Sejamos ou não católicos, acreditemos ou não em alguma transcendência, temos de tirar o chapéu a Francisco, Papa. Na sua entrevista, concedida à CNN, vi um homem alegre e entusiasmado e, ao mesmo tempo, ponderado com as respostas.

Vi uma preferência incrível pela verdade e pela exigência.
Percebi a capacidade integradora e, na metáfora da corrida, a necessidade da abertura e da harmonia. As várias velocidades, a normalidade com que fala delas e do quão simplesmente as encara.

Falou-se de uma estrutura mental de inclusão. Verdade. Um Papa que é o expoente da inclusão e um homem preocupado com uma igreja onde todos caibam. Onde não haja senão portas abertas e lugares para quem queira entrar.

O basilar desejo do sim e o afastamento da “igreja do não”. Percebe-se em tudo a lustrosa mensagem positiva e a urgência do aproveitamento de todos em todas as circunstâncias.

Até a feminilidade, a maternidade e a pungente necessidade de trazer as mulheres para dentro da igreja. Para cargos de destaque. Se mais papado houve com Francisco, em tempo, estou certo de que se resolveriam problemas como o da ordenação feminina, o dos recasados e o da integração e inclusão real da diversidade. E tantos outros e tantos outros. Francisco é um homem deste tempo.

A condenação dos abusos e a afirmação perentória da tolerância zero dão-lhe a tónica do rigor. Porque tem mesmo de haver tolerância zero para com a prevaricação dos sacerdotes ao usarem e abusarem dos seus poderes – sexual e moralmente.

E o apelo ao “olhem para a janela?”, porque a janela traz mundo, perspetiva e vistas largas. E traz um impacto positivo.

Falar de criatividade aos 85 anos e de universalização da juventude não é para qualquer um.

Foi o discurso oposto ao demasiado hierárquico, clerical, corporativo. Foi um discurso tranquilo, sereno, bem-disposto e de mudança.

Há tantos sinais em Francisco que vão ao encontro das conclusões dos participantes portugueses na síntese sinodal da Conferência Episcopal Portuguesa para acolhimento a todos, para exclusão das atitudes discriminatórias e para que a igreja se torne relevante em termos sociais. Todos os sinais de que há sintonia entre estas conclusões e as palavras de Francisco.

Mas há uma conclusão que nunca se pode deixar de associar a Francisco: a liderança pelo serviço (servant leadership). Aproveita para servir os outros, pede perdão pelas faltas da igreja que encabeça, partilha poder e controlo para criar engagement, olha para o futuro pela janela aberta, a das novas ideias e criatividade, ouve, ouve muito, e percebe clara e humildemente que o mal não está nos outros. É a sua eventual incapacidade para fazer melhor que pode ser o mal de tudo isto.

Repito, acredite-se ou não na existência de uma transcendência, como dizia, estamos perante um dos líderes mais inspiradores e mais dentro do contexto dos nossos tempos.

Que homem. E que lição de liderança humilde e servidora.

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Licenciado em Engenharia (Instituto Superior Técnico), MBA e PhD em Gestão (ISCTE-IUL), José Crespo de Carvalho tem formação em gestão, complementar, no INSEAD (França), no MIT (USA), na Stanford University (USA), na Cranfield University (UK), na RSM (HOL), na AIF... Ler Mais