Escrever sobre a coragem de ser suficiente é desafiador. Ser suficiente é ser “imperfeito”. Ninguém quer ser “imperfeito” e muito menos ter a coragem de o ser e de o entender. A verdade é que tem muito impacto na nossa vida e como desfrutamos dela.

Vivemos numa cultura de “nunca chega” e “ser perfeito” é que é. Achamos que nunca somos suficientes em nada com o que temos, com o que fazemos e até quem somos. Viver nesta cultura, é viver numa cultura de escassez. Mas o oposto de “nunca chega”, não é, curiosamente, a abundância. O oposto da escassez é precisamente o suficiente. Ser suficiente implica “sinceridade” com e pela vida, com os outros e com nós próprios. E no centro dessa “sinceridade” está a incerteza, o medo de falhar, o risco emocional e a vulnerabilidade, para aceitarmos que somos suficientes.

Uma das trágicas ironias da vida pós-moderna e a razão pela qual muitas pessoas se isolam umas das outras tem a ver com sentimentos comuns; como o medo de fracassar e a sensação de não sermos suficientes. Ter medo faz parte da nossa vida, em qualquer contexto. O grande desafio é não deixar que esse medo seja paralisante e usemos a situação que nos “amedronta” para crescer e avançar. O medo, na realidade, pode ser altamente transformador e ajudar a viver com mais coragem, compromisso e propósito.

O medo surge em contextos de risco e incertezas. Incerteza sobre uma viagem, um relacionamento, uma nova posição na empresa, ser pai ou mãe, mudar de carreira, criar um negócio próprio, mudar de vida….. É preciso coragem para enfrentar estas incertezas e riscos, superar o medo e seguir em frente. Ficamos altamente vulneráveis nestes contextos, mas a verdade é que nos dá a coragem para avançar e agir.

Quando fugimos de emoções como medo, mágoa e deceção, também nos fechamos para o amor, para a aceitação, para a empatia, para a compaixão e para a criatividade. Por isso, as pessoas que se defendem a todo o custo do erro e do fracasso distanciam-se das experiências marcantes que dão significado à vida e acabam por se sentir frustradas.

Por outro lado, aquelas que mais se expõem e se abrem para coisas novas são as mais autênticas e realizadas, ainda que se tornem alvo de críticas e de sentimentos como a inveja e o ciúme.

Nos últimos 20 anos da minha vida fui fundadora de algumas empresa. Troquei funções de “conforto” pelo desconhecido de criar algo novo, que nem sabia no que iria resultar. Tive medo emocional e até material? Sim, tive. Expus-me ao tal potencial fracasso (seja lá o que isso queira dizer)? Sim, mas avancei.

Foi a coragem de ser imperfeita e suficiente que me fez avançar. Usei todo esses medos, riscos e vulnerabilidades, com coragem para criar equipas de alto desempenho e tornar as empresas bem sucedidas. Fiz crescer pessoas que trabalharam comigo e que elas também me fizeram crescer imenso. Fui alvo de críticas? Imensas. E sentimento de inveja e ciúme? Também, e muito! É preciso lidar muito bem com os dois lados da moeda a fim de alcançar a felicidade de realizar todo o nosso potencial. Como escreveu Maya Angelou, quem muito aprecio pela sua inspiração: “One isn’t necessarily born with courage, but one is born with potential. Without courage, we cannot practice any other virtue with consistency. We can’t be kind, true, merciful, generous, or honest.”

Tenha a coragem de ser imperfeito e de ser suficiente. Lidar com medos, frustrações e sentir-se vulnerável não é fracasso, é coragem. Coragem que lhe trará crescimento, criatividade, transformação, aprendizagem e, acima de tudo, uma vida mais plena e com propósito.

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Sobre o autor

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Sónia Jerónimo é Entrepreneur & Board Advisor. Passou pela Winning, como COO e Board Advisory, e tem mais de 20 de experiência na área da gestão e liderança de empresas ligadas às tecnologias de informação. Após a licenciatura em Economia,... Ler Mais