No ano passado comprei um portátil com um processador Intel Core i5, o que satisfaz as minhas necessidades enquanto utilizador. Mas quem não ficou muito convencido foi o meu filho, pertencente à geração conectada, pois para ele eu deveria ter comprado um Core i7, por ter maior velocidade de processamento.  Para quem não está familiarizado, o processador Core i5 está entre o Core i3 e o Core i7, portanto com uma velocidade razoável.

Sem surpresas, a nossa época passou a ser dominada pela velocidade e, se antes dizíamos que tempo é dinheiro, se calhar hoje corro o risco de dizer que velocidade é dinheiro.

Efetivamente, a velocidade com que as ideias, as tecnologias, os paradigmas, os fenómenos e as modas mudam, é espantoso, sem qualquer precedente na história da humanidade. Vejamos alguns exemplos, que ilustram como as alterações tecnológicas estruturais acontecem numa velocidade sem precedentes, fazendo com que hardware, software, pessoas e organizações fiquem rapidamente ultrapassados.

Não temos ainda a verdadeira dimensão do impacto dessa velocidade na vida das empresas e das pessoas. Por exemplo, vejamos o que se passa com a duração de vida das empresas, uma constatação trazida pelo Presidente da Telefónica espanhola, José María Álvarez-Pallete. Ele recorda que 52% das empresas que, no ano 2000 faziam parte do índice Standard & Poor’s, já desapareceram e que a evolução da tecnologia vai ditar o fim de milhares de empresas nos próximos anos. A duração da vida média de uma empresa passou de 61 anos em 1995 para apenas 17 anos hoje. Ele considera que as empresas tradicionais não estão preparadas para a disrupção tecnológica que está a alterar a realidade laboral e empresarial.

A outra dimensão que chamamos para essa analise é o volume. A quantidade de informação disponível hoje, ao alcance quer de uma criança que saiba pesquisar num tablet, quer do mais qualificado dos profissionais, também não tem comparação na história, graças à evolução tecnológica.

O autor já citado considera que o volume de dados vai multiplicar-se por onze nos próximos anos, assumindo-se como um dos recursos mais valiosos da economia, assim que se democratizar a tecnologia 5G, que deverá multiplicar por cem a atual velocidade da internet. E, mais uma vez, temos o binómio volume/velocidade a ditar as transformações disruptivas.

Falando em termos de negócios, esse binómio volume/velocidade traz vantagens para as empresas, quando pensamos em mercados locais pequenos e na necessidade de alcançar novos consumidores e de unificação de mercados. Se não vejamos: segundo Pallete, o telefone fixo levou 75 anos a atingir os 100 milhões de utilizadores; o telemóvel levou 16 anos; o Facebook 4 anos e 6 meses; e a aplicação Pokemon Go levou apenas 23 dias.

E como é que essas duas dimensões afetam a vida das organizações? Estas são geridas por pessoas (nalguns casos com apoio de algoritmos) e as operações são efetuadas também por pessoas (em alguns casos por robôs ou por algoritmos), que devem perceber a realidade que os rodeia. Até aqui nada de novo. O que passa a ser mais relevante é a introdução dessas duas dimensões no processo de liderança das organizações e de execução das operações: velocidade e volume.

A ausência dessas duas dimensões pode levar a que tenhamos pessoas a desempenharem as suas tarefas com base em premissas, pressupostos, dados, informações e quadro mental já totalmente ultrapassados, tanto ao nível temporal como tecnológico. Significa que basearão toda a sua atuação numa realidade que já estará ultrapassada, devido à velocidade das mudanças.

Mas isso, infelizmente, é a realidade em muitas organizações: lideres e colaboradores com um mindset que não evoluiu ou que evoluiu com uma velocidade inferior ao que deveria. Continuam presos ao passado, não incorporaram a dimensão velocidade no seu processo cognitivo e evolutivo: velocidade de mudanças, velocidade de circulação da informação, velocidade com que as empresas nascem e morrem, velocidade com que se contrata e despede, velocidade com que se compra e vende, velocidade traduzida na viralização de conteúdos.

Quanto à dimensão volume, esta está intimamente ligado à velocidade. Também neste quesito alguns líderes e colaboradores acabam por exercer o seu papel não levando em conta o volume e adequação da informação. Dada a quantidade de informação hoje disponível, é necessário desenvolver capacidades “especiais”, para poder selecionar a informação mais adequada à sua decisão.

Enquanto isso, decida, mas decida rápido.

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Sobre o autor

Carlos Rocha

Carlos Rocha é administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi Administrador Executivo da CI - Agência de Promoção de Investimento. Doutorado em Economia Monetária e Estabilização macroeconómica e política monetária em Cabo Verde, pelo Instituto Superior de Economia e Gestão – Lisboa, é mestre em Desenvolvimento Económico e Social em África, com especialização em Política Económica e Desenvolvimento de Negócios,... Ler Mais