A resiliência e a capacidade de ultrapassar obstáculos são duas das muitas caraterísticas que definem Mafalda Ribeiro. E, apesar das contrariedades da vida, o seu espírito empreendedor não pára. Em entrevista ao Link To Leaders, a jovem fala do que a motiva e dos projetos em que está envolvida.

“Thanks Living – Gratidão Sem Limites” do Infinite Book é o mais recente projeto de Mafalda Ribeiro, mas a sua veia empreendedora não fica por aí. “Agente de motivação” por excelência, Mafalda formou-se em Jornalismo, na Escola Superior de Comunicação Social, dá palestras sobre motivação, nas quais a sua própria experiência de vida é um exemplo, é uma public speaker inata, oradora motivacional, escreve livros, associa-se a causas sociais…

Em suma, apesar das circunstâncias de vida que a obrigam a deslocar-se numa cadeira de rodas, esta jovem de 36 anos, acabados de fazer, quer continuar a passar mensagens de esperança em tudo o que se envolve, e, como confidenciou ao Link To Leaders, projetos não lhe faltam. Alguns ainda no segredo dos deuses, mas que prometem ser inspiradores.

O que a levou a criar a edição “Thanks Living – Gratidão Sem Limites” do Infinite Book?
Aquele desassossego de quem sabe que as coisas até podem vir do céu, mas não caem sozinhas de lá. Sou admiradora da marca “Infinite Book”, que o Pedro Lopes criou para responder a uma necessidade, e achei que faltava um caderno com uma capa cor-de-rosa. Desafiei-o a concebermos este caderno para celebrar a gratidão enquanto forma de estar na vida. Se educamos para a empatia, para as emoções, para a cidadania e para a inclusão então se calhar faz falta algo que possa incentivar à gratidão. Muita gente me pergunta qual o segredo para eu estar sempre a “Sorrir Sobre Rodas” e a resposta está neste caderno: ser agradecida de uma forma ilimitada!

Qual o grande objetivo deste projeto?
Levar essencialmente o público alvo deste tipo de produto – pessoas que empreendeem, lideram, gerem negócios, planeiam, criam e inovam todos os dias – a terem em conta que agradecer pode ser a fonte da verdadeira felicidade e não o contrário. Pretende-se que este caderno seja um recurso para parar e pensar nisso, num mundo em que todos estamos constantemente a fazer listas de desejos e metas. A melhor forma de não desistirmos é registarmos as nossas vitórias. Com um caderno onde há espaço próprio para nos lembrarmos e registarmos as coisas, razões e pessoas pelas quais somos gratos é um verdadeiro tratado de motivação, pois o entusiasmo anda de mãos dadas com a gratidão. Quisemos que esta fosse uma oportunidade para que não haja limites para agradecer… ainda bem que este caderno é infinito!

Onde se pode adquirir este caderno?
Para já online no site oficial do “Infinite Book”, em todas as lojas FNAC e no Corações com Coroa Café, em Lisboa. Seja de que forma comprar este Infinite Book irá estar sempre a ajudar com 1 euro, por caderno, a Associação Corações com Coroa,presidida pela Catarina Furtado.

Porque é que escolheram a Associação Corações com Coroa para doar uma % das vendas?
Porque não é uma associação caritativa, no sentido de se transformar num banco de bens, mas antes, quer crescer como uma associação de apoio e de intervenção social, em respeito pelos direitos fundamentais de todas as pessoas. A Catarina Furtado, e a equipa da CCC, acreditam que é na educação que está o mote para conseguirmos mudar o mundo. Admiro o trabalho que têm feito desde 2012 e assino por baixo.

Associarmo-nos à Corações com Coroa foi um alerta para duas coisas. A primeira, para os problemas reais que continuam a existir de desigualdade de oportunidades e de exclusão sócio-afectiva de pessoas em situações de vulnerabilidade, risco ou pobreza. A segunda, lembrar que as associações fazem um trabalho contínuo ao longo do ano e, como tal devem ser lembradas e apoiadas continuamente. Apoia-la com uma % das vendas e contribuir para lhe dar voz, através da comunicação deste Infinitebook, é dizer também a quem o compra que fazemos parte de uma pequena percentagem da população mundial que teve a sorte de nascer onde existem oportunidades. A prova de que a gratidão não tem limites.

O que podemos escrever e nunca apagar na vida?
A afirmação de que ninguém está cá por acaso e que todos nós fomos planeados para cumprir um propósito

Como define a gratidão?
Como uma decisão que a meu ver é a causa primária para a forma como depois lidamos com tudo o que nos acontece. Ser grato não é para mim um sentimento que vai e vem consoante o nosso estado de espírito ou a consequência das emoções que julgamos não ter o poder de controlar. Quando eu decido ser grata e fazer disso um mote para o meu dia-a-dia não só retiro peso à dor, como me disponibilizo a encontrar um sentido para tudo. Dar graças, enquanto hábito, é algo tão saudável e nutritivo quanto ter uma alimentação equilibrada.

