Há uns dias, fiquei a saber que o meu computador era considerado vintage pela marca que mo vendeu. Não fabricavam nem vendiam o cabo que ligava a motherboard ao disco rígido, e, portanto, o reparador oficial não me poderia recolocar o computador a funcionar. Compreende-se, era um computador que me tinha sido legado pelo meu bisavô e, naturalmente, séculos depois…

Oh wait! Foi comprado nem há seis anos. Era eu, assim, “vítima impotente” da obsolescência programada. Da criação da necessidade de adquirir de novo um objeto que me parecia ainda em belíssimas condições de uso. Tão catita, que é nele que escrevo agora estas palavras.

Tornei-me, entretanto, um apto reparador de computadores. Mercê dessa coisa admirável que é o Tube, como repositório de conhecimento útil e de instruções para quem não quer ser vítima da vontade de execução da primeira estratégia de Ansoff – vender mais do mesmo aos mesmos… mesmo que eles não queiram… uma estratégia executada com mestria, ou mesmo sem ela, porque quem possui monopólios “de facto” ou posição dominante na cabeça do consumidor…

E mercê, claro está, dessa evolucionária coisa que é o … mercado. Mailos seus próceres Amazon, eBay e AliBaba. Busca-se rapidamente e encomenda-se a preço muito razoável o que quer que seja, para recolocar em boa ordem toda a classe de artefactos da pós-modernidade.

E bem precisamos desta gente subversiva que nos protege dos monopolistas. De facto. Gente que nos ensina a resistir aos impulsos do consumismo acéfalo. Que nos ensina como recuperar a funcionalidade e não ceder à tentação da religião “crescimento económico” e da exibição do último gadget. Evita que produzamos ainda mais lixo. Evita que contribuamos para envenenar ainda mais o meio ambiente, deixando um planeta longe de ser vintage para os nossos netos.

Esta atitude arrogante por parte das marcas que são aduladas e que exercem esta pressão para que compremos a ritmo que satisfaça o “top line” e o ebita “desenhados” no budget, é concretizada apenas porque sim. Porque podem. Porque permitimos. Porque nos deixamos ir atrás.

Eu mudei de sistema operativo, porque na altura não descobri nenhuma boa razão para a “evolução” dos sistemas operativos que não fosse o “top line” da empresa monopolista. E, além dessa, não existiu nenhuma outra razão substantiva para pelo menos 50% da “evolução”. Na maior parte das vezes, o “novo sistema operativo” foi bem pior do que o que o precedeu.

Agora mudo de hardware, porque não gosto de ser encurralado. Nem como consumidor, nem como cidadão, nem como ser humano.

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Sobre o autor

José Manuel Fonseca

José Manuel Fonseca é fellow do Complexity and Management Centre da University of Hertfordshire e Visiting Researcher da Chalmers University of Technology em Gutemburgo, e professor na Universidade Europeia. Foi docente da Nova Schooll of Business and Economics entre 2006... Ler Mais