A Indico Partners, gerida pelo antigo executivo da Caixa Capital, Stephan Morais, lançou o maior fundo privado e independente português de 46 milhões de euros. Em apenas dois meses anunciaram dois investimentos, uma na Sound Particules, outro na BitCliq. No final da semana passada revelaram a entrada na start-up Attentive.

A Indico Capital Partners – uma sociedade de capital de risco nascida em 2017 e que é gerida por Stephan Morais, Cristina Fonseca e Ricardo Torgal – lançou o seu primeiro fundo de investimento em janeiro de 2019. O Indico Capital Partners VC I tem uma dotação de 46 milhões de euros, sendo que 20 milhões vêm de um fundo investimento europeu e o remanescente tem origem em diversos investidores de oito países.

Stephan Morais, Managing General Partner da Indico (e antigo administrador executivo da Caixa Capital), em entrevista ao Link To Leaders não esconde que a criação deste fundo tem como objetivo encontrar, investir e apoiar as empresas tecnológicas em Portugal e Espanha que ainda estão a dar os primeiros passos e torná-las líderes mundiais. E revela que até já foram contactados pela igreja de Inglaterra.

 

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Como surgiu a ideia de avançar com este fundo?
A base de todos os ecossistemas profissionais em termos de start-ups, em termos de criação de valor e de inovação também é feita com a existência fundos independentes e privados institucionais, com uma dimensão mínima que permita dar o apoio financeiro e operacional às empresas participadas. Em Portugal não existia um fundo desta natureza, pelo menos não dedicado à empresas digitais, ao software, e que tenha o seu foco em preparar as empresas early stage. Ou seja, nos primeiros anos de vida, pre-seed à série A, os primeiros milhões de investimento que permitam às empresas dar o salto para outros investidores internacionais que possam entrar da série A para cima. Portanto, aquilo que chamamos de Champions League das start-ups. Faltava em Portugal um fundo privado, independente, de uma dimensão mínima que pudesse dar esse apoio.

Ao Stephan juntou-se o Ricardo Torgal e a Cristina Fonseca. Como tudo aconteceu?
O Ricardo era uma pessoa que trabalhava comigo há muitos anos, um grande profissional com muitos anos de investimento em private equity e em venture capital. Uma pessoa muito complementar a mim. E o que é importante nestas equipas é ter complementaridade, além de ter confiança e um bom ambiente de trabalho. Divertimo-nos muito os três. O Ricardo foi uma escolha natural para me acompanhar e a Cristina é uma pessoa que conheço há muitos anos. É uma grande empreendedora. Talvez a maior empreendedora portuguesa, uma pessoa de uma grande inteligência, de uma grande humildade e com uma capacidade de trabalho fenomenal.

(…) muitas das oportunidades que vêm ter connosco não estão adequadas ao nosso estilo de investimento, não vão ao encontro dos guidelines de venture capital (…)

Em dois meses de atividade anunciaram dois investimentos, um na Sound Particules, outro na Bitcliq, e na última semana mais um… 
Sim. Já investimos na Sound Particules que é um software de som a três dimensões que permite aos grandes estúdios de Hollywood fazerem aquelas batalhas complexas, cheias de sons, de uma forma mais simples. Mas é um software que também ainda está a dar os primeiros passos noutras áreas, nomeadamente, na área de game, virtual reality, música e por aí fora. Portanto, é um investimento early stage. Depois investimos também na Bit Cliq que é um markteplace que usa blockchain para fazer o encontro entre vendedores (os barcos e as frotas pesqueiras), e os compradores, leia-se os restaurantes, as cadeias de supermercado e por aí fora. Os compradores podem comprar imediatamente o peixe após este ser apanhado em alto mar. É registado em blockchain e depois é descarregado. É uma parceria com a Docapesca que também está a agora a começar, mas já se venderam alguns peixes com tecnologia blockchain. Estamos a dar os primeiros passos.

Agora esta terceira empresa é a Attentive, uma empresa ex-Techstars, com fundadores da Google. É um investimento que foi feito em conjunto com a Mangrove Capital Partners, um dos grandes do Luxemburgo (e que foram um dos primeiros investidores no Skype). Basicamente, é uma empresa que visa melhorar tudo o que é a relação das equipas de vendas com o seu software de vendas. Este software da Attentive é, digamos, um ajudante virtual que também recorre a inteligência artificial para ajudar os vendedores a preencherem dados e depois ajudar os supervisores das vendas a gerirem melhor as suas equipas de vendas. O software aumenta grandemente a sua produtividade e, portanto, isto é uma ronda de mais de um milhão de euros, feita já à escala internacional. É um prazer apoiar a Attentive também.

