Nos últimos cinco anos tive oportunidade ensinar empreendedorismo a mais de duas mil pessoas, incluindo participantes nos programas de validação de ideias de negócio e criação de empresas realizados pela Fábrica de Startups e estudantes das cadeiras de empreendedorismo que leciono na Católica Lisbon School of Business and Economics.

Foram diversos os meus alunos, incluindo jovens adolescentes, estudantes universitários, adultos empregados, empreendedores a iniciar os seus projetos, pessoas desempregadas à procura de uma atividade, pessoas a trabalharem para outros mas com vontade de ter um negócio próprio, pessoas mais seniores e reformados interessados em continuar ativos e disponíveis para partilhar a sua experiência. Tive muitos alunos portugueses e outros de mais de 20 diferentes nacionalidades. Fiz diversas experiências e testei diferentes formas de ensino, aprendendo com cada aula e com cada aluno, procurando melhorar a abordagem e fornecer cada vez mais valor aos participantes. Deste percurso retirei algumas lições que aqui partilho.

Importância de ensinar empreendedorismo
Sendo o crescimento económico e o combate ao desemprego dos desafios mais importantes com que nos deparamos é para mim claro que temos de promover o empreendedorismo, que temos de ter mais e melhores empreendedores. São os empreendedores que criam as empresas e são as empresas que contribuem para o crescimento económico, pagam impostos e criam postos de trabalho.
No mundo em que a única constante é a mudança, em que muitas das grandes empresas que conhecíamos morreram ou estão a morrer, temos de ser capazes de criar novas empresas, mais inovadoras e melhor adaptadas às novas circunstâncias. As empresas não são criadas por decretos-lei, são criadas pela iniciativa das pessoas. Pessoas que, apesar dos riscos, avançam com novos projetos sabendo que vão enfrentar numerosos obstáculos. Criar uma empresa é uma tarefa difícil com resultado incerto. As estatísticas que conhecemos não são otimistas. São poucas as empresas que conseguem ter sucesso e uma em cada duas, ao fim de dois anos, acaba por morrer.

Felizmente hoje temos uma nova abordagem ao empreendedorismo. Uma abordagem que permite reduzir os riscos e descobrir quais as empresas que vale a pena criar antes de investirmos muito dinheiro, tempo e energia. Essa abordagem chamasse Lean Startup e consiste na aplicação simplificada do método científico ao processo de criação de empresas. Assenta na ideia de que primeiro precisamos de descobrir quem são os nossos clientes e só depois devemos criar um produto ou serviço. Começa com a identificação de um problema sério ou de uma necessidade importante para um conjunto de pessoas ou empresas, ou seja, um segmento de mercado.

Conhecendo o problema avançamos para a procura de soluções e escolhemos aquela que o segmento de mercado considera ser a mais valorizada. Definimos os diferentes componentes do negócio e fazemos um conjunto de experiências pequenas, rápidas e baratas, que nos permitem validar as hipóteses mais importantes que suportam a nossa ideia de negócio. Frequentemente, concluímos que algumas dessas hipóteses não são validadas pelo mercado e que necessitamos de alterar o modelo de negócio para aumentar a sua probabilidade de sucesso. Esta abordagem é diferente da abordagem tradicional uma vez que implica conhecermos melhor os nossos clientes e testarmos os pressupostos mais importantes do negócio antes de irmos para o mercado.
No passado era frequente alguém ter uma ideia de negócio, construir a empresa, adquirir os equipamentos, contratar pessoas e investir uma grande quantidade de dinheiro para mais tarde verificar que não existiam pessoas interessadas em adquirir o produto ou serviço fornecido pela nova empresa em quantidade suficiente para assegurar a sustentabilidade da mesma.

Novos métodos de ensino do empreendedorismo
Esta nova abordagem ao empreendedorismo implica uma nova forma de ensino. Um ensino baseado no “learning by doing” e no “learning by sharing“. A melhor forma que encontrei de explicar aos meus alunos como criar empresas de sucesso consiste na decomposição do processo empreendedor em diferentes etapas e na explicação dos principais conceitos, técnicas e ferramentas associadas a cada etapa. As aulas consistem, essencialmente, numa curta apresentação de cada conceito, na sua exemplificação, muitas vezes através de uma história real, da realização de um exercício prático e da partilha entre os alunos dos resultados obtidos. Tudo isto no contexto de uma ideia de negócio selecionada previamente por cada equipa de alunos.

