Crescimento da população mundial, aquecimento global, aumento da classe média e migração para as zonas urbanas. Como algumas start-ups estão a responder a estas crises através do desenvolvimento de novas formas de produção alimentar.

Os dados divulgados internacionalmente apontam para que, em 2050, a população mundial aumente para 9.6 mil milhões de pessoas – um crescimento de perto de dois mil milhões de pessoas. Por outro lado, se atualmente 55% da população vive em zonas urbanas, as Nações Unidas preveem que, em 2030, esta percentagem aumente para 60%. Fatores como estes levam a que a produção alimentar tenha de aumentar em 61%.

Os principais “culpados” são os mercados emergentes, como a China. É aqui, no território com maior população a nível mundial, que o consumo de carne é mais elevado. O crescimento da classe média vai conduzir a uma maior procura por proteína, o que se traduz num aumento anual entre 3% e 4%.

Atualmente, 30% das calorias consumidas pelos humanos vem de produtos de carne. Números da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura relativos a 2017 indicam que, nesse ano, foram mortos quase 1,5 mil milhões de porcos, 545 milhões de ovelhas, 444 milhões de cabras e 300 milhões de cabeças de gado.

As fontes alternativas de proteína têm o potencial não só de alimentar uma população em crescimento, como também de reduzir o impacto ambiental dos métodos atuais. A par disto isto temos a crescente tendência dos consumidores que, cada vez mais, tentam encontrar alternativas alimentares mais amigas do planeta e que, na maioria dos casos, não contenham carne animal. Um estudo da norte-americana GrubHub identificou um crescimento de 19% nas encomendas de comida vegan em 2017.

Os desafios acima descritos impõem a pergunta: como vamos alimentar um mundo em constante crescimento, ao mesmo tempo que salvaguardamos o futuro das próximas gerações?

Mas onde há desafios há também oportunidades de negócio. E quem melhor que os empreendedores para solucionarem problemas num mercado avaliado em 90 mil milhões de dólares (≈80mM€)?

As  start-ups estão a entrar, cada vez mais, na cadeia de produção da indústria da carne, que é dominada por gigantes como as norte-americanas Hormel e Tyson Foods e pela brasileira JBS – o resultado da soma da capitalização de mercado destas três multinacionais excede os 45 mil milhões de euros.

Apesar do potencial que estes novos negócios apresentam na melhoria do meio ambiente, quando colocados frente-a-frente, os novos métodos de produção apresentam um custo de produção dez vezes mais elevado: enquanto que a produção de um quilo de carne custa perto de dois euros com os processos convencionais, em laboratório o preço aumenta para perto de 23,5 euros. No entanto, para criar esta quantidade de carne, o primeiro método utiliza cerca de 15 mil litros de água e o novo cerca de 2.700.

Start-ups conduzem à mudança

Nos últimos anos começaram a surgir start-ups de todo o mundo dispostas a encontrar alternativas à carne e diminuir o custo de produção. Uma delas é a Impossible Foods, um negócio que se distingue por criar um hambúrguer idêntico ao de carne – que até sangra -, mas feito à base de hemoglobina de soja, uma proteína que contém hemo (a mesma molécula que transporta oxigénio no nosso sangue e que o torna vermelho). A equipa já recebeu perto de 390 milhões de dólares (≈347M€) em investimento, segundo dados da Crunchbase. Um dos investidores é Bill Gates.

Uma análise da CB Insights sobre este tema sugere que a empresa está a posicionar-se em duas frentes: tanto no mercado vegetariano e vegan, que ganha novas opções, como também no mercado dos consumidores de carne, que passam a consumir “carne” amiga do ambiente sem terem de comprometer o sabor de um hambúrguer tradicional.

A última ronda foi fechada há exatamente um ano – capital que está a ser utilizado para aumentar a produção e os canais de distribuição da organização, que, atualmente,está presente em algumas cadeias de hamburguerias.

A juntar-se à entrada da Impossible Foods num novo segmento de mercado que promete agradar a “gregos e a troianos” está a Beyond Meat, outra empresa que está a criar produtos à base de plantas que imitam hambúrgueres, bifes e carnes brancas. Para além disso, está a desenvolver um produto que se assemelha à carne de porco. Números da Crunchbase indicam que esta start-up já recebeu 122 milhões de dólares (≈108.6M€).