A verdade é que vimos mais de 800 empresas num ano e meio de atividade. Oficialmente, o fundo arrancou há cerca de um ano e meio, mas estes primeiros investimentos são o resultado de uma análise profunda destas 800 oportunidades. Investimos entre 0,5 a 1% das empresas que vemos, o que é um rácio normal nos fundos desta área, e o que significa que é muito difícil ser investido por uma venture capital profissional.

“Hão-de ser de ser quatro, cinco ou seis investimentos por ano, mais ou menos. Porque os investimentos fazem-se nos primeiros cinco anos (…)”

E vão continuar a este ritmo?
Não podemos, porque senão esgotávamos os investimentos num ano. Mas também temos de ver que isto já é o resultado do trabalho de um ano. Já tínhamos começado antes. Claro que agora estamos a concretizar e a anunciar. Hão-de ser de ser quatro, cinco ou seis investimentos por ano, mais ou menos. Porque os investimentos fazem-se nos primeiros cinco anos, em particular nos primeiros três. Vamos ter 20 a 25 investimentos…é fazer as contas.

Quais os maiores desafios que encontraram no caminho para a criação deste fundo?
As maiores dificuldades têm a ver com Portugal e a classe de ativos em específico. É um desafio em si próprio atrair investimento internacional para Portugal, em geral. Apesar de agora estarmos muito na moda, e ainda bem – estamos com um setor imobiliário em grande pujança, o setor exportador também está a dar boas mostras de investimento, capacidade de investimento e atração de grandes marcas internacionais para o país –, não deixa de ser difícil atrair investimento internacional para Portugal, se virmos à escala global.

Alia-se a isto uma classe de ativos ainda pouco reconhecida tanto em Portugal, como também no estrangeiro. Ou seja, os investidores institucionais, individuais e até privados quando olham para a classe de ativos onde vão investir o seu capital têm muita escolha. Podem investir em obrigações, ações, fundos…, fundos de imobiliário, fundos de commodities, em private equity … portanto, têm os seus canais internacionais onde canalizam o seu capital. Tradicionalmente, o Venture Capital é uma classe de ativos pequena à escala mundial – apesar de ser uma classe profissional – e o investimento em venture capital concentrou-se em Silicon Valley e, nos últimos 10, 15 anos, noutros países, nomeadamente, em Inglaterra, nos países nórdicos, na Alemanha, Brasil, China, Índia.

Por isso, convencer os investidores internacionais a investir, número um, em Portugal, número dois, numa classe de ativos que para eles é pequena na sua carteira de ativos, é um desafio muito grande e isso só se consegue com um track record único em Portugal, o de ter investido na vasta maioria de todas as empresas que tiveram sucesso na última década, e também com a reputação que Portugal foi criando de ser um centro tecnológico em ascensão, que está a crescer, e onde há histórias de sucesso, ou que tiveram algo a ver com Portugal, como a Farfetch, a Talkdesk, a Feedzai e a OutSystems.

Já para não falar da existência de eventos como o Web Summit que também credibilizam o país. Mas quando  falamos com investidores internacionais estamos a falar de números e o que eles realmente querem saber é se a equipa com quem estão a falar tem o track record e a experiência para poder replicar os bons resultados que teve no passado e se há mercado suficiente para se poder aplicar uma quantidade de capital que seja significativa para se poder justificar a existência de um fundo.

Estas são as grandes dificuldades: convencer os investidores institucionais e internacionais sobre os méritos em termos de resultados do que foi feito e, muitas vezes, acaba por ser mais difícil convencer os portugueses porque os investidores portugueses olham ainda menos à questão técnica e olham mais às classes de ativos que conhecem.

“Teoricamente, venture capital é uma classe de ativos apropriada para digital ou para a digitalização de ativos físicos”.

