Durante anos temos sido expostos ao conceito de work-life balance, sendo que o termo é utilizado em diferentes contextos, tendo inclusive servido de base para a definição de planos de promoção do bem-estar, para lá de inúmeros painéis de discussão.

Mas afinal o que é work-life balance e qual o impacto do conceito em cada um de nós?

Numa definição simples o conceito assenta no pressuposto de ser possível ter as várias facetas da nossa vida (profissional, familiar, pessoal) em equilíbrio, garantindo que a alocação de tempo e atenção está corretamente distribuída.

A consequência é uma sensação de frustração contínua, dado ser virtualmente impossível atingir este equilíbrio. Simultaneamente, por forma a garantir que conseguimos fazer tudo a que nos propomos, é comum cortar nas horas de sono ou saltar refeições, com os consequentes impactos no nosso bem-estar físico e psicológico.

Apenas como referência, Joel Goh, professor de Harvard, estimou que o stress no trabalho tem um custo total de 190 biliões de dólares, o que corresponde a 8% do orçamento total dos gastos de saúde. Um outro estudo realizado em New-England revelou que 1/3 dos trabalhadores reportou elevados níveis de stress, com consequências ao nível da saúde mental e níveis de absentismo.

Mas porque é que os números de stress continuam a aumentar, ao mesmo tempo que se disseminam boas práticas ao nível de work-life balance?

Na minha opinião, a falha base do conceito de work-life balance está associada ao facto de não ter em consideração a unicidade do ser humano, e a interligação das diferentes facetas. Falha também porque parte do pressuposto que tem que haver um equilíbrio constante, abstraindo-se do facto de nem sempre ser possível ou requerido que estejamos focados em todas as facetas. Existem momentos em que temos que dar maior atenção à nossa vida familiar, outros em que a vida profissional ganha maior peso, e outros em que as nossas necessidades pessoais se sobrepõem.

Neste contexto não é displicente o impacto da tecnologia na manutenção deste equilíbrio, bem como as oportunidades e desafios associados ao acesso a essa tecnologia. Oportunidades porque nos permitem estar a dar atenção à nossa família, ao mesmo tempo que estamos atentos à chegada daquele email que nos permitirá fechar um negócio critico para a empresa. Desafios porque é muitas vezes difícil deixar de estar on, com os consequentes impactos ao nível de bem-estar.

Os nossos mundos misturam-se, e o work-life blending ganha relevância.

E o que é work-life blending?

O work-life blending é um conceito que me permite definir qual a fórmula que quero utilizar na minha vida, tendo como base as minhas prioridades e não os papéis que desempenho. É também um conceito que tem como princípio a fluidez, pelo que a fórmula pode mudar ao longo dos dias, meses ou anos.

Para que a sua implementação tenha sucesso é importante que se tenham claros alguns princípios, nomeadamente:

  • Aceitar que a vida nem sempre é perfeita e que vai falhar muitas vezes, até encontrar a fórmula (blend) ideal para si;
  • Não ter expetativas demasiado altas, aceitando que não é possível ter tudo;
  • Definir prioridades, não deixando para segundo plano aquilo que a/o faz feliz;
  • Alocar tempo na agenda para as atividades que são importantes, sejam elas profissionais, pessoais ou familiares;
  • Definir limites, estabelecendo claramente quais são os trade-offs que está disposto a fazer, e por quanto tempo;
  • Criar um sistema de controle, garantindo que o blend que definiu é aquele que está efetivamente a acontecer;

“As machines become more and more efficient and perfect, so it will become clear that imperfection is the greatness of man”. Ernst Fischer

Para concluir é importante salientar que o que nos define como seres humanos são as nossas emoções, os nossos pensamentos, as nossas relações, bem como a forma como nos relacionamos com o corpo e com o ambiente. Esta complexidade é também aquilo que nos permite ter várias facetas e desempenhar diferentes papéis. É, no entanto, a capacidade de integração destas dimensões que nos faz feliz, cabendo a cada um de nós descobrir o seu blend.

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Sobre o autor

Anabela Possidónio

Anabela Possidónio é diretora executiva do The Lisbon MBA e Executive Coach certificada pela ICF. Anteriormente à função que desempenha atualmente, esteve 20 anos no mundo corporativo, 14 dos quais na BP, tendo trabalhado em Portugal, no México, em Espanha... Ler Mais