Parece existir uma curiosa “lei” que faz com que todas as indústrias exibam o fenómeno da concentração. Isto é, à medida que a indústria caminha para a maturidade, decresce significativamente o número de empresas que oferecem produtos e serviços no setor.

Quanto mais a indústria envelhece e estabiliza, mais distantes ficamos da falácia do mercado de concorrência perfeita. Pior. Aparentemente, quanto mais hands-off o governo se comportar, isto é quanto menos regulação existir nos mercados, mais rápido é o processo de concentração, mais rapidamente se chega ao dilema da formação do cartel.

Quando já só temos meia dúzia ou uma dúzia de players, encontram incentivo para “negociar” uns com os outros a sobrevivência pacífica de todos, com óbvios e imediatos prejuízos para o consumidor.  Se as empresas não “acordarem” como cavalheiros a sobrevivência “civilizada” de todos, às expensas do consumidor, “in the end there can be only one” e chegaremos a um monopólio em que, finalmente, o consumidor é irrelevante.

Exemplo claro dessa realidade é, entre outras, a indústria automóvel que, no dealbar do século XX, possuía mais de 2000 fabricantes e, agora, pouco mais de uma dezena oferecem automóveis, sendo que, de todas as marcas que esta dezena possui, a sensação é que pouca diferença existe entre elas, quando comparamos modelo a modelo. Podemos dizer o mesmo de frigoríficos, televisores, detergentes, seguros, produtos financeiros, aparelhagens de alta fidelidade, jogos de computador, software de gestão, telecomunicações, smartphones. E que dizer da “choice” que temos de canais de televisão…

E não falo só de redução do número por causa de estratégias acquisition, como as anunciadas entre a Bayer e a Monsanto, e da Kraft a querer absorver a Unilever. Não, o fenómeno é mais profundo e aparentemente inexorável. No meio desta dinâmica estudada por Solow, por Abernathy e Utterback no MIT, e por vários outros académicos na Europa, coloca-se um interessante paradoxo.

Quanto mais a indústria envelhece, quanto mais se instala o paradigma da eficiência, maiores são as “barreiras à entrada”, menor o incentivo à inovação de dentro do próprio sistema e menor a escolha do consumidor. E a narrativa dominante é: ‘Não senhora! Pelo contrário, deixem o mercado funcionar, que mais empresas virão. Mais inovação em catadupa gerará uma luxúria de produtos cada vez mais baratos e mais doses cavalares de felicidade invadirão as casas das famílias.’ Tenho a impressão de que este mundo poderá, eventualmente, existir num dos 7 exoplanetas descobertos pela NASA…

Da concentração da propriedade empresarial em poucas private equities, bancos e “investidores” – dotados de um poder desmesurado sobre a economia real e sobre a economia ficcionada de um sistema financeiro predador que, na prática, se traduz também na posse do sistema político, mesmo nas sociedades democráticas – só vagas de revolucionários empreendedores auto-organizados nos poderão resgatar.  É um ato de subversão revolucionária exigir um mercado efetivamente livre, não de regulação razoável que proteja os consumidores, mas livre de decisões amiguistas, de atribuições administrativas de licenças ao financiador do partido, livre do poder de esmagamento dos gigantes sobre as iniciativas dos pequenos empreendedores.  Os muros existem há muito e destinam-se a garantir o status quo.

O maior revolucionário que pode existir agora, é um finalista do Técnico ou do ISEL que quer iniciar um negócio com base na sua paixão e saber, e terá de enfrentar um mercado mais fechado, proibitivo, minado, do que o plano quinquenal soviético. Ou o finalista de biologia da Faculdade de Ciências que tem uma grande ideia para desenvolver, e leva logo no focinho com doze PEC, seis volumes de legislação só interpretável em escritórios especializados em “produzir” leis com alçapões.

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Sobre o autor

José Manuel Fonseca

José Manuel Fonseca é fellow do Complexity and Management Centre da University of Hertfordshire e Visiting Researcher da Chalmers University of Technology em Gutemburgo, e professor na Universidade Europeia. Foi docente da Nova Schooll of Business and Economics entre 2006 e 2011, em Estratégia, e foi o coordenador do Leadership Stream do MBA da Nova/Católica/MIT. Foi CEO e administrador de empresas dos setores da Construção, TI, Publicidade e Confeções em... Ler Mais