Ninguém contesta que a carga fiscal no nosso país é excessiva, penaliza sobretudo os rendimentos do trabalho, abusa de impostos regressivos, como o IVA e, de uma forma geral, desincentiva os melhores a ficarem por cá e desanima o investidor que, até há pouco, era mesmo obrigado a pagar impostos “por conta” ou seja, antes mesmo deles serem – ou não – devidos.

Governos sucessivos, quer tenham sido liderados pelo PS ou pelo PSD, permaneceram hipnotizados com a obrigação da “redistribuição” e da gratuitidade dos serviços públicos. Só há cerca de dois ou três anos começaram a ouvir-se no país vozes a favor da “criação de riqueza” e do alívio dos impostos.  Para que se tenha uma ideia de como os nossos impostos são altos dou apenas um exemplo: um profissional que ganhe 2500 € por mês em Portugal (um salário de classe média), leva para casa 1588 € líquidos.

O mesmo salário em Espanha permite um salário líquido de 1861 € por mês em condições idênticas – 14 salários, solteiro/a, sem filhos. Se fosse na Suíça, o mesmo salário bruto permitiria um salário “limpo” de 2164 € (em Zurich). Que eu saiba, nem o estado espanhol, nem o estado suíço providenciam piores serviços que Portugal (embora a Suíça imponha o pagamento de um seguro de saúde de cerca de 250 € mensais que deverá ser subtraído ao salário mencionado).

Este preâmbulo vem a propósito de discutir se, realmente, deveríamos optar por um modelo  de menos impostos para incentivar a criação de riqueza mesmo se, para tal, houver menos para redistribuir.

O Reino Unido veio, nas últimas semanas, providenciar o laboratório perfeito para quem advoga o desagravamento fiscal como incentivo ao crescimento económico permitindo, se tudo correr como o seu governo espera, que “maré que sobe levante consigo todos os barcos”. A vasta maioria do desconto beneficiará os mais ricos, quer em ativos, quer em rendimentos. Como o Estado ficará sem dinheiro para fazer face às suas obrigações, o governo britânico propõem-se aumentar o endividamento público em cerca de 400 mil milhões de libras. Este, como se sabe, será pago ou suportado por todos, não apenas pelos que mais beneficiarão do desagravo fiscal.

Para já, os mercados reagiram com estupefação e receio. A libra despencou. Os juros sobre a dívida dispararam, as bolsas afundaram…

Não gosto de especular e a História, de vez em quando, surpreende-nos. Mas, desde o “trickle down economics” de Reagan até hoje, esta é a aplicação mais feroz do liberalismo económico. Reagan legou-nos um mundo mais livre – venceu a guerra fria – mas muito mais desigual e socialmente injusto. Veremos agora que Reino Unido restará depois de Liz Truss… e tiremos daí as nossas ilações.

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Ricardo Monteiro é ex-presidente global da Havas Worldwide e ex-chairman global da Havas Worldwide, speaker internacional, comentador de política internacional e economia na TVI 24, professor convidado da Porto Business School, administrador não-executivo na Sonae MC, e special advisor no... Ler Mais