A Indico foca-se essencialmente em blockchain, inteligência artificial, IoT, fintech, cibersegurança… Porquê apenas tecnológicas?
Porque é uma questão matemática e legal também. Os fundos têm uma duração de vida de 10 anos, ou seja, temos de investir em empresas que num prazo de 10 anos venham a ser vendidas ou que entrem em Bolsa por muitas centenas de milhões euros, ou dólares, ou que façam um IPO em Bolsa. O tipo de empresas que num prazo de 10 anos consegue fazer este caminho, ou passar do zero até às centenas de milhões de euros de valorização, ou milhares de milhões (os chamados unicórnios), são tipicamente empresas digitais que têm menos componente física e mais componente digital.

É muito difícil no mundo real criar empresas que venham a ter crescimentos exponenciais tão grandes como as do mundo digital. Teoricamente, venture capital é uma classe de ativos apropriada para digital ou para a digitalização de ativos físicos. Tem de haver uma componente para as empresas poderem crescer mais rapidamente. E mais uma vez voltamos à questão estatística e matemática: e porque é que têm de ser empresas que valham esses milhões todos e os unicórnios? A história demonstra que na vasta maioria das novas empresas, sejam cabeleireiros, cafés ou start-ups, a probabilidade de falharem é muito alta. Porque é natural, porque é a lei da vida que mostra que as coisas novas não resultam bem por muito esforço que se ponha nesses mesmos empreendimentos. As que resultam bem dentro dessa categoria pequena que foi selecionada têm de compensar todas as outras e são aquelas que crescem muitíssimo, que têm valorizações altíssimas. Para que tenhamos um valor relevante, uma percentagem que mexa o ponteiro do relógio, então essas empresas têm de ser vendidas por centenas de milhões. Daí que as empresas que resultem têm de ser empresas que crescem muito e estas são as digitais.

“(…) as duas grandes áreas promissoras em Portugal são software para empresas e plataformas digitais de compra e venda (…)”

Neste conjunto de áreas que referimos, qual perspetiva que seja a vossa grande aposta de futuro?
A verdade é que Portugal já tem um track record essencialmente em SaaS B2B , ou seja, em software de serviço para empresas. Também tem um track record, e a Farfetch é disso exemplo, em marketplace, ou seja, mercados digitais que fazem casar compradores e vendedores. Portanto, as duas grandes áreas promissoras em Portugal são software para empresas e plataformas digitais de compra e venda. Também vemos em Portugal algum fintech, embora não muito, a Feedzai é um excelente exemplo – pode haver outros casos, mas são mais residuais -, o blockchain em que acabámos de investir, mas também não vemos uma enorme quantidade em blockchain. O mesmo se passa com cibersegurança. Há empresas fortes nesta área, mas eu não diria que Portugal é forte em cibersegurança ou em fintech ou em robótica.

Portanto, nós temos recursos humanos licenciados, mestrados, doutorados que são muito bons em áreas mais de software puro e é aí que entra a inteligência artificial. É uma área em que temos potencial e que está ligada ao tratamento de dados, inteligência artificial e machine learning, e estas sim, vão revolucionar a forma como trabalhamos.

Se nos Estados Unidos e na China é fácil encontrar investidores para fundos que investem em start-ups, em Portugal o cenário é diferente. O que é preciso fazer para mudar este panorama?
Isto não é um problema de Portugal, mas da Europa, onde há uma falta de capacidade para investir nesta classe de ativos. Tem a ver com várias questões. Muitas vezes os investidores internacionais europeus não investem nesta classe de ativos porque não podem – há grandes fundos que estão restritos e só podem fazer a classes de ativos mais simples (obrigações, ações)  –, e também por uma questão de tradição – não há tradição de fazer classes de ativos mais complexas e também não querem começar porque não têm expertise interna, não querem dar um passo em falso.

Por outro lado, há também uma questão de estrutura de mercados de capitais, ou seja, nos EUA, em particular, temos grandes fundos de pensões. O sistema capitalista norte-americano funciona neste aspeto. Ou seja, os grandes donos das empresas nos EUA são os fundos de pensões dos professores, dos enfermeiros, dos bombeiros, estes são os grandes detentores de capital e que mandam, em termos acionistas, nas empresas. Ora na Europa temos um estado social, com todas as suas vantagens, mas o que muitas vezes faz com que não haja fundos de pensões privados. As próprias universidades estão dependentes do Estado e, portanto, esse dinheiro não é canalizado para o mercado de capitais. E o mercado europeu de capitais não tem a profundidade de tipos de ativos, não há tanto dinheiro a rolar no sistema financeiro europeu. Porque temos uma estrutura social diferente. Seja como for, há menos capital disponível e mais aversão ao risco.

