A imagem é o que nos distingue dos outros e, por isso, devemos cuidar de todos os aspetos que possam contribuir para a sua melhoria, nomeadamente a forma como nos vestimos.

Não apenas pelas mensagens subtis que a roupa transmite para pessoas mais atentas (uma gravata de marca, um fato de lã com bom corte), mas também pela mensagem óbvia e que todos decifram: se é ou não uma pessoa desleixada.

Não se usa a mesma roupa para trabalhar num gabinete ministerial ou numa empresa de comunicação. Recordo-me de um membro do governo em início de funções que se apresentou para receber o Primeiro-Ministro, em determinada cerimónia, com um casaco de quadrados verdes e amarelos e calças verdes. Um dos «seguranças» perguntou-me: «Aquele “caramelo” que está a falar com o PM é para afastar ou deixamos ficar?». Tive de explicar que era um membro do governo e que o deixasse ficar onde estava, mas o segurança retorquiu: “Não parece nada”.

A regra essencial é que cada um se sinta bem com o que veste – mas ninguém pode sentir-se bem, se comparecer de calças de ganga e camisola num jantar, onde todos os outros convidados estão de smoking… Por isso, em ocasiões especiais, é importante informar-se de antemão sobre o traje apropriado.

Mas, no dia-a-dia, também convém observar como se vestem as outras pessoas do seu emprego, para não destoar excessivamente delas. Um diplomata veste-se como um banqueiro, mas um empresário tanto se pode vestir como um banqueiro, como usar o último grito da moda, se o setor onde se move for, por exemplo, a decoração, a publicidade ou o estilismo.

Um amigo meu foi transferido para a sucursal de Londres do banco em que trabalhava. Fez um guarda-roupa novo e apresentou-se no primeiro dia com um blazer de corte impecável. Mas percebeu que cometera um erro, quando o porteiro do banco o recebeu com um irónico «Good morning, sir! Going to the country today, are you?». É que, em certos meios britânicos, os blazers continuam a ser considerados casacos informais (o chamado smart casual), mesmo que tenham etiqueta de Saville Row…

Outra regra que continua em vigor no Reino de Sua Majestade a Rainha Isabel II, é que um “Gentleman never wears brown in town.” A regra terá sido ditada pelo primeiro Marquês de Curzon de Kedleston e, hoje, foi adaptada para “No brown in town”, querendo significar que um fato castanho continua a ser mais apropriado para vestir, quando for convidado por um amigo britânico para passar um fim-de-semana na sua casa de campo. No ano passado, o jornal The Times publicava um artigo intitulado “Don’t wear Brown shoes if you want to walk into city job”. E concluía “when it comes to hiring financiers, the “no brown in town” rule is still being used to weed out the wrong sort of person in City job interviews.”

Em alguns setores, em Portugal, somos quase tão conservadores como os britânicos.

Por isso, se receber um convite com a indicação de «fato escuro», já sabe que terá de levar um fato azul ou cinzento escuro ou de risca de giz. Alguns convites nem sequer trazem essa indicação – o que só mostra, aliás, o bom gosto e a boa educação de quem os envia. Com efeito, quando se é convidado para um jantar ou um evento formal (e já nem sequer falo de um enterro de Estado…), o que pertence é levar um fato escuro. Seria tão absurdo ir vestido de outra forma, que a indicação de “fato escuro” deve ser considerada desnecessária – ou, a existir, pode ser considerada insultuosa.

À noite, o dado era vestir camisa branca com o fato escuro. Mas há muito quem use camisas menos austeras – o azul-claro e as riscas vão-se sentando com crescente à-vontade nas melhores mesas da sociedade portuguesa. Essencial é a cor dos sapatos: tem de ser preta. Os sapatos castanhos ou cor de vinho são sapatos diurnos, não são sapatos para jantares, festas e receções à noite.

Já agora: quando, no Reino Unido, for convidado para um informal dinner, não apareça de jeans e camisola, nem sequer de blazer azul e calças cinzentas. Um informal dinner é apenas o contrário de um formal dinner, que impõe o uso de smoking. Ou seja, deve vestir um fato escuro.

Hoje em dia, nas empresas tradicionais, o traje adequado para trabalhar é aquilo que, em países anglo-saxónicos, se designa por lounge suit ou business suit: um fato cinzento claro, um fato príncipe de gales ou um blazer com calças de cor diferente. A brancura da camisa deixa de ser uma exigência. O negrume dos sapatos também.

Para terminar, recorde o que vem em todos os livros: a elegância começa nos pés. Ou mais exatamente, nos sapatos. É por eles que se avalia o gosto de uma pessoa. E não se esqueça de que os homens não têm, regra geral, nenhuma vantagem em mostrar as pernas. Deve usar meias suficientemente altas, para que, quando cruzar as pernas, os seus tornozelos não fiquem à vista. Não costuma ser um espetáculo particularmente agradável… A menos que queira ser como um ministro francês que, há anos, apareceu envolvido em fumos de corrupção: para o defender, diziam os seus amigos que bastava olhar para as fotografias, onde ele aparecia sempre com meias curtas e de má qualidade, para se perceber que ele continuava a não ter onde cair morto.

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Sobre o autor

Isabel Amaral

Isabel Amaral é Presidente da Associação Portuguesa de Estudos de Protocolo desde 2005 e Investigadora do Instituto do Oriente (ISCSP-Universidade de Lisboa), desde 2013. É oradora internacional, empresária, coach executiva, docente em universidades portuguesas e estrangeiras, palestrante e conferencista, em temas como Imagem, Protocolo e Comunicação Multicultural. Como formadora de protocolo, imagem e comunicação intercultural, assegurou a organização e monitoria de diversos cursos em Portugal, Angola, Cabo Verde, Namíbia. Espanha,... Ler Mais