Os conceitos a incluir nas aulas devem estar relacionados com as mais recentes e inovadoras práticas de mercado. Os alunos devem aprender a utilizar as ferramentas digitais, descobrir como tirar partido das redes sociais e experimentar as plataformas de publicidade digital. Recentemente, a Google lançou um programa que permite aos alunos, orientados por um professor, criarem e executarem campanhas de marketing, baseadas em AdWords, para empresas ou instituições de solidariedade social. Cada equipa de alunos recebe um vale de 250 euros para utilizar durante um mês numa campanha para uma empresa. Para além da oferta da Google, existem muitas outras ferramentas digitais disponíveis para utilização no decurso de um programa de ensino de empreendedorismo. Na minha experiência, o melhor é indicar aos alunos algumas das ferramentas que podem ser utilizadas na realização de cada tarefa e deixá-los escolher com quais vão fazer os exercícios.

Ensinar empreendedorismo, de acordo com a minha experiência, produz melhores resultados se os alunos trabalharem em grupo. Criar uma empresa de sucesso exige normalmente a existência de um conjunto de fundadores, com competências distintas mas complementares e uma visão comum. Ao trabalhar em grupo os alunos ficam melhor preparados para um dia avançarem com os seus projetos, descobrindo nas aulas a importância de um forte espírito de equipa e de uma adequada a distribuição das tarefas.

Um programa de ensino de empreendedorismo deve seguir uma abordagem muito semelhante ao que as pessoas teriam de fazer caso estivessem a criar um negócio fora da instituição de ensino. O programa deve assemelhar-se tanto quanto possível ao que o aluno terá de enfrentar caso decida ser um empreendedor, incluindo no que respeita à sequência de tarefas a realizar por cada grupo, interação com os diferentes intervenientes e utilização de ferramentas. O programa de ensino deve também permitir aos alunos descobrirem e ultrapassarem as dificuldades mais comuns enfrentadas por quem avança com o seu projeto empreendedor.

De forma semelhante à vida real, a avaliação do desempenho dos alunos deve contemplar a qualidade do trabalho realizado pelo grupo, a contribuição de cada membro da equipa para o seu sucesso, os resultados obtidos e as lições aprendidas.

Nos programas de ensino do empreendedorismo que oriento tenho por hábito começar cada sessão com uma apresentação de cada equipa sobre o que fizeram desde a última sessão, das dificuldades que enfrentaram, da forma como as ultrapassaram e do que aprenderem. Nestas ocasiões, as equipas podem também pedir ajuda aos outros participantes e obter recomendações. A ideia não é ter alunos a competir uns com os outros pela melhor nota mas sim a colaborarem no sentido de conseguirem avançar, realizarem as diversas tarefas e aprenderem o máximo possível.

Ideias para a promoção do empreendedorismo em Portugal
Para termos mais e melhores empreendedores em Portugal é fundamental que este tema seja abordado logo no início do percurso académico. O empreendedorismo não é uma panaceia, que tudo resolve, mas deve ser uma opção que as pessoas consideram quando planeiam o seu futuro profissional. O empreendedorismo não é apenas para alguns, deve sim estar ao alcance de todos que o desejarem prosseguir. Mas para isso é necessário democratizar o ensino do empreendedorismo, facilitando o acesso aos programas de empreendedorismo não só aos jovens mas também a pessoas de todas as idades que tenham interesse no tema.

