Opinião

A liderança ética: perceção e impacto comparativo em funções comerciais

Lurdes Neves, Raquel Almeida e Ana Amaro, do ISG*

Segundo o GLOBE (Global Leadership and Organizational Behavior Effectiveness, 2004, p.15), a liderança pode ser entendida como a aptidão de uma pessoa para influenciar, encorajar e qualificar outros a colaborarem para a eficácia e êxito das entidades de que pertencem.

Assim, pode ser vista como uma competência que faz parte da personalidade de alguém, sendo, por isso, natural e uma característica pessoal (um “dom”) ou pode até mesmo ser adquirida. Um verdadeiro líder orienta, alcança as metas de modo leve, justo e eficaz, sem afetar o lado psicológico dos que trabalham junto a ele. Os líderes têm um projeto de futuro visto como relevante e ambicionável, assim como a confiança para o concretizar, sendo um exemplo para os seus seguidores. É o meio que permite criar ligações humanas saudáveis e é o ponto de partida para se alcançarem as metas fixadas.

A ética, enquanto área da filosofia, tem como alvo de estudo os juízos que guiam a moral apresentando-se, assim, como uma reflexão filosófica a respeito da moral. Posto isto, a principal diferença existente entre estas mencionadas anteriormente é que a moral refere-se às condutas específicas de pessoas, bem como de grupos e, por sua vez, a ética tende para os princípios globais que dominam o bem coletivo e a relação entre as pessoas de forma geral (Menezes, s.d.).

Segundo a NP 4460 [norma portuguesa], a ética tem implicação direta na agilidade dos negócios e trata o sistema de valores que guia o comportamento organizacional e das pessoas que constituem qualquer tipo de organizações (seja com ou sem fins lucrativos), com a finalidade de praticar uma ação totalmente apropriada e consciente face às expectativas das suas partes interessadas.

Para Ferreira e Dias (2005), a palavra ética está ligada a princípios como educação, formação humana, estabilidade e uniformidade de ações das pessoas, performance e comportamento na entidade a nível de relacionamento.

A ética, na esfera empresarial, presume o conjunto de princípios morais e valores que orientam os processos de tomada de decisão, a partir dos direitos e deveres, admitidos do ponto de vista social, na escolha de certa conduta. Estes direitos e deveres aceites socialmente, tanto podem ser a nível pessoal como a nível geral. As organizações vistas como éticas, apresentam uma ação classificada como responsável a nível global e as políticas existentes confirmam-se em harmonia com a moral praticada, acabando por entregar assim, antecipadamente à ponderação/reflexão ética, cada atuação e estratégia ocorridas de modo a ficarem reconhecidas do ponto de vista social. (Brown, Treviño, & Harrison, 2005; Clegg, Kornberger & Rhodes, 2007).

Associado a estes conceitos, surge um outro: liderança ética. Ao longo do tempo, a liderança ética está a ganhar notoriedade e a despertar o interesse na comunidade científica, pois o efeito que os líderes podem vir a ter no comportamento dos seus colaboradores é seriamente significativo para um bom desempenho de qualquer entidade (Hoogh & Hartog, 2008).

De acordo com Brown e colegas (2005), este tipo de liderança consiste na manifestação de comportamentos regulamentados adequados por intermédio de ações pessoais e relações entre duas ou mais pessoas (relações interpessoais), assim como a divulgação dos mesmos por meio da comunicação bidirecional, da orientação dos trabalhadores (reforço) e do apoio na tomada de decisão, sendo estas (comunicação two-way, reforço e tomada de decisão) algumas das dimensões que, em conformidade com Brown e colaboradores (2005), fazem parte da liderança ética.

Por outro lado, De Hoogh e Den Hartog (2008) substituíram as três dimensões de Brown, Treviño e Harrison (2005) por partilha de poder, moralidade e justiça e, por fim, clarificação do papel dos subordinados. Estamos na presença de partilha de poder, sempre que os subordinados conseguem intervir na tomada de decisão, assim como fazer recomendações. Por sua vez, é essencial os líderes terem uma conduta justa e moral neste tipo de liderança. Os líderes devem também clarificar o que é esperado por cada membro e as responsabilidades, bem como os limites de autoridade, existindo então uma clarificação do papel dos subordinados.

A liderança ética é um grupo de comportamentos praticados por um líder, com a finalidade de incentivar, ou não, a instalação de um meio envolvente de trabalho ético (Arel, Beaudoin, & Cianci, 2012).

Neves e colaboradores (2016), afirmam que os princípios éticos precisam de se encontrar nas instituições e nos níveis hierárquicos. Desta forma, o líder tem a obrigação de adaptar os seus comportamentos aos códigos morais para fomentar a justiça organizacional e intervir na conduta ética dos seus funcionários.

O sucesso/insucesso de uma empresa está diretamente relacionado com o desempenho do líder. O presente estudo tem como objetivos analisar a importância da Liderança Ética nas organizações e realizar uma comparação entre duas funções comerciais, sendo essas Customer Engagement Manager e Técnico Comercial.

Assim, o principal objetivo deste estudo foi compreender o efeito que a Liderança Ética tem nos seus liderados, de acordo com a sua função em cada uma das áreas de trabalho que, por sua vez, são a indústria farmacêutica e a construção civil e obras públicas, serviços. A amostra foi constituída por 90 participantes (46 do género feminino e 44 do género masculino), com idades compreendidas entre os 30 ou menos e os 61 ou mais anos.

O método utilizado foi quantitativo, uma vez que os dados foram recolhidos através de um questionário adaptado à escala desenvolvida por Neves (2016) et al.

Como resultados conclui-se que quem adota esta liderança gera um melhor desempenho na função comercial e participação dos liderados. Os modelos que se revelaram mais significativos foram a moralidade e justiça, esclarecimento do papel e a partilha de poder. Nestes três modelos referidos, o género masculino foi o predominante. Várias limitações foram encontradas, sendo a mais significante a baixa quantidade de participantes no estudo. Existe a necessidade de continuar com o estudo e também de efetuar o mesmo em cenários diferentes utilizando este instrumento para, desta forma, consolidar e substanciar os resultados obtidos.

* Lurdes Neves, investigadora e docente do ISG – Instituto Superior de Gestão, Ana Amaro, investigadora e docente do ISG, e Raquel Almeida, aluna finalista da Licenciatura em Gestão do ISG.

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