A vida é uma sequência de tomada de decisões. Parece óbvio. Todos os dias, a todos os níveis, todos tomam decisões, de forma consciente e deliberada ou de forma inconsciente, por imposição externa ou não. Desde a criança que tem que decidir tomar a sopa se quiser jogar no tablet, até ao mais alto dirigente de uma empresa ou país que tem que decidir que tipo de orçamento deve apresentar, todos decidem (ou deveriam).

Até você, caro leitor, chegou até aqui porque decidiu continuar a leitura para além do título, e agora vai ter que decidir entre continuar ou ficar por aqui. Espero que toma a melhor decisão.

E qual o resultado das nossas escolhas, sejam elas profissionais, pessoais ou políticas? Direcionando agora, especificamente, para gestores e líderes, as decisões têm implicações, naturalmente, no sucesso ou fracasso das organizações, pois as decisões alteram ou reforçam o rumo dos acontecimentos.

Sejamos claros, há quem toma as decisões de forma autoritária, sem consultar quem deveria, mas há, também, quem socializa a sua posição antes de decidir.

A tecnologia e os sistemas de informação que acabam por moldar a gestão das organizações, permitem, cada vez mais, decisões partilhadas, maior descentralização e cooperação. A tecnologia blockchain e a de registos distribuídos, bem como as suas aplicações e derivações, são exemplos.

 

Assim, vamos introduzir o conceito de decisões a 359º que implica que o decisor, ao tomar a decisão, pondera todas as consequências, ouça todos os implicados indispensáveis, avalie os meios disponíveis e necessários. Implica sair da zona de conforto e entrar na zona de confronto de ideias, para que haja a possibilidade de crescimento profissional.

 

Graficamente, temos 4 quadrantes numa circunferência / bússola.

  • Quadrante 1 – De 0º a 90º – Zona de conforto e de certezas: num processo desse género, o decisor sente-se como “peixe na água” e não tem dificuldades nas tomadas de decisões. Possui certezas absolutas e, por isso, não consulta ninguém. Pode, eventualmente, denotar alguma arrogância.
  • Quadrante 2 – De 91º a 180º – Zona de confronto, mas de certezas: o decisor está ainda no seu ambiente de certezas, mas tem que confrontar as suas ideias com outras ideias, para crescer e, eventualmente, mostrar que a sua decisão é a melhor. Da mesma forma, pode manter firme a sua decisão, mas pode, também, recolher informação que lhe ajude a melhorar a sua decisão.
  • Quadrante 3 – De 181º a 270º – Zona de confronto e de incertezas: neste processo, o decisor não está na zona de conforto, nem tem certezas. Mas agora tem que confrontar as suas ideias com as dos outros e o resultado desse confronto pode ser a manutenção da sua decisão, a sua modificação ligeira ou adoção da ideia contrária. Mostra que não tem receio de enfrentar o contraditório e acaba por ser uma forma de crescimento profissional.
  • Quadrante 4 – De 271º a 359º – Zona de conforto, mas de algumas incertezas: apesar de achar que tem todas as informações para tomar a decisão, há de sempre consultar mais alguém, se o decisor for humilde. Consegue ver o rasto das suas decisões e denota que algumas não foram as melhores. Tem de ter a consciência de que não sabe tudo e que, às vezes, pode não acertar plenamente. Assim, prefere ouvir os outros e dissipar algumas dúvidas, num processo “negocial” que pode até admitir o oposto das suas ideias.

Sendo assim, num processo de tomada de decisão a 359º, parece que existe maior possibilidade de tomar uma decisão com maior número possível de dados e informações (mas também de ruídos) e de ver melhor as consequências atuais e futuras, bem como o ponto de vista dos outros. Há, contudo, uma ressalva: nem todos os processos decisórios permitem que sejam tomados a 359º, quer por limitações de tempo, quer por limitações derivadas da própria natureza da decisão.

Mas a bússola tem 360º. Por isso, faltará 1º. Cabe ao leitor, que decidiu por ler até aqui, decidir o que fazer com esse 1º de liberdade e, assim, completar a circunferência de decisão.

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Sobre o autor

Carlos Rocha

Carlos Rocha é administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi Administrador Executivo da CI - Agência de Promoção de Investimento. Doutorado em Economia Monetária e Estabilização macroeconómica e política monetária em Cabo Verde, pelo Instituto Superior de Economia e Gestão – Lisboa, é mestre em Desenvolvimento Económico e Social em África, com especialização em Política Económica e Desenvolvimento de Negócios,... Ler Mais