Uma analogia figurativa entre o importante papel dos empreendedores e o contributo regenerador das crianças para o nosso mundo.”

Quando em 2013 me mudei de Portugal para o Brasil, tinha consciência que eu e a minha esposa seríamos os alicerces da desafiante adaptação familiar a todo um novo contexto de vida, à distância de 8 mil kms daquela que foi durante quase quatro décadas a nossa “zona de conforto”.

Fomos efetivamente esses alicerces, como não podia deixar de ser, mas devo admitir que fui surpreendido pela importância que os nossos dois filhos, de apenas oito e quatro anos na altura, tiveram no suporte e sustentação desses alicerces, cuja resiliência foi, em determinados momentos, colocada à prova.

A confiança, coragem, abertura de espírito e atitude positiva com que eles aceitaram e enfrentaram tantas e tão profundas mudanças nas suas ainda tão jovens vidas, longe da restante família e amigos de infância, assim como do país, cidade e casa que os viu nascer e crescer desde o berço, foi uma importante lição de vida e uma verdadeira fonte de inspiração para nós, seus Pais.

Este não é, porém, um texto sobre os meus filhos, muito menos sobre a minha mudança para o Brasil, mas antes uma visão, quiçá romântica, sobre o contributo regenerador das crianças para o nosso mundo, traçando um paralelo com o importante papel dos empreendedores, pela forma como pensam, promovem a mudança, criam disrupções, assumem riscos, enfrentam adversidades ou, não raras vezes, impactam positivamente as nossas vidas.

As crianças têm na sua genuinidade, simplicidade, inocência, espírito curioso e aventureiro (ausência do famoso “medo de errar”) e mente aberta e “despoluída” de conceitos e normas sociais “poluídas”, a sua maior força e capacidade de influência sobre o que gira à sua volta, vendo quase sempre o “copo meio cheio”, o que contrasta, infelizmente, com uma visão e postura tantas vezes contrária da parte dos adultos.

À medida que crescemos vamos ficando mais condicionados e expostos a essa “poluição” social, em função de um conjunto de fatores mais ou menos complexos, e por vezes dou comigo a imaginar o que seria se fossemos todos (mais) capazes de preservar o melhor que as crianças trazem ao mundo, ou seja, se tivéssemos a capacidade de não deixarmos “poluir” o que de mais puro, simples e genuíno trazemos connosco à nascença.

Vivemos tempos tão fascinantes quanto incertos, em que se tende a passar do 8 ao 80 num simples piscar de olhos – muitas vezes sem nos darmos conta que é precisamente no meio que está a virtude –, em que o imediatismo ou a satisfação de necessidades de curto prazo passou a ser regra, como se tudo na vida tivesse de ser tão rápido e simples como o download de uma música ou aplicação numa qualquer webstore, e em que tudo parece mudar a uma velocidade estonteante, em que o que hoje é verdade, moderno ou interessante, amanhã pode ser mentira, estar ultrapassado ou fora de moda ou tornar-se insignificante.

Estes são também tempos de esperança num futuro mais próspero e sustentável para a humanidade, necessariamente com uma menor desigualdade e uma maior justiça social, onde cada ser humano possa viver condignamente, mas são tempos igualmente instáveis, com fricções políticas, étnicas e culturais e crises económicas e sociais cada vez mais visíveis (e recorrentes, digo eu) em muitas regiões do planeta.

Cada criança que vem ao mundo, independentemente da sua condição económica e social, deve ser recebida e percebida como um novo fôlego ou uma lufada de ar fresco, naturalmente “despoluída”, que nós adultos precisamos de respirar e preservar. Obviamente que o ponto de partida está longe de ser o ideal, dadas as condições inaceitáveis em que tanta gente, crianças e adultos, vive (ou sobrevive!), mas também por conta da “poluição” social com que temos de conviver, mas isso não deve travar, de forma alguma, a evolução progressiva de mentalidades que o mundo tanto carece.

Precisamos, pois, de criar as condições adequadas para que cada criança que vem ao mundo possa trilhar o seu caminho da forma mais “despoluída” possível, através do acesso, tão abrangente quanto possível, a sistemas de educação, de formação cultural e de proteção social de qualidade, pela transmissão continuada de valores e princípios morais e éticos, e principalmente na partilha do afeto, carinho e respeito que qualquer criança merece.

Traçando o paralelo com as tantas pessoas que têm a iniciativa de empreender, também o seu papel deve ser valorizado, pela “lufada de ar fresco” que normalmente trazem consigo e pela coragem que manifestam ao sair da sua “zona de conforto” ou em pensar “fora da caixa”, contribuindo, não raras vezes, para a conceção de novos e mais sustentáveis (para a humanidade) paradigmas económicos e sociais.

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Sobre o autor

Tiago Rodrigues

Tiago Rodrigues conta com mais de dez anos em funções executivas e de gestão em empresas de energia, infraestrutura, turismo e imobiliário e oito anos como consultor, tendo experiência de vida, profissional e académica em Portugal, Brasil, Reino Unido e... Ler Mais