Recentemente escrevi sobre os momentos dramáticos e eventos terríveis que, apesar da adversidade, significaram momentos de mudança e evolução global.

Exemplos como a peste bubónica, que atingiu a Europa por volta de 1350, e que acabou por levar a Europa Ocidental a desenvolver uma economia mais moderna. Ou como a gripe espanhola de 1918, que revolucionou a assistência médica. Ou o acidente nuclear de Chernobyl em 1986, que alterou para sempre o paradigma da produção de energia e promoveu a procura de fontes alternativas de energia. Ou a “Grande Depressão”, crise económica da história dos Estados Unidos, que fez surgir o “New Deal” decisivo para a recuperação da economia global. Ou ainda o “Plano Marshall”, que reabilitou financeiramente uma Europa devastada pela 2.ª Guerra Mundial.

A história está cheia de exemplos que nos motivam a enfrentar o futuro com otimismo. Estes são momentos chave que revelam os inovadores, os resilientes, os inconformados e acima de tudo os empreendedores.

Nestes tempos o que faz as empresas sobreviverem a mudanças dramáticas é a sua perspicácia empreendedora associada a uma boa gestão e o suporte de políticas públicas eficazes.

Temos visto muitos exemplos dessa perspicácia empreendedora, tanto em grandes empresas como em muitas das nossas Pequenas e Médias Empresas (PME) que, fazendo um desvio do seu “core business” e em busca de oportunidades, passaram a aproveitar os seus recursos humanos, equipamentos e linhas de montagem para produzir desinfetantes para as mãos, viseiras, luvas, máscaras e outros tantos produtos e serviços essenciais nesta fase.

Os empreendedores fazem o que sabem fazer melhor, que é precisamente descobrir como criar valor para os consumidores, adaptando-se e ajustando-se, transportando na incerteza do caminho a garantia de estarem a contribuir para criar o futuro.

Como ironizava o escritor norte-americano, Ambrose Bierce, “…o futuro é o único reduto do tempo em que tudo corre bem” e os nossos empreendedores sabem isso mesmo e transportam, no presente, uma dose de imprevisibilidade saudável que sustenta esta ironia.

No entanto este tempo de pandemia, denominado o “Novo Normal”, é revelador de uma enorme incerteza uma vez que não dependemos só de variáveis dos mercados, da economia ou das empresas. Em tempos de pandemia a incerteza vem também (e principalmente) da maior ou menor intervenção do Estado e da maior ou menor eficácia das políticas públicas que este aplica.

Vimos a reação do Governo à pandemia, e assistimos todos às declarações de Estado de Emergência que mudaram as regras praticamente da noite para o dia. Isto transporta um nível de incerteza a que os nossos gestores e as nossas empresas não estão acostumadas e gera desconfiança uma vez que surge de mudanças e de regras completamente imprevisíveis.

Esta incerteza é um dos principais obstáculos a ultrapassar e com um tecido empresarial maioritariamente composto por PMEs – que empregam mais de três quartos da força de trabalho nacional – os tempos que aí vêm são de uma exigência só vista em momentos chave da evolução nacional e até mundial.

Muitas das nossas empresas ficarão pelo caminho e outras tantas terão de recuperar em meses o que não conseguiram evoluir em décadas. Impõe-se em tempos excecionais uma aliança forte e robusta entre o Estado e a Economia. Temos de juntar ao otimismo regras claras e relativamente estáveis, fechando as portas a uma permanente imprevisibilidade por parte do Estado.

A prioridade imediata é salvar o máximo de postos de trabalho e de empresas que têm neste momento graves problemas de liquidez e de acesso ao crédito. O apoio financeiro para fazer face aos custos da estrutura é fundamental, principalmente para as PMEs.

Estancada esta primeira hemorragia, que permitirá garantir os postos de trabalho, é tempo de injetar liquidez na economia dando apoio direto às atividades das empresas. A nível europeu fala-se numa injeção de liquidez de uma “Bazuca” com um montante global na ordem de um bilião de euros, o que é francamente positivo.

Em Portugal temos de, por via da implementação medidas excecionais, garantir rapidamente a manutenção do emprego, mitigar o forte impacto da recessão e reduzir o risco de uma crise prolongada das finanças públicas. Desta forma prevenimos também uma provável crise social, sempre associada ao aumento do desemprego e aos períodos de crise.

Quanto mais eficazes e eficientes forem as políticas públicas, menos sofrerá a nossa economia e por consequência os portugueses. Quanto mais previsibilidade e estabilidade garantir o Governo mais sairá beneficiada a sociedade e os seus setores mais frágeis.

Aproveitemos este momento como os outros momentos na história e concretizemos os projetos dos mais pragmáticos e empreendedores, que se regem pela máxima de Peter Drucker que diz que, “A melhor maneira de se prever o futuro é criá-lo”.

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Sobre o autor

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Rodrigo Gonçalves nasceu em 1974, em Lisboa. Gestor de Negócios, empresário, consultor em liderança e gestão de equipas e um empreendedor apaixonado e resiliente. Licenciado em Ciência Política pela Universidade Lusíada, Mestre em Ciência Política, Cidadania e Governação pela Universidade... Ler Mais