Para além das escolas e das universidades é importante proporcionar às pessoas outras oportunidades para aprenderem sobre empreendedorismo. Já existem em Portugal diversas organizações dedicadas à realização de programas de aceleração de projetos empreendedores. A maioria destes programas segue uma abordagem baseada no Lean Startup, consistente com as ideias acima expostas. Contudo, tendem a ser programas para participantes jovens, normalmente em idade universitária ou pós-universitária. Precisamos de facilitar o acesso ao ensino do empreendedorismo a pessoas com mais idade e com mais experiência. Numa sociedade em que não existem mais empregos para sempre, começa a ser frequente uma mudança profissional a meio da vida.  Nessa altura é importante estar preparado para que o empreendedorismo seja uma opção de continuação de uma vida profissional ativa.

O ensino do empreendedorismo deve também abordar a possibilidade de uma pessoa ter um projeto empreendedor em paralelo a um emprego. Ser empreendedor não deve ser visto como uma alternativa a ter um emprego. É perfeitamente possível ser ambas as coisas e assim realizar um sonho sem sacrificar a segurança que muitos atribuem a um emprego.

São muitas as pessoas que gostavam de ser empreendedores, de ter o seu próprio negócio, mas que não o fazem porque não sabem como fazer ou porque têm receio de fracassar.

O risco de um projeto empreendedor é elevado. De acordo com as estatísticas, apenas um em cada dois projetos chega a celebrar o segundo aniversário. Hoje, contudo, através da abordagem do Lean Startup é possível aumentar a probabilidade de sucesso de um projeto empreendedor, nem que seja ao evitarmos avançar para o mercado com uma ideia de negócio fraca. Através da experimentação conseguimos entender melhor as necessidades dos clientes e avaliar a sua propensão para amanhã serem nossos clientes. Mas mesmo com o Lean Startup serão muitos os projetos sem sucesso e, por isso, é preciso também que o ensino do empreendedorismo prepare as pessoas para lidarem com o fracasso, transformando-o em lições bem aprendidas, valorizando o facto de termos tentado e de o voltarmos a fazer.

No que respeita ao obstáculo da falta de conhecimento, é claro que o ensino generalizado do empreendedorismo, nas escolas, universidades, empresas, incubadoras, aceleradoras e instituições públicas, é a resposta adequada. Mas podemos ir mais longe, implementando em Portugal programas de formação em empreendedorismo disponíveis em português para todas as pessoas através da Internet. Um excelente exemplo é o projeto inglês “Digital Business Academy”, criado pela Tech City e disponível gratuitamente a todos os que desejarem aprender sobre como desenvolver negócios digitais.

Temos hoje em Portugal uma atitude mais positiva em relação ao empreendedorismo do que quando eu terminei a minha universidade. Eventos como o Web Summit fizeram com que o assunto fosse mais conhecido e despertasse mais interesse. Mas é preciso ainda muito esforço para que se passe das palavras à ação, para que haja mais e melhores empreendedores. E esse esforço começa com o tema deste texto, com a democratização do ensino do empreendedorismo.

Nos últimos tempos tenho reparado em algumas vozes que começam a pôr em causa a importância do empreendedorismo para o desenvolvimento do nosso país. Um destes dias li num dos jornais mais conhecidos alguém que falava sobre “a treta do empreendedorismo”. É verdade que temos de ter cuidado em não tornar o empreendedorismo numa solução mágica para os nossos problemas. É verdade que não devemos levar as pessoas a tornarem-se empreendedores de qualquer forma, arriscando as poupanças de uma vida e complicando ainda mais a sua situação económica. É também por isso que é tão importante o ensino do empreendedorismo, explicando com cuidado os riscos e ensinando de forma pragmática como os reduzir e como aumentar a probabilidade de sucesso de um negócio.

Tendo tido nestes últimos cinco anos a oportunidade de interagir com muitas centenas de empreendedores, de perceber os seus desafios, de ouvir as suas dores e de testemunhar os seus sacrifícios, posso com convicção dizer que tenho orgulho nestas pessoas. Precisamos muito delas para conseguirmos um Portugal melhor, com mais emprego, com mais crescimento e com mais liberdade.

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Sobre o autor

António Lucena de Faria

António Lucena de Faria é sócio Fundador e Presidente da Fábrica de Startups, empresa criada em Abril de 2012. É também membro fundador da StartupPortugal, em representação da Fábrica de Startups. Foi o responsável pela organização e realização em 2012... Ler Mais