Se dermos muito valor aos grandes títulos da imprensa ou virmos as “flash news” da oferta quase infinita, mas imensamente monocórdica, dos canais televisivos noticiosos, seremos levados a concluir que vivemos em tempos particularmente perigosos, com um futuro negro pela frente.

Ora, sendo certo que podemos encontrar várias razões para traçar cenários menos promissores do futuro, o que é verdade é que nunca vivemos uma época de tão grande desenvolvimento e de prosperidade como a presente.

O que sucede é que muitos dos paradigmas e referenciais originados no século passado se têm esvaído nos processos transformacionais a que temos assistido. Processos de grandes alterações geopolíticas – fim da guerra fria, 11 de setembro, alterações no Médio Oriente, ascensão da China como grande potência económica – e, cada vez mais, militar – mas também profundas modificações na matriz de crescimento económico mundial: digitalização das economias, importância cada vez maior de todos os processos de processamento de dados, “customização” de bens e serviços e globalização da capacidade de colocação de bens e serviços e de acesso a financiamento.

Esta nova época significa para Portugal um período de enormes possibilidades. Falamos de uma época em que a competitividade é, acima de tudo, determinada pela capacidade intelectualskills, know-how e especialização.

Trata-se, por isso, de apostar em projetos em que, mais do que o capital físico – industrial, mecânico – que normalmente requeria enormes doses de capital financeiro, a diferenciação e geração de valor está na dimensão intangível, que requer doses mais reduzidos de capital investido, ainda que, eventualmente, com um risco de retorno mais elevado.

A grande questão que se coloca no caso português é que o investimento em capital intangível continua a ser menos popular do que o investimento em ativos físicos, tangíveis. Isso deriva de uma atitude de sempre, que se compreende: as coisas materiais têm outra visibilidade e são “palpáveis”. Por outro lado, o investimento em ativos intangíveis requer, por vezes, mais paciência, uma vez que significa manter vontades de investimento sem que nada de visível ou gerador de cash flow surja.

É por isso que o recurso a fontes de capital com perspetivas de investimento a longo prazo é crítico. A disponibilização de fundos de capital de risco e de financiadores de projetos na fase de incubação – nomeadamente os “business angels” – é crucial para o efeito.

Mas, tão importante como o acesso a capital, é a massa crítica – dimensão – dos recursos disponíveis. Sabemos como, de um modo geral, em Portugal as empresas não têm investimentos significativos em R&D, dadas as fragilidades de balanço, a escassa acumulação de capital e a debilidade de recursos humanos. Aqui, as políticas públicas têm um papel a desempenhar como agregadores, mobilizadores das capacidades disponíveis no país. Universidades, centros tecnológicos, incubadoras e empresas devem saber inter-relacionar-se em rede, de forma a maximizar os recursos que o Estado tem posto à disposição dos vários agentes do sistema científico e tecnológico nacional.

Em tempos, a promoção de pólos de desenvolvimento foi uma tentativa – nem sempre bem-sucedida – de incentivar este networking e promover a maximização dos recursos investidos. Está na hora de o Estado repensar a forma de aproximação a este tema, tendo em conta o período muito mais exigente que atravessamos.

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Sobre o autor

Franquelim Alves

Franquelim Alves é Diretor-Geral da 3anglecapital, sociedade especializada em operações de M&A e serviços de “advisory” financeiro. Licenciado em economia, pelo ISEG, detém um MBA em Finanças pela Universidade Católica Portuguesa e o Advanced Management Program da Wharton School of Philadelphia. Desempenhou funções de administração financeira no Grupo Lusomundo e no Grupo Jerónimo Martins. Iniciou a sua carreira na Ernst & Young, onde desempenhou funções de Sócio responsável pela área... Ler Mais