“Mas o problema é que poucas podem vir a ser o Ronaldo e isso é uma consciência que as empresas têm de ter. O foco em levantar rondas de capital é importante, mas o foco mais importante para todas é ter clientes e ganhar dinheiro”.

Muitas vezes, angariar investimento é visto como fator de sucesso para uma start-up. É uma ideia errada? Não pode ser um risco para as start-ups dependerem tanto disso e estarem tão focadas em conseguir investimento?
Não há dúvida de que a parte mais importante da vida de uma start-up é criar um produto e vendê-lo. E nós quando olhamos para uma empresa o que queremos saber, tal como os nossos investidores querem saber de nós, é quais são os resultados, quais as métricas, o que é que eles já conseguiram fazer em termos de produto e de clientes. Isso é o mais importante. Portanto, a nós não nos impressiona nada sair em jornais, ganhar concursos. Isso tem um efeito praticamente nulo na nossa decisão.

Para as start-ups, o processo de angariação de capital é muito importante, mas depende da start-up. O que acontece muitas vezes é que as start-ups deviam estar a focar-se no seu produto e a ganhar dinheiro, até porque às vezes não são do tipo VC e não sabem. Acham que podem levantar dinheiro e tornar-se VC e não é assim. O negócio ou é tipo escalável globalmente, e o melhor do mundo potencialmente, ou não é. E se não for têm de se preocupar é em ganhar dinheiro desde do dia número 1. Ou então angariar um empréstimo, mas dificilmente têm um empréstimo se não têm resultados. Portanto, acho que tem de haver uma consciência das empresas – start-ups ou não start-ups – para saber onde se posicionam. Não pode ser seguramente por vaidade dizer que tiveram uma ronda de investimento e que são avaliadas em não sei quantos milhões, que se devem focar nisso.

O foco é ter clientes, ter produto e ganhar dinheiro. Isso sim, é o foco. Se forem do estilo de virem a ser o Ronaldo da sua área, então o foco tem de ser, provavelmente, falar com pessoas como nós, angariar rondas de capital para virem a ser um dia o tal “Ronaldo”. Mas o problema é que poucas podem vir a ser o Ronaldo e isso é uma consciência que as empresas têm de ter. O foco em levantar rondas de capital é importante, mas o foco mais importante para todas é ter clientes e ganhar dinheiro.

O que pode levar uma start-up que tem um investimento de um fundo a, mesmo assim, não conseguir sobreviver?
Tantas razões. A primeira razão é porque o produto afinal falhou o seu propósito. Isso acontece com muita frequência. O produto não entrega, em particular nas fase iniciais em que ainda está a ser construído. Muitas vezes, mesmo quando nós investimos, mesmo quando já há clientes, na realidade do que estamos a falar é de um produto que é um MVP, que é uma versão inicial, que ainda vai ter muitas evoluções. E às vezes o produto não chega a cumprir os objetivos do cliente e as pessoas não compram. Acabou.
O mercado decide que aquilo não tem viabilidade e as empresas quando falham as métricas com os investidores profissionais, os investidores dizem: “O melhor é parar já em vez de continuarmos a investir, porque se o mercado não está a pegar e se já fizemos tudo o que achávamos possível para que o mercado comprasse, o melhor é parar e vamos todos fazer outras coisas para não estarmos a perder mais tempo e mais dinheiro”.

Depois há outras razões mais prosaicas. As equipas às vezes chateiam-se, os fundadores às vezes começam muito bem e a seguir já não estão bem… e as equipas acabam por se desligar umas das outras. E isso é também uma das grandes razões também para o falhanço das empresas.

Depois, muito frequentemente, também a relação com os investidores. Se estes não são os investidores certos, as coisas correm mal. Ou porque o investidor não deu o apoio suficiente, ou porque a relação com os fundadores não correu bem por alguma razão, ou porque houve alguma coisa que correu mal com os clientes e estes boicotaram a empresa de alguma maneira. Também há casos de má gestão em que as pessoas perdem a cabeça por acharem que têm uma empresa que vale milhões e fazem coisas que não devem. Há de tudo.