Como é o dia a dia da Mafalda?
Uma aventura! Não é detido por rotinas nem por um grande planeamento – ainda que a chamada reperage tenha de acontecer, sempre que quero sair de casa para um sítio novo, exatamente porque há toda uma logística associada e ginástica mental para fazer face às barreiras arquitetónicas que me dificultam a vida.
A vida de freelancer na área da comunicação, de há sete anos para cá, o facto de viver sozinha e a minha atividade de public speaker um pouco por todo o país, fazem com que nenhum dia seja igual ao outro. O que não deixa de ser desafiante, mas eu nunca gostei de ser muito certinha. Além disso, ao nível da saúde muitas vezes estou como a meteorologia… incerta, pelas mazelas das quase uma centena de fraturas que fiz ao longo da vida, o que me obriga a ter uma aceitação e capacidade de resistência face à dor.

“A minha maior motivação é nunca pôr em causa quem sou eu, o que estou aqui a fazer e o para quê de tudo isto.”

Como ultrapassa as contrariedades e arranja motivação?
Tento desligar o “complicómetro” mental porque, na maioria das vezes, nós sofremos por contrariedades que ainda nem sequer aconteceram. A ansiedade e o medo são os maiores inimigos da nossa identidade. Portanto, a minha maior motivação é nunca pôr em causa quem sou eu, o que estou aqui a fazer e o para quê de tudo isto. Só um Deus muito criativo, detalhista e amoroso é que desenhava uma obra de arte como eu. Portanto, é com fé naquilo que sei que Ele tem reservado para mim que vou derrubando muros e construindo pontes. Nesse caminho, aquilo que se vê é que eu sou empurrada numa cadeira de rodas e levantada ao colo. E eu encaro-o como uma benção em vez de um mal necessário. Ser construída, amada, corrigida, puxada, criticada e motivada pelas minhas pessoas é uma extensão do Amor incondicional do Autor da Vida.

“(…) é importante sabermos que batalhas devemos ou não travar, saber deixar ir o que não podemos controlar (…)”

O que mais mudou na sua vida ao longo dos anos?
Não sou uma pessoa avessa à mudança. Se bem que nos últimos anos, sinto que mais do que o que é que mudou na minha vida é o quanto eu cresci (sem ser no tamanho, claro!) a partir de mudanças inevitáveis. Descobri uma resiliência que não sabia ter. A maior mudança talvez seja a de como passei a confiar muito mais que há um tempo certo para as coisas. E que, da mesma forma que é importante a persistência e a resistência nas lutas, também é importante sabermos que batalhas devemos ou não travar, saber deixar ir o que não podemos controlar e aprender a olhar para aquilo que julgamos que nos tiraram como uma espécie de livramento. Por isso, aquilo que mais mudou na minha vida foi a forma como deixei que o meu carácter fosse moldado e aperfeiçoado nas perdas.

“As pessoas merecem histórias reais ao invés de chavões de palavras bonitas para partilhar nas redes sociais.”

Considera-se e uma empreendedora da motivação?
Se me pedisse um sinónimo de empreender diria que é ter uma grande lata! É de facto, ser pró-ativo e estar disponível para começar algo. É ser muito mais alguém de ação do que um reativo ou um passivo. Com base nisso, sim, acho que sou uma empreendedora da minha vida há 36 anos. Por causa dessa consciência de que sou feliz sobre rodas e anormal com gosto, pus o meu storytelling ao serviço das pessoas. Eu não fui chamada para falar para as pessoas com deficiência, mas para todas as pessoas. A forma como o faço, espero sempre que seja um agente de motivação sem ser moralista ou dona da verdade.

Nunca quis ser um “shake” dos sete passos para a felicidade, até porque eu não dou passos, mas é o que funciona para mim. Aquilo que me motiva é viver a saber que eu sou um meio para passar uma mensagem de Esperança. Se existir quem se possa identificar e agir a partir daquilo que eu conto porque vivi – não li em nenhum livro de autoajuda – é porque o meu propósito está a ser cumprido. As pessoas merecem histórias reais ao invés de chavões de palavras bonitas para partilhar nas redes sociais.

O que acha que falta aos mais jovens para terem ambição?
Saber quem são. Acho que essa noção de identidade é também uma prevenção dos maiores flagelos que os atingem. E no tratamento de crises a melhor terapia, na minha opinião, é também acompanhá-los, em empatia e amor, na viagem de regresso ao essencial e ao seu “era uma vez”. Não há nada que me deixe mais triste do que ter uma plateia de jovens, aquando das palestras que dou em escolas, que, no limiar da adolescência para a vida adulta, ainda não sabem o que querem ser quando forem “grandes”. Não é uma questão de terem dúvidas, o que eles não têm é sonhos e ambições profissionais/pessoais. Isso quer dizer que não sabem mesmo ou não querem saber? Antes de lhes pedirmos futuro temos de os ajudar a conhecerem-se e sentirem-se amados, aceites e incluídos no presente, na sociedade deste tempo.

