O setor energético está a atravessar uma transformação radical, que nos próximos anos irá mudar aquilo que hoje são empresas de energia e toda a relação com o consumidor.

Para uma visão mais estruturada, talvez seja bom elencar, a título de contexto, as principais áreas e tendências que estão a ser o driver desta revolução em curso:

  •  Smart Grids – as redes eléctricas foram construídas, tradicionalmente, para conduzir a energia produzida em centrais até aos utilizadores dessa energia, espalhados pelo país. Hoje em dia, temos cada vez mais uma geração distribuída, por pontos de energia éolica e solar por exemplo, e micro geração, onde um painel solar numa casa também alimenta a rede. Isto obriga a rede tradicional a dar e a receber, operação para a qual não está preparada de origem. Assim, desenvolvem-se “smart grids” para gerir este novo tipo de fluxo para as redes. Note-se que a micro geração e geração distribuídas trazem uma eficiência energética notável, pois os custos de transporte da energia deixam de fazer parte da equação.

 

  •  Renováveis – o preço da energia solar, que baixou 250 vezes nos últimos 40 anos, e éolica consegue hoje ser mais barato do que fontes como o carvão ou gás natural, mas existe um enorme capital investido em centrais elétricas, que não podem ser descontinuadas de um dia para o outro. Mas olho para as 103 centrais eléctricas de carvão que a China cancelou em janeiro, em detrimento de fontes renováveis como exemplo da transição real, e massiva, para fontes renováveis, que hoje em dia são não só mais limpas, mas já mais rentáveis.

 

  • Armazenamento – a produção de energia renovável tem alguma imprevisibilidade, e por isso precisa de baterias para armazenamento de energia produzida em picos para devolver à rede quando há menos água, vento e sol. Os preços destas baterias tem baixado de forma exponencial, enquanto a sua capacidade tem crescido. Torna-se hoje económico ter baterias para suportar a produção renovável e assim caminhamos a passo acelerado para energia praticamente verde, produzida mais localmente e com participação, de forma lucrativa, de privados que queiram investir em serem produtores de electricidade.

 

  • Contadores inteligentes e serviços acrescentados – os contadores de eletricidade são cada vez mais sofisticados, e por isso conseguem ter uma leitura altamente detalhada, que nos permite medir ao segundo o uso energético e com isso determinar, por exemplo, que tipo de aparelho está a ser ligado, e quando. Este mar de dados é uma oportunidade de negócio para uma nova camada de serviços, que vão desde o aconselhamento do consumo energético. Falo de coisas como diminuir a conta ao final do mês, venda de pacotes energéticos ligados à tipologia de uso, avisos de variações suspeitas de consumo, etc… As possibilidades são muitas e pequenos actores como as start-ups irão encontrar formas criativas de dar utilidade a todos estes dados, e assim criar valor, quer para o consumidor quer para quem gere a rede elétrica.

 

  • Veículos elétricos (não necessariamente autónomos) – O seu número irá crescer mais rapidamente do que se possa pensar, com um push grande das marcas para acelerar a passagem do paradigma da combustão interna para os elétricos. Estes carros terão de ser carregados e, portanto, são uma fonte de receita para quem fornece energia. Por outro lado, estes carros serão uma bateria (com rodas) ligada à rede e por isso podem também servir para equilibrar a rede. O que isto quer dizer é que se o meu carro elétrico carregar em momentos de sobrecarga da rede e devolver à rede em momentos de consumo de pico, posso estar a ganhar dinheiro ao ter o carro ligado à ficha!

 

  • Redução de consumo pela mesma performance – hoje em dia existem aparelhos e tecnologias muito mais eficientes em termos de consumo de energia, que ajudam na redução de custo pela mesma performance. O melhor exemplo são as lâmpadas de leds, que facilmente conseguem eficiências de 10x menos consumo, pela mesma luminosidade.

Devido a esta revolução no setor e convergência de tantas tecnologias é uma área que move muitas start-ups e players mais avançados, como é o caso da EDP. A forma mais rápida e económica de se movimentar em direção a todas estas tendências é experimentar muitas coisas, e pilotar soluções. A Beta-i considera a energia como um dos setores de crescimento mais exponencial e acreditamos que daqui vão sair modelos de negócio muito inovadores, já que é um setor com muita geração de dados, o que é por si rico em oportunidades, e as start-ups são o parceiro ideal num processo deste tipo.

Por outro lado, com o aumento rápido de energias renováveis o ambiente ganha, e os cidadãos também, por consequência direta. Mais, a energia tenderá a ser um recurso quase grátis e produzido localmente. Quando isto acontecer o negócio das empresas energéticas terá que ser radicalmente diferente. Note-se que este ano houve a primeira descida em 18 anos, uns meros 0,2%, mas apontam já numa direção… O controlo sobre os custos e consumo de energia é algo que é desejável para o consumidor final. Por fim, beneficia também as start-ups e a inovação. Quem se aventura nestas novas tecnologias e novos modelos de negócio tem a hipótese de ser premiado com negócio e crescimento.

A energia tem tendência para passar a ser uma commodity, de muito baixo custo, e por isso as companhias eléctricas como a EDP vão procurar o futuro nos serviços que rodeiam a energia e a vida das pessoas e empresas. Ou seja, o negócio da energia não será a própria energia (os electrões que circulam), que irá ter os seus preços esmagados, mas coisas como dados ultra-precisos de utilização que podem informar os clientes sobre os seus hábitos de consumo e daí extrair muita utilidade, que será também injetada na cadeia de valor.

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Sobre o autor

Manuel Tânger

Manuel Tânger é cofundador e diretor de inovação da Beta-i. É licenciado em Física e desde os anos de escola que se interessa por tudo o que se relaciona com a ciência e a tecnologia. Detém um mestrado em Física... Ler Mais