Mas afinal o que é a caixa? A expressão “Think outside the box”- TOB – entrou em força nas últimas décadas para o nosso vocabulário quotidiano.

Ouvimos com frequência que é necessário pensar fora da caixa para conseguirmos gerar valor para as organizações, que as boas ideias surgem quando se pensa fora da caixa, que é preciso aprender a “pensar fora da caixa”… Mas, afinal, o que significa o chavão “Think outside the box”?

Blendinger e McGrath (2000) definem “Think outside the box” como a capacidade de resolução de problemas que todos os indivíduos possuem quando pensam de forma diferente daquilo que é mais evidente e expectável, denominado frequentemente de pensamento convencional. Pensar e resolver os problemas de forma não convencional de modo a gerar valor não é mais do que a essência do conceito de criatividade.

Frequentemente, nas empresas, os colaboradores são convidados a pensar “fora da caixa” de forma a contribuir para a geração de novos produtos, processos ou serviços, visando atingir da melhor maneira os objetivos da organização. Deduzimos então que a “caixa” (box) representa o pensamento convencional, a forma como normalmente, automaticamente, fazemos as coisas. Ora se a “caixa” representa o pensamento convencional e o “fora da caixa” representa o pensamento não convencional (mais criativo), pensar fora da caixa sugere que se saiba o que é o pensamento dentro da caixa. O que está na caixa? São os conhecimentos no domínio, as competências específicas, a motivação para a tarefa?

De acordo com o Modelo Componencial da Criatividade, uma das mais eminentes e compreensivas teorias da criatividade, Amabile (1983) perspectiva a criatividade como uma integração de factores múltiplos, como a motivação para a tarefa, a capacidade e conhecimento relevante num domínio, as competências que incluem um estilo cognitivo caracterizado pela complexidade e não rigidez, o conhecimento de heurísticas e um estilo de trabalho concentrado e enérgico.

Também numa investigação  recente, de que sou co-autora (Almeida, Iberico Nogueira, & Lima, 2018), onde foram feitos estudos de análise factorial confirmatória de um dos instrumentos mais utilizados para a avaliação do potencial criativo (TCT-DP- Test for Creative Thinking-Drawing Production), os resultados sugeriram  uma  correlação entre os factores Inovação e Adaptatividade, o  que reforça  a importância das duas formas de pensar no desempenho criativo, duas formas de pensamento, uma  mais convencional e outra menos convencional, indissociáveis e subjacentes à criatividade.

Desta forma, se queremos ser criativos, precisamos, para além das 1) competências específicas do pensamento criativo como, por exemplo, a flexibilidade e a imaginação, precisamos também de 2) sólidos conhecimentos técnicos, procedimentais e instrumentais no domínio específico em que queremos ser criativos, bem como de 3) motivação para ser criativo ou para criar.  Todos estes componentes são indispensáveis à criatividade. Uns estão “dentro da caixa”, como os sólidos conhecimentos técnicos, procedimentais e instrumentais num domínio específico do saber; outros estão fora da caixa, como a flexibilidade e a imaginação (pensamento divergente),  outros ainda poderão alternar entre o fora e o dentro da caixa, como a motivação.

Ou seja, para sairmos da caixa teremos primeiro que saber estar dentro dela e prepararmo-nos e fortalecermo-nos com tudo o que lá está dentro. Esta é a minha reflexão sobre o que está fora e dentro da caixa. Qual é a sua?

* Leonor Almeida, professora associada, coordenadora do Mestrado em Gestão do Potencial Humano do ISG.

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Referências
Almeida, L., Ibérico-Nogueira, S., & Lima, T. (2018, July). In the path of Two Tracks of Thought: A Structural Model of the Test for Creative Thinking-Drawing Production (TCT-DP), over the school years in Portuguese context16th ICIE conference 2018 on Excellence, Innovation, & Creativity in Basic-Higher Education & Psychology – University Paris Descartes, July 3-6, 2018.

Amabile,T.M. (1983). The social psychology of creativity. New York: Springer-Verlag.

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