O que colocaria Portugal no mapa, o papel das start-ups no tecido empresarial e as hierarquias pesadas que contrariam a inovação são apenas três dos temas que Steven Braekeveldt, CEO da AGEAS Portugal, abordou numa entrevista ao Link To Leaders.

Encontrámos Steven Braekeveldt durante a conferência que a Singularity University promoveu na sede da sucursal portuguesa da AGEAS. Numa entrevista de análise ao mercado, o CEO do grupo segurador apresenta algumas ideias para melhorar a atuação das empresas nacionais e para melhorar a economia portuguesa.

Qual é a importância de trazer conferências como esta para dentro das organizações?
Acredito que é importante que as pessoas tenham uma chamada de atenção que as faça acordar. Algo que lhes indique que as coisas estão a mover-se muito rápido, que lhes abra os olhos e que lhes mostre que, ou adotam estas novas invenções, ou vão ser deixadas para trás. Acho que é importante que Portugal, enquanto país, continue a evoluir da forma que tem feito. A primeira vez que vim cá foi, provavelmente, em 1983. Se comparar com o estado atual, mais de 30 anos depois, é inigualável.

“Precisamos de mudar a mentalidade e perceber que se queremos produzir vencedores teremos alguns perdedores e temos de o aceitar.”

Quais são os desafios que enfrentamos atualmente enquanto país?
Os sistemas legados, mudança de mentalidade – algo muito importante para Portugal – e, claro, dinheiro para investir. A diferença entre a forma como operamos e os Estados Unidos é que eles podem perder dinheiro: têm 50 milhões de dólares, investem em algumas start-ups, perdem 40 milhões, mas está tudo bem, porque “vamos fazer uma fortuna com estes 10 milhões”.
Na Europa, a atitude é: “recebeste cinco milhões de euros, mas não te atrevas a perdê-los. Caso falhes, és despedido”. E isto é uma grande diferença de mentalidade. Isto aplica-se, da mesma forma, à maneira como trabalhamos na Europa [não só para o universo das start-ups]. Precisamos de mudar a mentalidade e perceber que se queremos produzir vencedores teremos alguns perdedores e temos de o aceitar.

Afirmou que, em Portugal, os sistemas hierárquicos pesados são uma barreira à inovação. Porquê?
Imagine-me a mim, um homem já numa idade avançada com uma educação do século passado, a tomar todas as decisões só porque sou o CEO ou o dono da empresa. O “velho” tem de tomar decisões em relação a start-ups e novas ideias que vão surgindo na organização com base numa educação datada. Isto não resulta. Portanto, é necessário dar oportunidade às outras pessoas para fazerem acontecer coisas novas. Caso resulte, ótimo, caso não, temos de aceitar que as pessoas falham, desde que aprendam com os seus fracassos.

Um dia alguém me disse “Steven, para os teus chefes, deves ser cruel, não deves perdoar nada, mas deves adorar as pessoas que estão a trabalhar para ti”. Por vezes, vejo o contrário a acontecer cá. Vejo que há muitas pessoas a tentar agradar aos seus superiores e a não adorar as pessoas que trabalham para elas. As hierarquias, da forma como estão estruturadas, só dificultam a inovação e é por isso que continuo a dizer que as hierarquias em Portugal são uma barreira à inovação e às start-ups.

“Enquanto empresa temos de deixar que as pessoas de todos os departamentos sejam inovadoras e trazer indivíduos que, por norma, não se encaixam numa cultura empresarial normal.”

Então o que é que as empresas podem fazer para promover a inovação?
Primeiro, vamos pensar em grande, e não só em empresas. Adoraria pensar num plano mais amplo. O que é que colocaria Portugal “no prato”? Se nós, por exemplo, encontrássemos 25 empresas com disponibilidade para alocar 5 milhões de euros num fundo de capital de risco para start-ups, teríamos 125 milhões de euros – o que é muito dinheiro – e convidávamos especialistas para gerirem este fundo. Nesta situação, teríamos 25 empresas a beneficiar daquilo que as start-ups trazem. Isto colocaria Portugal no mapa e alavancaria as start-ups para o sucesso. Quando esses 125 milhões de euros acabassem, vendiam os sucessos, surgia dinheiro novo e começavam tudo outra vez. Com isto, era criada uma verdadeira cultura de inovação e sucesso e todas as empresas em Portugal iam, indiretamente, beneficiar desta iniciativa.

