desenvolvem.

Outra questão – embora possa estar potencialmente ultrapassada no Reino Unido – é a atitude dos que estão dentro da própria universidade, tanto em termos de comercialização da investigação como dos obstáculos à angariação de fundos próprios. Muitos académicos e membros da administração universitária acreditam que a investigação deve estar no domínio público, através de trabalhos de investigação. Isto cria dificuldade aos investidores, que precisam de ver a sua defensibilidade defendida (geralmente patentes depositadas, embora não necessariamente concedidas), caso contrário pode ser fácil para um concorrente desenvolver produtos semelhantes.

Outro problema reside na conversão de ideias académicas e de resultados de investigação num produto comercial que funcione. Simplesmente transferir a tecnologia do laboratório para uma empresa de spin-out pode criar grandes obstáculos, agravados pela fase inicial da tecnologia. Geralmente, uma spin-out universitária demora regularmente 7 a 10 anos a amadurecer, o que pode significar que uma quantidade substancial de financiamento é necessária de investidores pacientes.

Finalmente, no Reino Unido, muitas universidades reconhecem a UK Patents Act 1977. A investigação foi levada a cabo por investigadores empregados em laboratórios universitários e, por conseguinte, a universidade detém uma parte significativa da empresa spin-out. Pensa-se que isto dificulta o empreendedorismo, uma vez que oferece menos espaço para a propriedade dos acionistas (e, portanto, motivação) para o(s) fundador académico(s). Em alguns casos, as universidades assumem 30% ou mais do capital inicial (75+% não é desconhecido).

Devido à minha posição, tenho uma vasta experiência no funcionamento do Technology Transfer Office (TTO) na Universidade de Cambridge, embora tenha investigado e investido em spin-outs de outras universidades. Cambridge não aceita qualquer participação em empresas spin-out, mas geralmente compra ações investindo no spin-out, usando os seus próprios fundos e comprando participações com a mesma avaliação que outros investidores – business angles ou VCs.

Além disso, a universidade recebe um fee licença para quaisquer direitos de propriedade intelectual (que podem por vezes ter uma componente de equity), com qualquer pagamento em dinheiro a começar assim que a tração comercial seja alcançada.

Na pré-spin-out, a universidade financia o processo de pedido de patente e permite que os académicos optem por desenvolver ideias sem a propriedade universitária, embora a universidade ainda possa investir nestas empresas.

Outras universidades estão gradualmente a tomar conhecimento deste modelo (especialmente porque tem funcionado bem para a Universidade de Cambridge e para as suas spin-outs) e as suas vantagens em termos de comercialização da investigação para o benefício social e económico.

Para concluir, uma grande parte da investigação de fronteira é absolutamente essencial para a inovação, mas existem muitos obstáculos no caminho entre o laboratório e o mercado. Trata-se, em geral, de problemas no desenvolvimento de produtos quando se transforma a investigação numa proposta comercial, muitas vezes causada por financiamento insuficiente e por uma gestão inexperiente.

Disseram-me que sou um dos business angels mais transparentes na Europa – por favor, veja o meu site. A partir do início de 2022, das 17 spin-outs da universidade, tive três exits positivos, três estão em processo de exit e uma falha, restando 10.  Em qualquer standard, estes resultados são excelentes, como se todos os outros 10 falhassem (muito improvável), espero ainda ter uma taxa de sucesso superior a 40%, o que é geralmente considerado alto para um business angels.

Deixo ao leitor saber como e porquê, tive tanta “sorte”.

*Empreendedor, business angel e presidente emérito da EBAN

 

Nota: O presente artigo foi publicado pela primeira vez no EBAN’s Angel Observer. Este artigo faz parte da parceria entre a EBAN e o Link To Leaders, e que consiste na publicação regular de artigos de opinião de alguns dos mais prestigiados membros da Associação Europeia de Business Angels.

Versão em inglês

My experience with university spin-outs – its role in innovation, the barriers to successful commercialisation and my success

As a serial technology and property entrepreneur for the last 40 years and an angel investor for nearly 15 years, I have invested in over 75 start-ups. I am also a President Emeritus of the European Business Angel Network (EBAN) and have written two books under the Invested Investor brand.

I am lucky to live in Cambridge, UK, which is a hotbed of technology start-ups and I have invested in 17 university spin-outs. In all cases, the technology has been researched and developed by doctoral, post-doctoral and professorial academics within universities, funded by the university and by grants. Some research is pure, some part-funded by corporate partners and some is focussed by governmental industrial strategy.

I tend to think of these investments as late stage “science experiments” where a market has not yet been identified, or even if it has, a pivot to another application of the technology commonly occurs.

So, what do I believe are the barriers to successful commercialisation of frontier research from universities?

Primarily, early-stage investors, including angel investors, always invest in an entrepreneurial team, which I class as investing in “people with a plan” rather than a “plan with people”.  This can lead to a significant problem, as most great academics do not make great entrepreneurs, hence an academic co-founder almost always needs a commercial co-founder, who can raise external finance, can identify markets and sell the product/technology and, of course recruit and manage a team and create a positive culture. The pool of experienced start-up managers is small, hence it can be really difficult to find the right commercial partner.  In addition, most  spin-outs will need to reform their management team as they develop.

Another issue -although one which may potentially be outdated in the UK – is the attitude of those within the university itself, both in terms of commercialising the research and the barriers to raising equity finance.  Many academics and members of university management believe that research should be in the public domain, through research papers.  This makes it difficult for investors, who need to see defined defensibility (usually filed, although not necessarily granted, patents), otherwise it may be easy for a competitor to develop similar products.

A further problem lies in converting academic ideas and research results into a working commercial product.  Simply transferring the technology from the lab to a spin-out company can create major hurdles, compounded by the very early stage of the technology. It commonly regularly takes a University spin-out 7 to 10 years to mature, which can mean a substantial amount of funding is required from patient investors.

Finally, in the UK, many universities recognise the UK Patents Act 1977. The research has been undertaken by employed researchers in university owned laboratories and therefore the university owns a significant share of the spin-out company. This is thought to hinder entrepreneurship, as it affords less room for shareholder ownership (and hence motivation) for the academic founder(s).  In some cases universities take 30% or more of the initial equity (75+% is not unknown).

Because of my location, I have extensive experience of the workings of the Technology Transfer Office (TTO) at Cambridge University, although I have investigated and invested in spin-outs from other universities.  Cambridge does not take any shareholding of the spin-out company, but commonly purchases shares by investing in the spin-out, using their own funds and buying equity at the same valuation as other investors – either angels or VCs.

In addition, the university takes a licence fee for any intellectual property rights (which may sometimes have an equity component), with any cash payment commencing only once commercial traction has been achieved.  Pre spin-out, the university funds the patent application process and allows academics to elect to develop ideas without university ownership, although the University may still invest in these companies.

Other universities are gradually taking notice of this model (especially as it has worked well for Cambridge University and its spin-outs) and its advantages in terms of commercialising research for societal and economic benefit.

To conclude, a large proportion of frontier research is absolutely essential for innovation, but there are many obstacles on the road between the lab and the market. These are generally problems in product development when turning research into a commercial proposition, often caused by insufficient funding and inexperienced management.

I have been told, I am one of the most transparent angel investors in Europe – please see my website. As of early 2022, of the 17 University spin-outs, I have had three positive exits, three are in an exit process and one failure, leaving ten.  By any standards, these results are excellent, as if the other ten all fail (pretty unlikely), I hope still to have a success rate of over 40%, which is generally regarded as high for an angel investor.

I leave it to the reader to work out how and why, I have had so muck “luck”.

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