Em todas as questões da vida, seja por nomeação seja de forma mais automática, aparecem líderes que galvanizam e inspiram as multidões, os países, as equipas ou as empresas.

São normalmente figuras carismáticas que, através do seu exemplo, da sua história, da sua postura ou do seu discurso, granjeiam o reconhecimento de quem os rodeia, influenciando e motivando as suas ações, dirigindo a cultura e a sociedade numa determinada direção, tecendo a moralidade ou os costumes e, em alguns casos, tornando-se verdadeiras lendas para um povo ou até mesmo para a humanidade.

É comum dizer que nas horas de maior escuridão surgem estes faróis que nos iluminam e compelem a ser diferentes, a fazer melhor, a alcançar aquilo que por momentos parece um sonho ou quimera impossível. É pela inspiração destes líderes que vemos mudar o tabuleiro das nações, que se fazem e desfazem países, que se criam religiões e cultos, que a humanidade muda a sua postura ao longo dos séculos.

É também comum olhar para estas pessoas nos momentos mais difíceis – nos fáceis todos sabemos o que fazer – em busca de orientação, de uma solução ou caminho para as intempéries. Procuramos alguém que nos diga a solução para o problema, que nos aponte a direção mais correta e que nos lidere no espinhoso trilho para o sucesso e glória que tanto buscamos nas sociedades contemporâneas.

Não há dúvida que há indivíduos que nasceram para liderar. É algo quase inato – em alguns casos é mesmo inato -, uma característica que se pode treinar, mas nunca se pode ensinar. Costuma dizer-se que “quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré” e essa expressão tem particular relevo quando falamos de líderes e de liderança. Liderar pode ser uma ciência em que se aprendem técnicas, características, ferramentas, mas nunca a sua génese. Ou se nasce líder – mesmo que não tendo consciência disso até determinado momento – ou dificilmente se consegue aprender a arte.

Ora dito isto, impõe-se uma questão. Se um líder é quem nos inspira, o que acontece quando é o próprio líder que está desinspirado? Deixa de ser líder porque lhe faltou a sua musa, porque teve um bloqueio? Claro que não. Também um escritor não o deixa de ser quando isso lhe acontece. Mas é penoso e pode sem dúvida levar a um certo vazio de liderança que normalmente acarreta consigo um clima de instabilidade e insegurança junto de todos que olham para o líder como a sua própria fonte de inspiração.

Mas é normal isto acontecer. Podíamos extrapolar dizendo que os grandes líderes estão sempre inspirados, sabem sempre o caminho e têm sempre a resposta certa, mas isso não seria verdade. Tampouco seria verdade dizer que deixaram de ser líderes porque num determinado momento se encontraram desinspirados e sem clareza quanto ao caminho a seguir, mas, em última análise, essa capacidade de dar a volta e reencontrar as certezas no meio das angústias e dúvidas – e são muitas, não duvidem -, é mais uma das características que os elevou a essa condição de líderes.

Podem estar desinspirados, podem perder o norte – por vezes de forma definitiva, sem dúvida -, mas os grandes líderes são efetivamente aqueles que se motivam quando menos se espera e conseguem transformar a dúvida e incerteza na sua convicção e, consequentemente, na motivação e energia dos outros. A verdade é que não há mal que sempre dure e a desinspiração toca-nos a todos em algum momento das nossas vidas. A grande liderança está na capacidade de fazer disso a nossa força.

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Nuno Madeira Rodrigues é Country Manager PT Arnold Investments e Chairman da BDJ S.A. Anteriormente foi Chairman da Lusitano SAD, Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona... Ler Mais