No entanto, tradicionalmente, aquilo que eu vejo é que as empresas têm uma orientação muito limitada, cada uma trabalha da sua forma com as start-ups e o resultado, na sua maioria, são falhanços. Não há uma cultura de trazer profissionais de Silicon Valley e deixá-los trabalhar aqui. Estas pessoas trabalham há décadas com start-ups. Aqui [em Portugal]temos algumas pessoas que trabalham com start-ups e que dizem que sabem o que estão a fazer, mas que, na realidade, não sabem.

Enquanto empresa temos de deixar que as pessoas de todos os departamentos sejam inovadoras e trazer indivíduos que, por norma, não se encaixam numa cultura empresarial normal. Portanto, temos de dar liberdade para as pessoas serem diferentes.

“Vemos muitas fintechs (…), mas poucas insurtechs (…) e gostaria de convidá-las a todas para me fazerem uma visita.”

Em relação ao universo dos seguros, diria que as start-ups são um veículo de inovação nesta área?
No setor dos bancos sim, porque eles têm muitos serviços por onde as start-ups podem pegar. [Por outro lado,] o negócio dos seguros é maioritariamente feito fisicamente, ou seja, fazemos um seguro a uma casa e depois precisamos de a reparar. Como é que uma start-up faz isto? Ia fazer com que reparassem um teto mais rapidamente? Talvez consigam inovar o processo de fazer o pedido ou algoritmos que sejam capazes de calcular imediatamente os custos de reparação através de fotografias… Mas há um aspeto muito físico em relação ao setor dos seguros. Não é fácil, mas temo-nos mantido alerta para este tipo de coisas. Vemos muitas fintechs (start-ups de base tecnológica que trabalham serviços financeiros), mas poucas insurtechs (start-ups de base tecnológica que trabalham seguros) e gostaria de convidá-las a todas para me fazerem uma visita.

Diria que está inserido num mercado em grande mudança?
O maior perigo é aquele que não vemos. O que quero dizer com isto é que os dinossauros nunca viram a Idade do Gelo a chegar e o que me preocupa mais é que alguém invente uma nova forma de assegurar coisas que não conseguimos prever. Isso é o que me preocupa mais porque é algo que é possível acontecer.

Relativamente à inteligência artificial, como é que esta tecnologia está a ser utilizada no vosso negócio?
Estamos a começar. Acho que ainda estamos a dar os primeiros passos na inteligência artificial e vejo muitas coisas que vão sofrer alterações no que diz respeito à prevenção. Na Médis, por exemplo, temos a triagem médica que será feita através de um chatbot e o reconhecimento de documentos. Acredito que este tipo de iniciativas vai acontecer cada vez mais frequentemente.

“O que quererá ter, de certeza, é um seguro de cibersegurança porque o veículo pode ser pirateado.”

Atualmente, os seguros automóveis existem de forma a garantir às outras pessoas que sou capaz de pagar por qualquer dano nos seus bens. Mas num mundo em que os carros são autónomos e em que o erro humano é uma variável anulada, quem seria responsável pelos danos causados pelo mau funcionamento de uma tecnologia?
Acho que não podemos desassociar os carros autónomos da sharing economy [economia de partilha]e considero que é algo que vamos ter cada vez mais. Acredito honestamente que se formos a um bairro com 15 casas não há necessidade de haver 15 cortadores de relva. Tenho três filhos e nenhum deles têm um carro, porque não há necessidade. Há a Uber, comboios, elétricos, autocarros… Eles acham que é o pior investimento que podiam fazer – até porque fazem parte de uma geração que também é mais consciente em relação ao ambiente. Portanto, num bairro com 15 casas, não vão haver 15 carros, as famílias vão dividir entre si. Se alguma coisa acontecer a estes veículos, será o fabricante que terá de se responsabilizar.
Isto significa que, enquanto indivíduo, se ainda quiser ser dono de um carro, o seguro será reduzido, porque terá menos acidentes, mas mesmo assim precisará de ter um para os acidentes que não envolvem a tecnologia do fabricante. O que quererá ter, de certeza, é um seguro de cibersegurança porque o veículo pode ser pirateado.

Já têm este tipo de seguros disponíveis?
Estão em desenvolvimento.

“(…) a literacia financeira é uma das minhas maiores preocupações com Portugal.”

Que tipo de problemas é que as seguradoras enfrentam atualmente e que ainda não têm uma solução?
Eu diria a literacia financeira, que é uma das minhas maiores preocupações com Portugal. Há pessoas que não têm qualquer tipo de seguro. Não têm conhecimento destes produtos e acham que as empresas que os vendem as roubam e acabam por nunca pagar nada… Acho que no setor dos seguros devíamos fazer um trabalho melhor a divulgar a mensagem de que 97% dos processos são pagos instantaneamente e melhorar a literacia em relação a este tipo de assuntos.

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