Os desafios do «Portugal interior» são de natureza diversa, complexa e, embora o seu debate no País decorra há décadas, ainda hoje se mantém atual e pertinente. As assimetrias regionais têm persistido – ou até acentuado – ao longo dos anos.

Em todo o caso, a realidade evidencia que os territórios do interior estão hoje mais acessíveis e mais infraestruturados. Hoje já não temos de percorrer as curvas e os tempos de percurso (longos) que éramos obrigados a cumprir, para chegar a concelhos de um interior mais profundo ou para chegar a Lisboa ou ao Porto, vindo desses mesmos concelhos. Há também outra oferta de infraestruturas e de equipamentos coletivos (há quem questione, em alguns casos, por excesso). As sedes de concelho do interior têm outra atratividade, decorrente da regeneração urbana e da qualificação dos seus centros históricos. As aldeias e os centros rurais têm vindo a ser valorizados, em grande medida pelo trabalho meritório que tem vindo a ser realizado pelas Associações de Desenvolvimento Local. O Turismo em Espaço Rural e de Natureza é real em todo o interior do país, com ofertas diversificadas que combinam autenticidade com modernidade. Contudo, o certo é que existem indicadores de especial preocupação.

Considero que o principal desafio com que o Interior hoje se confronta, é social. É de pessoas – ou da sua ausência. Estamos a falar de territórios que têm vindo a perder – continuadamente – gente ao longo das últimas décadas.

Neste cenário, não é no hardware, mas no software que importa investir, para desenvolver o interior. É no gerar oportunidades de negócio, para fixar e captar jovens, e reforçar de competências, que pode estar o ponto de inflexão para a atratividade e competitividade do interior.

Neste âmbito, o turismo emerge, entre outras atividades, como uma área-chave que pode criar oportunidades e contribuir para o desenvolvimento do interior. Cerca de 73% da procura turística do país situa-se em 3 regiões – Lisboa, Algarve e Madeira – ou, noutra perspetiva, cerca de 90% da procura turística do continente encontra-se no litoral. Significa, portanto, que também no turismo importa atenuar as assimetrias regionais. Mas tal não significa – até porque não é possível – tirar turistas de uma região para outra. É a procura que decide para onde quer ir. Assim, destinos âncora do turismo nacional – como Lisboa, Porto, Algarve e Funchal – enquanto flagships do turismo português, assumem também um papel essencial na atração de fluxos turísticos para o interior. Por outro lado, tendo em conta que o interior possui um inequívoco “património turístico”, importa estruturar a sua oferta turística e comunicá-la de forma mais eficaz.

Agora que os países (com exceções) diluem as suas fronteiras e as comunidades se cruzam em aeroportos e portos, o património é o que fica. Mesmo quando o avião e a internet metem tudo num só mundo, os universos específicos estão presos aos seus lugares, impossíveis de importar, de exportar, de replicar. Os territórios do interior possuem unicidade, recursos inimitáveis e uma oferta de património excecional. É sobre esse património que importa gerar oportunidades e valor económico, assegurando a sua sustentabilidade.

A Estratégia para o Turismo 2027 – ET 27 [documento de discussão pública]identifica a coesão territorial como um dos 10 desafios para o turismo nos próximos 10 anos. Identifica eixos estratégicos e linhas de atuação que visam também concorrer para o desenvolvimento turístico do interior.

Contudo, sem prejuízo dos documentos globais estratégicos e dos objetivos de longo prazo que permitem orientar as mudanças estruturais que é necessário obter – como é o caso da coesão territorial –, é preciso também dinamizar projetos e ações no imediato, por forma a obter resultados tangíveis no curto prazo e, deste modo, conservar e captar para os territórios agentes, capazes de levar a cabo as alterações estruturais que têm de ser feitas.

A linha de apoio à valorização turística do interior, promovida pelo Turismo de Portugal, visa precisamente agir no presente, mas com alcance de longo prazo. Este instrumento com uma dotação de 10 milhões de euros, cuja apresentação de candidaturas decorre em contínuo até ao final deste ano, destina-se a apoiar projetos que concorram para o desenvolvimento turístico do interior. Vale a pena investir no interior, um interior que vale por si!

Comentários

Sobre o autor

Nuno Fazenda

Nuno Fazenda é doutorado pelo Instituto Superior Técnico em Planeamento Regional e Urbano (área do Turismo), Mestre pela Universidade de Aveiro em Gestão e Políticas Ambientais e Licenciado em Turismo pela Universidade do Algarve, tendo desenvolvido o 2º ano na University of Wales Cardiff. Com vários anos de experiência profissional na área do turismo (no sector público e privado) foi na CCDRN o Perito-Coordenador responsável pela Agenda Regional de Turismo... Ler Mais