Já a Memphis Meats encontra-se noutro polo. Esta start-up norte-americana produz carne animal através de células que se reproduzem autonomamente, o que se traduz no desenvolvimento de um produto de base animal, mas que anula a necessidade de procriação, crescimento e matança de milhões de animais.

À data, a equipa já lançou para o mercado almôndegas e carne de pato e de galinha. De acordo com a CB Insights, atualmente a Memphis Meats está a tentar diminuir o custo de produção para poder competir com a carne das grandes produtoras, algo que têm consigo fazer com distinção: no início a equipa tinha de gastar perto de 39.500 dólares (≈35.100€) para produzir um quilo de carne. Em janeiro de 2018, esse número caiu para os 5.280 dólares (≈4.700€).

Das três produtoras, esta é a que recebeu menos capital para desenvolver o negócio – cerca de 20,1 milhões de dólares (≈17.9M€).

 

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Food production will need to increase 70% by 2050. We’re up for the challenge.

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Enquanto que alguns empreendedores estão a tentar avançar para o mercado ao estilo de Silicon Valley, tentando ser a primeira marca que os consumidores conhecem e consomem, outros, como o japonês Yuki Hanyu, têm uma visão diferente. O fundador da Integriculture e da Shojinmeat Project, uma organização sem fins lucrativos, está a apostar no futuro sem carne através da disponibilização de tecnologia em open-source.

Ou seja, o filantropo está a dar caixas com tecnologia de ponta a estudantes do secundário, de forma a que estes desenvolvam as suas próprias células animais em casa. Apesar de futurista, o conceito baseia-se na premissa de que as pessoas vão testar a tecnologia e encontrar novas formas de produzir a carne e de, em última instância, a integrarem na sua dieta.

Gigantes entram na corrida

A par destas novas soluções, também as multinacionais começaram a apostar na área através dos seus departamentos de investigação e desenvolvimento e do investimento em projetos promissores.

Exemplos disto são a Cargill, que opera no mercado alimentar a produzir e processar alimentos e que é uma das investidoras da Memphis Meats; a Nestlé, que detém insígnias que operam na área dos congelados e que adquiriu a marca vegan Sweet Earth em setembro de 2017; e a Tyson Foods, que é uma das maiores multinacionais de produção de carne e que já participou em duas rondas de investimento da Beyond Meat.

Paralelamente a estes investimentos começam também a surgir aceleradoras, como a IndieBio, destinadas a apoiar as start-ups que propõem soluções nesta área, bem como fundos de capital de risco, como é o caso da New Crop Capital.

Os desafios atuais

Apesar destes projetos apresentarem soluções para problemas reais, são vários os desafios que ainda têm de enfrentar, como os indicados pelos analistas da CB Insights:

– Carne “falsa” não é apetecível: da mesma forma que a carne não é um alimento apetecível para os vegetarianos/vegans, a carne criada em laboratório pode ser estranha para os consumidores comuns. O desafio será tornar estes substitutos mais apelativos a uma escala global.

– A carne criada em laboratório é cara: o custo de produção continua a ser um entrave para tornar este tipo de produtos em competidores diretos com os grandes produtores. Parte do custo provem do facto de ser preciso soro fetal bovino para desenvolver a carne em laboratório. Contudo, os investigadores estão a tentar descobrir novas formas de produção que não incluam esta componente.

– Escalabilidade: outro problema destacado pela CB Insights é a possível dificuldade que estas empresas terão para escalar o produto de forma a torná-lo mainstream.

– Serão os produtos sem carne melhores para o ambiente?: Apesar da diminuição na emissão de gases, do consumo de água e do terreno gasto com os animais, os laboratórios também consomem eletricidade e outros recursos.

– Desemprego: Nos Estados Unidos, a produção de carne é o maior empregador no setor alimentar. Na perspetiva dos analistas da CB Insights, a automatização dos processos neste setor pode levar ao fim de milhares de empregos.

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