“Se o Brexit vier a acontecer, e se acontecer de uma forma desordenada, é um desastre potencial para toda a gente, para a Europa e para o Reino Unido (…)”

Esteve alguns anos em Londres, o que lhe deu certamente algum conhecimento do mercado. O que pensa sobre o Brexit? Que consequências pode trazer às empresas?
Em primeiro lugar, acho que o Brexit é um erro lamentável para toda a gente envolvida. Foi uma decisão arriscada que o primeiro-ministro Cameron tomou na altura, a de fazer um referendo, e o resultado foi o que foi. Se o Brexit vier a acontecer, e se acontecer de uma forma desordenada, é um desastre potencial para toda a gente, para a Europa e para o Reino Unido, numa primeira fase. Penso que os primeiros anos pós-Brexit, sobretudo se for desorganizado, serão particularmente graves para o Reino Unido, o que é lamentável porque é uma das economias mais fortes do mundo e um grande parceiro da União Europeia. E era desnecessário que tudo isto acontecesse.

Em todo o caso, a  minha visão particular em relação ao Brexit é que, a longo prazo, os problemas são maiores ainda para a Europa porque a perda do elemento anglo-saxónico dentro da família europeia é a perda de um ideal liberal, de um ideal de economia de mercado livre, que com todos os problemas que isso também acarreta e com todas as objeções que o Reino Unido tinha dentro da União Europeia, tinha também uma influência muito positiva ao nível do pensamento económico. Ao nível de equilibrar o eixo do centro da Europa e, portanto, era uma boa ajuda para termos uma visão mais alargada e mais liberal do mundo.

Estou convencido de que no Reino Unido no espaço de 5 a 10 anos, se não for antes, as coisas equilibram-se. E sendo uma nação com uma tradição de comércio e de espírito livre e empreendedor de centenas de anos, seguramente que vão encontrar parceiros, além da própria Europa, e vão equilibrar a situação económica. Já para a Europa também nos havemos de equilibrar, mas perdemos essa essência. Portanto, acho que pode ser muito mau para o Reino Unido, a curto prazo, e pode ser bastante mau para a Europa a médio/longo prazo perder esse parceiro. Haverão oportunidades a curto prazo, seguramente, porque também haverá uma deslocação de empresas, que hoje em dia estão sediadas no Reino Unido e que virão para a Europa. Mas, mais uma vez, acho que não podemos ter a ilusão de substituir o poderio financeiro de um país como Inglaterra.

São realidades completamente diferentes e, são profundidades de conhecimento completamente diferentes. Posso dizer que, por exemplo, em breve teremos reuniões com mais investidores (porque continuamos a angariar capital para o fundo) e um dos investidores que entrou em contacto connosco recentemente foi a igreja de Inglaterra que investe em classes de ativos diversificadas, nomeadamente venture capital.

Aí se mostra a profundidade de conhecimento que esse tipo de países tem, em que as suas instituições mais conservadoras, e que menos se pensaria serem sofisticadas financeiramente, também olham para este tipo de matérias. Estamos a falar de diferenças muito, muito grandes. Haverá indústrias que continuaram em Inglaterra, seguramente, haverá efeitos de curto prazo, mas não prevejo que seja a longo prazo um gigante.

Agora que é tudo lamentável, é. E também a influência da política de curto prazo e das manobras políticas que tem havido em Inglaterra dos diferentes partidos que levam um país e um povo inteiro a uma situação desnecessária por guerras políticas internas. É lamentável e deve servir-nos de lição a todos.

Como carateriza os investidores do fundo?
Estamos a falar de um grupo que, desdobrado, são mais de 30 investidores porque alguns estão em conjunto. Vão desde desde investidores institucionais de fundos de pensões e de diversidades como o Instituto Superior Técnico, até gestoras de património como a Golden Assets, que é a maior gestora independente de patrimónios do país, investidores de venture capital como nós, mas numa escala maior como a Draper Esprit que decidiu investir num fundo como o nosso porque considera que quer ter um pézinho dentro do campeão nacional do país. E depois outros fundos de pensões, portugueses e estrangeiros, muitos investidores individuais e high network families, family offices, que vão desde o Paquistão ao México.

Alguns têm os seus próprios negócios, outros são pessoas que simplesmente têm grandes fortunas e que querem conhecer ou querem essencialmente saber como é que a tecnologia vai mudar o seu negócio, qual o impacto que isto vai ter na sua família, na sua riqueza acumulada, nos seus negócios futuros. Portanto, estar perto de uma equipa profissional de investimento permite-lhes (e porque nós damos um apoio muito grande aos nossos investidores), conhecerem e perceberem como é que o mundo se está a alterar com esta nova revolução industrial.