O que lhe falta realizar? Até onde a pode levar a sua veia empreendedora?
Eu sou uma idiota compulsiva! Ou seja, estou sempre a ter muitas ideias por minuto e depois falta-me disciplina, planeamento e sustentabilidade para as realizar. Por isso, é difícil falar de objetivos a longo prazo que seja eu a empreender pois estou numa fase em que estou a “combater em várias frentes” e tenho alguns canais abertos que, uma vez colocados em velocidade de cruzeiro, vão-me dar mais trabalho a manter do que se calhar a criar. Mas o gozo de gerar coisas novas é algo que nos faz sentir mais vivos, sem dúvida. Quero ainda conseguir escrever um romance de ficção, um guião para cinema e uma peça de teatro. Na televisão ou no digital gostava muito de vir a ter um programa meu, onde conversar se sobrepõe ao ato de entrevistar.

Não gosto de me auto-impor limites porque tenho tudo na minha vida entregue n’Aquele que nunca viu limites diante das minha limitações e isso descansa-me. É mesmo a diferença entre viver ao sabor do vento e viver guiada por quem faz o vento soprar.

Então, em que frentes é que está a combater agora, depois do lançamento do Infinite Book “Thanks Living – Gratidão sem limites”?
Assim em “modo pitch”: para os próximos meses vem um livro de não ficção, que é uma compilação das minhas reflexões partilhadas ao longo dos anos nas minhas redes sociais. Vem uma plataforma digital/blog em nome próprio. Vem um livro-biografia de um grande líder que me tem inspirado muito neste processo de pesquisa para a escrita. E virá ainda um grande projeto, que estou a dirigir com uma equipa incrível, na área da motivação a partir de histórias de vida de pessoas com um espírito valente. A par disto tudo, continuo a “rodar por aí” em escolas, empresas, conferências, igrejas, eventos corporativos e hospitais, com o meu projeto “Sorrir Sobre Rodas” e espero continuar a ir ao encontro de muito mais gente. É por tudo isto que está em processo que já tenho muito para agradecer!

“O riso ajuda a aliviar a pressão e esvazia-nos do queixume permanente que nos pode congelar face a um problema.”

Qual a receita para ter boa disposição nos negócios?
É preciso rir mais com as pessoas em vez de rir das pessoas. Devemos sim rir das situações menos boas antes que elas se transformem num drama ou numa tragédia. O riso ajuda a aliviar a pressão e esvazia-nos do queixume permanente que nos pode congelar face a um problema. Abrir um sorriso é meio caminho andado para nos colocarmos a caminho da solução.

Que diferenças encontra na atual geração empreendedora comparativamente à sua?
Acho que agora arriscam mais depressa do que os da minha geração, até pelo leque de recursos que têm à disposição que não havia há uns anos. Podem ser mais destemidos porque têm mais informação, mas isso não é a mesma coisa que ter conhecimento.

Acho que lhes falta a noção de que é preciso amadurecimento também para escolher. No que concerne à consistência, permanência e consolidação penso que a minha geração ganha um bocadinho. Que a mais-valia não está só em criar, mas em manter. Esta pode ser considerada uma geração mais empreendedora porque começa algo mais facilmente e pode até atingir um pico de sucesso vertiginoso, mas na volatilidade do mundo de hoje precisa de ser muito mais focada para não deitar tudo a perder. É que a paleta de oportunidades que se abrem constantemente pode ser confundida com desvios. Esta geração, a meu ver, tem obrigatoriamente de aprender a ser muito mais seletiva!

Que conselhos daria a quem está agora a começar um projeto ou negócio?
A fazer tudo com verdade, ela é um escudo protetor de todos os males e um holofote guia para o bem. Colocar as pessoas sempre à frente de todas as tarefas, porque elas podem até ser superáveis, mas são insubstituíveis. Os fins não valem todos os meios. E a nossa identidade é a única coisa que nunca devemos negociar para atingir resultados. E agradecer quando dá certo e até quando dá errado.

Respostas rápidas:
O maior risco: Que a gratidão se transforme na maior desculpa para a procrastinação. 
O maior erro:
 Considerar que temos receitas infalíveis para mudar a vida de alguém e que por isso somos o centro do mundo.
A maior lição: Saber que as coisas não caem do céu mas confiar que elas vêm de lá.
A maior conquista: Ter ao nosso lado quem seja capaz de corrigir, consolar e empurrar com verdade e consistência.

Comentários