Segundo um estudo recente da Pitchbook, divulgado aqui no Link to Leaders, os unicórnios fundados por mulheres representam menos de 10% do número total de start-ups avaliadas acima dos mil milhões de dólares. Dos 239 unicórnios que existem no mundo, apenas 23 tiveram uma mulher na equipa fundadora.

Os números impressionam mas não são propriamente uma surpresa. Há muito que se sabe que o potencial empreendedor das mulheres não é devidamente materializado, sobretudo em áreas de negócio de maior sofisticação tecnológica. Apesar do elevado número de mulheres graduadas e pós-graduadas no mundo, estas tendem a desenvolver os seus negócios em setores menos intensivos em conhecimento, em particular no setor dos serviços e comércio. Isto significa que as mulheres se encontram arredadas das áreas de negócio mais valorizadas pelos investidores, não assumindo por isso funções de responsabilidade e decisão em empresas de elevado potencial.

Importa, pois, incentivar o empreendedorismo feminino e, em particular, a iniciativa empresarial das mulheres em áreas de negócio de futuro. Desta forma estar-se-á não só a valorizar profissionalmente as mulheres e a promover a paridade no mundo empresarial, mas também a desenvolver um potencial económico ainda por explorar. Com efeito, a criação de empresas por mulheres é um fator de progresso socioeconómico ainda subaproveitado, sobretudo se tivermos em conta a elevada presença feminina nas universidades e de como essa qualificação superior pode ser aplicada em projetos de empreendedorismo intensivos em conhecimento.

De facto, atrair mais mulheres para as áreas tecnológicas é, antes de mais, uma medida de racionalidade económica. Um estudo da Comissão Europeia, intitulado “Women ative in the ICT sector”, estima que a entrada de mais mulheres no setor das TIC se traduziria num aumento anual do PIB da UE em cerca de 9 mil milhões de euros. Ou seja, trazer mulheres para a economia digital significa mais riqueza e emprego, mais competitividade e inovação, mais igualdade de género e coesão social.

Promover o empreendedorismo feminino de base tecnológico obriga, desde logo, a uma reorientação das opções das mulheres no ensino superior. Em 2016, havia mais de 1,3 milhões de estudantes de TIC na UE. Contudo, apenas um em cada seis estudantes desta área era do sexo feminino (16,7%). Na Europa parecem prevalecer ainda os estereótipos de género que associam as TIC a competências eminentemente masculinas, o que desincentiva as mulheres a envolverem-se mais no setor das tecnologias.

Mas há mais atitudes estereotipadas que interessa extinguir. As mulheres tendem a ser vistas como financeiramente menos credíveis do que os homens, circunstância que limita o acesso a capital por projetos de empreendedorismo feminino. Ainda hoje, as mulheres enfrentam mais barreiras para obter capital inicial do que os homens e no crédito bancário são lhes impostas taxas de juro mais elevadas. Ora, o empreendedorismo inovador requer investimentos consideráveis, sendo este também um obstáculo de monta à iniciativa empresarial das mulheres nas áreas tecnológicas.

Em suma, não haverá mais unicórnios femininos se não se atuar ao nível da educação – aumentando o número de estudantes femininos nos cursos tecnológicos –, da inovação – reforçando a transferência do conhecimento das mulheres para as empresas­ – e do financiamento – discriminando positivamente as empreendedoras no acesso a capital semente e de risco.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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Sobre o autor

Adelino Costa Matos

Adelino Costa Matos é Presidente da Direção Nacional da ANJE desde janeiro de 2017, tendo já integrado a Direção Nacional precedente (entre 2013 e 2017). É chairman e CEO da ASM Industries, sub-holding do grupo A. Silva Matos, criada precisamente... Ler Mais