“(…) o caminho de Portugal é um caminho de inovação, é um caminho de acrescentar valor. Não é um caminho de baixos salários, não é um caminho de baixo valor acrescentado”.

De que forma o trabalho desenvolvido na Caixa Capital o está a ajudar este fundo?
Foi fundamental. Ou seja, na Caixa Capital tivemos realmente uma grande sorte em ter acompanhado o crescimento do ecossistema. A Caixa Capital foi uma das grandes bases do ecossistema na última década. Esteve por trás de quase todas as histórias de sucesso, das várias aceleradoras, das incubadoras, de todos os grandes eventos do país. E, portanto, tivemos a sorte de estar por dentro de tudo isso.

Mas também tivemos a sorte de ter na altura uma administração que percebia que era importante, e sucessivos Governos, enquanto lá estive, que realmente percebiam que o caminho de Portugal é um caminho de inovação, é um caminho de acrescentar valor. Não é um caminho de baixos salários, não é um caminho de baixo valor acrescentado. É um caminho que tem de ser de alto valor acrescentado. Isso também passa por investir em inovação e em start-ups.

É óbvio que as start-ups não vão mudar o país, no sentido em que são uma pequena percentagem do PIB, mas se virmos, de alguma forma, as grandes start-ups portuguesas, entre a Farfech, a Talkdesk, são se calhar tão grandes em termos de capitalização como as maiores empresas portuguesas que estão na Bolsa. Portanto, já não é assim tão óbvio. Claro que são poucas, mas tem de se construir uma base alargada e, realmente, o trabalho que foi feito na Caixa Capital, naqueles anos, foi muito importante para estabelecer as bases do que é hoje um ecossistema português mais maduro. E eu estou muito grato por ter feito parte dessa experiência.

“Temos é muitas vezes falta de confiança e falta de ambição. Portugal podia ter muito mais ambição, porque não estamos atrás de ninguém. É só preciso trabalho esforço de dedicação. Depois vem a glória”.

Depois do lançamento do fundo, que outros projetos podemos esperar do Stephan?
Bem, estou envolvido em muitas coisas, mas profissionalmente só nesta, em exclusividade praticamente total com os meus investidores. Em todo o caso, tenho a sorte de ser presidente do Harvard Clube, a sorte de estar no board do American Club e de fazer parte de mais algumas associações como a Dignity Portugal. Acho que é importante todos nós darmos algo de volta à sociedade.
Em termos profissionais, acho que temos mais do que suficiente para fazer nos próximos anos. Naturalmente, talvez a Indico venha a lançar mais fundos no futuro, mas agora estamos concentrados neste. É assim mesmo que tem de ser.

O que desejo é que tenhamos todos sorte com o ecossistema em Portugal e que possamos vir a ter muito mais Farfetchs e muito mais Cristinas Fonsecas que possam investir em inovação em Portugal. E também que isso tenha um efeito arrastador nas grandes empresas portuguesas, que passem a ser mais líderes em termos de inovação, porque é importante termos empresas – grandes, pequenas e médias – e que todas elas tenham um grau de inovação muito grande. Acho que o efeito de demonstração do Indico, e de outras pequenas empresas, também pode arrastar um sentimento de mais ambição em Portugal, que é o que muitas vezes falta.

Nós não temos falta de capacidade, não temos falta de competência, não estamos atrás de nenhum outro país. Sim, somos mais pequenos que outros países, mas também há outros países mais pequenos que o nosso que estão à nossa frente. Temos é muitas vezes falta de confiança e falta de ambição. Portugal podia ter muito mais ambição, porque não estamos atrás de ninguém. É só preciso trabalho, esforço e dedicação. Depois vem a glória.

Podemos esperar um novo fundo numa área totalmente oposta à da tecnologia?
Provavelmente não. Este tipo de fundos quando começa tem uma determinada linha e não podemos fazer outros fundos de outra natureza tão cedo. Isso faz parte da exclusividade, do alinhamento de interesses. Temos estado dedicados aos nossos investidores e a garantir que construímos um portefólio equilibrado e, para isso, temos de tratar das nossas empresas, estar muito perto das nossas participadas. E é isso que nos ocupa todo o tempo.

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