Recentemente participei numa mesa redonda realizada no âmbito do The Economist Lisbon Summit onde tive a oportunidade de contribuir para o debate sobre o que é mais importante para Portugal: investir na criação de start-ups ou destinar os recursos ao desenvolvimento de scaleups?

Defendi, ou contrário de um outro colega de debate, que a prioridade no caso do nosso país deve manter-se na criação de novas empresas inovadoras e com elevada capacidade de crescimento. Não é que as scaleups, entendidas como empresas com no mínimo de 10 empregados e que nos últimos três anos conseguiram uma taxa de crescimento anual superior a 20%, não sejam importantes. A questão é antes se, neste momento, devemos dar prioridade a este tipo de empresas ou se devemos continuar a privilegiar a criação de novas empresas, sendo que algumas destas amanhã poderão transformar-se em scaleups.

No meu entender existem em Portugal três grandes desafios que uma aposta nas start-ups pode ajudar a resolver. O primeiro é o do desemprego muito elevado verificado nas camadas da população mais jovens, muitos deles jovens recém-licenciados. O segundo é o facto do desemprego no segmento da população com mais de 54 anos ser, hoje e pela primeira vez desde há mais de 25 anos, superior ao desemprego do segmento com idades dos 25 aos 54 anos.  E o terceiro é a baixa produtividade per capita neste último segmento.

Relativamente ao primeiro problema, uma solução passa por fomentar a criação de empresas por parte destes jovens. Existem várias formas de o fazer mas uma que ainda está pouco explorada em Portugal consiste na criação de novas empresa por jovens recém-licenciados com o objetivo de descobrirem novos modelos de negócio para as empresas existentes. Como bem sabemos a sobrevivência de muitas das empresas de média e grande dimensão depende grandemente da sua capacidade em inovar. Acontece que a forma como estas empresas funcionam, as regras a que devem obedecer, os sistemas de incentivos em vigor, os hábitos que nelas se enraizaram, não facilitam a tarefa da inovação.

Uma forma de ultrapassar estes obstáculos consiste no suporte por estas empresas à criação de start-ups dedicadas a explorar novos caminhos, sem estarem constrangidas aos limites típicos da média e grandes empresas, processo esse que começa pela identificação de necessidades dos clientes que não estão em parte ou na totalidade satisfeitas, recrutamento de uma equipa de jovens empreendedores-residentes, fornecimento de mentoria, apoio em termos metodológicos no que concerne ao processo de validação de novas ideias e financiamento dos primeiros 6 a 12 meses de atividade da equipa.

No final do período de validação e incubação de novas ideias de negócio, face a métricas que permitam avaliar o potencial do novo mercado e a capacidade da equipa para desenvolver o negócio, é decidido sobre a continuidade ou não do projeto. No caso da decisão ser para avançar, define-se também qual a melhor forma de estruturar a relação entre a empresa “incubadora” e a equipa “incubada”. Sem pretender ser exaustivo, existem diversas formas de estruturar esta relação, incluindo um contrato de serviços, licenciamento da tecnologia, tomada de participação como investidor, aquisição da totalidade do novo negócio ou ainda uma total integração da equipa “incubada” na empresa “incubadora”.

Num próximo artigo irei abordar os outros dois desafios, começando pela forma como o empreendedorismo pode contribuir para o aumento da atividade económica do segmento das pessoas com mais de 54 anos.

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Sobre o autor

António Lucena de Faria

António Lucena de Faria é sócio Fundador e Presidente da Fábrica de Startups, empresa criada em Abril de 2012. É também membro fundador da StartupPortugal, em representação da Fábrica de Startups. Foi o responsável pela organização e realização em 2012... Ler Mais