O brasileiro Felipe Matos estreou-se no mundo do empreendedorismo com apenas 16 anos. Desde então, já apoiou mais de 10 mil start-ups e ajudou o governo brasileiro nesta área. Leia a entrevista ao Link to Leaders.

A aventura no universo do empreendedorismo começou em 2000, quando Felipe Matos, que contava com apenas 16 anos, criou a primeira app da América Latina. Fazendo um avanço rápido para os dias de hoje, já são mais de 10 mil as start-ups apoiadas por este empreendedor.

Do seu vasto currículo, é de salientar os seus cargos enquanto fundador e partner da consultora Inventta, curador do Startup Digest do Brasil, fundador e conselheiro da aceleradora Startup Farm, diretor de operações do programa governamental Start-Up Brasil e, atualmente, head da 10K Startups, uma plataforma de conhecimento e educação para empreendedores nas diferentes etapas de desenvolvimento de negócio.

Criou a primeira aplicação da América Latina em 2000, quando tinha apenas 16 anos. Considera o empreendedorismo algo inato, que nasceu com a pessoa, ou são as circunstâncias à volta da pessoa que a fazem empreender?
Essa é uma boa pergunta e ela depende um pouco do seu conceito de empreendedorismo. Se for solucionar problemas, procurando movimentar recursos e pessoas em direção a uma visão, acredito que todos nascemos com essa capacidade, em maior ou menor grau. Nesse sentido, as crianças são empreendedoras por natureza. São criativas, experimentam diferentes formas de lidar com a situação… mas vão perdendo algumas dessas caraterísticas ao longo da vida, que nos impõe regras e formas “padrão”. Se empreender é ter uma empresa, acredito que embora haja pessoas com mais facilidade, são necessárias muitas competências específicas e que precisam de ser ensinadas.

Estando o Brasil no meio de uma crise económica, as start-ups são um bom veículo para quebrar este problema?
Sem dúvida. Inclusive, as start-ups têm crescido em número e em tamanho no meio da crise. Em 2018, por exemplo, o Brasil teve os seus três primeiros unicórnios – start-ups que cresceram e atingiram um valor de mercado acima de mil milhões de dólares (como a 99, PagSeguro e a NuBank). Momentos de crise criam oportunidades e espaços para inovação e exigem que as empresas procurem aumentar a sua eficiência, coisa que pode ser alcançada pelo uso de inovações oferecidas pelas start-ups.

“Momentos de crise criam oportunidades e espaços para inovação.”

O Global Entrepreneurship Monitor afirma que o empreendedorismo ocupa uma grande fatia dos negócios criados no país. Na sua opinião, o que é que podia ser feito para dotar estes potenciais empreendedores das skills necessárias para empreender melhor?
Esse parece-me um problema de educação básica. Sem o adequado nível de educação, muitos empreendedores carecem da qualificação básica para que possam ter maiores oportunidades de negócio. Tenho observado melhorias no país, porém, de forma ainda lenta e inconsistente.

Tendo trabalhado grande parte da sua vida no setor privado, o que aprendeu ao trabalhar com o governo brasileiro?
Trabalhar com inovação é muito diferente nesses dois setores, até do ponto de vista legal. Enquanto no setor privado, pode-se fazer tudo, exceto o que está proibido por lei, no setor público não se pode fazer nada, exceto o que está permitido por lei. Por isso mesmo, sempre que algo novo surge dentro do setor público, a implementação é muito mais lenta e difícil porque exige a flexibilização das regras existentes ou a criação de novas regras.

E no que diz respeito a trabalhar com start-ups, quais são as grandes diferenças entre o setor público e o privado?
O trabalho com start-ups dentro do setor público é ainda mais desafiador, já que essas empresas têm uma velocidade muito alta, mesmo considerando o próprio setor privado. É por isso que defendo que a atuação do setor público deve ser sempre no sentido de estimular e empoderar entidades privadas para realizarem o apoio ao invés de apoiar diretamente, para dar agilidade ao processo. Isso vale para investimentos, aceleração, incubação, aconselhamento de mercado, etc. Ao mesmo tempo, o governo tem o desafio de construir uma estrutura de regulação leve e flexível o suficiente para incentivar e permitir o crescimento das inovações trazidas pelas start-ups.

“Enquanto no setor privado, pode-se fazer tudo, exceto o que está proibido por lei, no setor público não se pode fazer nada, exceto o que está permitido por lei.”

Quais foram as maiores dificuldades que passou neste cargo?
Nessa posição, eu acabava “apanhando” dos dois lados, pois as start-ups cobravam-me mais agilidade e a estrutura do governo, pela sua natureza, tendia a forçar-me a deixar os processos mais complexos e, consequentemente, lentos. Estar no meio dessa tensão de forças foi, por vezes, difícil. O programa Start-Up Brasil também tinha um número muito grande de interlocutores. Dezenas de aceleradoras parceiras, diversos órgãos do governo, como o Conselho Científico (CNPq), que oferecia o financiamento às empresas, ou a Agência de Apoio a Exportações (Apex), que cuidava da parte internacional. Lidar ao mesmo tempo com todos esses interlocutores, mais o peso do governo e o interesse dos empreendedores, tudo isso num cronograma relativamente ágil, foi um grande desafio.

Atualmente, considera que o governo brasileiro tem um papel ativo no que diz respeito à promoção e fomento das start-ups nacionais?
Sem dúvida. Há papéis importantes desenvolvidos não só pela Startup Brasil, mas por entidades como BNDES, FINEP e SEBRAE, a nível nacional, e diversas outras a nível estadual: no financiamento e apoio a start-ups e também a entidades de apoio, como fundos, incubadoras e aceleradoras. O maior desafio, contudo, está na parte regulatória, já que as leis que regulam a criação de empresas, o modelo tributário e  os formatos de investimentos geram um ambiente burocrático, lento, inseguro e caro para o empreendedor.

O que é que aprendeu depois de apoiar centenas de start-ups?
Foram milhares, mais de 10 mil start-ups. Aprendi muito e escrevi várias dessas aprendizagens num livro, o “10 Mil Startups”. É difícil resumir numa resposta rápida, mas eu diria que uma das principais lições é que a base de qualquer start-ups é a equipa de empreendedores. O segredo está nas pessoas. Também pude observar uma série de padrões comuns para explicar falhas, como a falta de um acordo prévio claro entre os sócios sobre como proceder no caso da eventual saída de algum deles da sociedade.

“Uma das principais lições é que a base de qualquer start-ups é a equipa de empreendedores.”

Quais são os erros mais comuns dos empreendedores?
Além de subestimarem questões contratuais e acordos entre os sócios, um erro muito comum é colocar o foco apenas no produto. Muitos empreendedores acreditam que basta ter um bom produto para ter sucesso. É claro que ter um bom produto é importante, mas os principais elementos de sucesso residem em outras áreas, como o modelo de negócio adotado e os canais de marketing e vendas, que costumam ser negligenciados.

O que é que podemos encontrar no seu livro “10 Mil Startups”?
O livro é um guia passo-a-passo para empreendedores interessados em criar start-ups, abrangendo desde a etapa de validação da ideia e formação da equipa, até à primeira fase de crescimento acelerado, passando pela captação de investimentos. Ao longo do texto, há diversos casos reais de start-ups com as quais trabalhei que ilustram os conteúdos. Há também indicações de ferramentas, como planilhas e diagramas, cujos modelos podem ser acedidos pelos leitores no site do livro.

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