É que, quando você aceitar a sua primeira promoção, vai levar com um dos dilemas mais complicados para quem trabalha numa empresa.

O dilema é o seguinte: o contributo de um gestor para a empresa resulta da sua capacidade de motivar os trabalhadores na sua equipa, mas a carreira e até o emprego de um gestor depende da imagem que projeta a quem manda na empresa. Em princípio, isto não é dilema nenhum. Os gestores que conseguem melhores resultados, são aqueles que projetam uma imagem melhor para quem manda na empresa.

Pois, pois.

Isso pode ser assim nas séries da TV, mas a vida real é muito diferente.

Há pessoas que são muito boas a apresentar uma imagem de sucesso, mesmo sendo um fracasso. Pior, há líderes para quem a lealdade inabalável e o elogio falso são mais importantes do que o desempenho. E também há líderes cobardes que não querem ninguém que os possa ameaçar, por saber mais ou fazer melhor.

Tudo isto significa que há mesmo um dilema. Ser capaz de motivar os colaboradores e atingir resultados difíceis pode não adiantar de nada para a sua carreira e até a pode prejudicar, se quem o lidera for suficientemente inseguro ou estiver rodeado de pessoas que estão onde estão, porque são excelentes a projetar uma imagem que, na realidade, é tão fraca como os hologramas no Star Wars dos anos 70.

Este dilema é um teste. Algumas pessoas passam, outras não.

A dificuldade depende da qualidade de quem lidera. Todos os líderes podem ser vítimas de politiquice daquela a sério. Mas, para uns, essa politiquice é mais desejável do que para outros. Pode ser que você tenha sorte na lotaria da liderança e lhe calhe um líder vacinado contra truques de espelhos. Mas também pode ser que não. Pode ter azar. Pode até ser despedido pela sua capacidade de motivar os outros e de atingir resultados. Porque pessoas assim fazem sombra a quem faz tudo para colocar em si a luz dos holofotes. Nestas condições, o teste é um teste difícil. Passa quem se adapta, quem começa a gerir para cima. Passa quem vai às reuniões fazer perguntas sem se comprometer com propostas, para ficar sempre na posição de poder criticar quem tem a coragem de tomar posição. Estas pessoas que gerem para cima, vão construindo uma escada em que cada degrau é feito de pessoas que não quiseram ou não souberam jogar este jogo. É uma escada frágil, mas também não é preciso ficar muito tempo em cada degrau. Além disso, não faltam ingénuos que chumbaram no teste, porque são teimosos. Insistem em gerir para baixo. Insistem em tentar atingir objetivos através das pessoas que trabalham na sua equipa. Insistem em defender soluções. E pior. São tão ingénuos que se atrevem a levantar problemas, quando deviam era estar caladinhos. Para o seu próprio bem.

Sabendo isto tudo, você quer mesmo ser gestor?

Se a resposta é sim, então este é o jogo. Pode haver exceções. Há exceções. Mas são sempre temporárias. Duram até que chegue um líder pior, um líder mais fraco. É uma questão de tempo.

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Sobre o autor

João Vieira da Cunha

João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais