Em Portugal, ultrapassámos recentemente o marco dos 12 meses com as alterações no contexto laboral e organizacional por força da pandemia. Ou seja, já há mais de um ano que a relação “habitual” entre trabalhadores e organizações foi afetada.

Esta ligação tem sido alvo, ao longo dos últimos anos e até mesmo décadas, de um grande interesse quer por parte da academia quer por parte do setor empresarial. É rico, em quantidade e em qualidade, o acervo de trabalhos científicos em conceitos como o comprometimento organizacional, a satisfação no trabalho ou a perceção do apoio organizacional, entre muito outros.

Os resultados destas pesquisas têm constituído uma base sólida para o conhecimento destes conceitos e têm indicado um rumo ou uma linha orientadora que contribui para a compreensão da relação entre trabalhadores e entidades patronais. Os que os atrai, os que os motiva e o que os retém tem uma relevância prática para qualquer organização.

A questão que, agora, se coloca é se a pandemia teve, ou não, algum impacto nesta relação. E, em caso afirmativo, de que forma.

Para além do seu impacto direto na economia e na vida de cada pessoa, a Covid-19 veio criar diferenças que devem ser estudadas separadamente. É como se tivéssemos novas categorias ou grupos, para além dos setores de atividade onde cada trabalhador se enquadra.

Muitos trabalhadores avançaram para o regime do teletrabalho – essencialmente postos de trabalho de cariz mais administrativo. Por outro lado, muitos outros tiveram que manter o seu trabalho presencial nos locais – para além do setor da saúde, muitos outros como é o exemplo dos transportes, da segurança ou da limpeza, com condições mais adversas e com os seus colegas das áreas administrativas e, em alguns casos até as suas chefias, em teletrabalho. Para outros, infelizmente, nem foi possível manter os seus trabalhos presencialmente nem em teletrabalho, como aconteceu, por exemplo, no setor das restauração e bares/discotecas.

São cenários distintos. Será que a ligação afetiva dos trabalhadores ou a sua satisfação no trabalho não será afetada, de forma diferente, de acordo com a sua experiência perante a pandemia?

A ligação afetiva de um trabalhador à sua entidade patronal continuará com os mesmos níveis pré-pandemia? Será que sim para quem esteve em teletrabalho? E para os trabalhadores que se mantiveram presencialmente no terreno, a usar transportes públicos sobrelotados e a trabalhar, pelo menos na fase inicial, com pouco, ou nenhum, equipamento de proteção? Será que “veem” a sua empresa da mesma forma?

E os que perderam os empregos quando tiverem oportunidade de regressar ao mercado de trabalho como se irão sentir? Como será, por exemplo, a sua ligação à empresa ou a sua lealdade para com o seu líder?

Ainda não sabemos como ou quando acabará esta pandemia, mas todos temos presente que veio abrir uma nova página na relação entre trabalhadores e organizações, que precisa de ser estudada.

*Coordenador científico da Licenciatura em Gestão de RH do ISG – Instituto Superior de Gestão

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