Robert Tregaskes teve de deixar a sua start-up, a Shnergle, em 2013, um ano depois de a ter criado. O britânico conta-nos agora as lições que aprendeu e o que falhou no modelo de negócio.

Há quem se feche em copas e nunca partilhe o falhanço e há quem defenda que se deve aprender com os erros, e seguir em frente. Robert Tregaskes partilhou com o Techworld o seu falhanço e o que aprendeu. Para este, não foi uma ocasião de celebração, bem pelo contrário. “Não devemos celebrar o falhanço, porque envolve pessoas que perdem os seus empregos e o seu dinheiro. É doloroso. Mas, na mesma linha de pensamento, temos de falar sobre isso, não para nos envergonharmos, mas para que outros aprendam com os nossos erros”, confessa Tregaskes.

A Shnergle foi a start-up que Tregaskes e o seu sócio Jonny Bull lançaram em novembro de 2012, quando ainda trabalhavam a tempo inteiro na RBS. A ideia por trás da Shnergle era a de criarem um app gratuita e de fácil utilização, que ajudasse, em tempo real, as pessoas a selecionarem os locais que queriam visitar.

“Levantámos uma pequena quantia de financiamento, contratámos programadores e começamos a trabalhar no final de fevereiro de 2013”, conta Tregaskes.

Oito meses depois, a situação começou a complicar-se para os fundadores, uma vez que, embora todos achassem ser uma boa ideia, o modelo de negócio estava a revelar que seria necessário um valor muito considerável para conseguir escalar o produto e as garantias de sucesso eram muito poucas. “Basicamente, constatámos que seria preciso ser louco para investir nisto. Para que a app vingasse, teria de haver imensas pessoas a instalarem a app a e a usarem-na numa mesma área e espaço temporal. Só em Londres precisaríamos de ter 1,2 milhões de utilizadores, para chegarmos o nível necessário para que funcionasse”, detalha Tregaskes.

O que levou ao falhanço da Shnergle?

Ingenuidade

Segundo a start-up, um dos principais problemas foi o modelo de negócio da Shnergle não ter sido testado previamente. Embora tivessem feito promoções à app em eventos e conferências, de forma a captarem utilizadores, não foi feito nenhum teste ao valor a cobrar pelo download e pensou-se que esta presença nos eventos levaria realmente as pessoas a inscreverem-se e a utilizarem a app.

Não conseguíamos justificar às pessoas porque teriam de pagar pela app. Foi um campo em que fomos muito ingénuos. Aprendemos imenso à medida que íamos avançando”, admite Tregaskes. Esta questão tornou-se cada vez mais clara, à medida que iam trocando emails com investidores de capital de risco. “Muita gente achou a ideia muito boa. Todos lhe encontravam valor…, mas, no fundo, o modelo de negócio não ia funcionar”, revela.

Era cada vez mais claro para os fundadores que teriam de acabar com o sonho. “Não podíamos apenas mudar para algo próximo, porque, na verdade, não havia nada para o que mudar. Sou todo a favor de nos adaptarmos, mas, muitas vezes, fazê-lo é apenas estar a passar de uma coisa que não funciona para outra igual. É mais fácil, e perdemos menos, se, simplesmente, fecharmos e continuarmos em frente”, conta o responsável.

Dinheiro

Os fundadores viram-se forçados a admitir que tinham sido vencidos em outubro de 2013, depois de terem gasto 76 mil libras (cerca de 88 mil euros), das quais 18 mil libras (cerca de 21 mil euros) foram investidas por Tregaskes. Sobraram 2 mil libras (cerca de 2 300 euros), que foram distribuídas pelos investidores.

“Basicamente, ficámos na banca rota. Fiquei com uma pequena quantia da RBS e o dinheiro necessário para a renda de um mês. É extremamente doloroso. Fiquei falido, o que não é nada divertido. É extremamente traumático. Fui militar e fiz umas missões no Médio Oriente. Em termos de stress pessoal, trauma e autoestima, foi um momento marcante na minha vida”, confessa Tregaskes.

Um monte de tretas

Na opinião de Tregaskes, são muitos os que não percebem a dinâmica de gerir uma start-up bem-sucedida, avançando sem terem verdadeiramente pensado como o fazer. “Parte do problema passa pela informação e o que lemos na imprensa sobre as start-ups é muito pobre em detalhes e muito rico em dar destaque à espiral ascendente, o que nos pode levar facilmente a ficar com uma ideia errada do que está em causa”, refere. “É tão fácil vermo-nos inebriados pelo glamour, o que depois, na prática, não se vê lá muito. A maior parte de tudo isso são tretas e pó levado ao vento”, acrescenta.

Lições aprendidas com o falhanço

Tregaskes aprendeuuma série de lições de valor para qualquer fundador de uma start-up: faça mesmo muita pesquisa e fale com os seus clientes; tente trabalhar previamente numa start-up antes de avançar com a sua; tente perceber a sua apetência ao risco; e gaste o seu dinheiro sabiamente.

“A primeira coisa a fazer é falar com o seu potencial cliente”, refere. “A maior lição que retenho é que não interessa proteger a sua ideia. Fizemos um secretismo total, o que hoje vejo ter sido muito estúpido e contraproducente. Se mantivermos o secretismo, quando lançarmos o produto não está lá ninguém para o conhecer. A maior lição que aprendi com tudo isto, foi: saia daí e fale com as pessoas”, aconselha.

Outra lição é tentar ganhar alguma experiência numa start-up, antes de pensar em criar a sua. “Se quer lançar uma start-up, primeiro trabalhe numa. É a melhor forma que tem para aprender com os erros dos outros. Poderá não ganhar um grande salário, mas verá que lhe compensa, em termos de aprendizagem, ver tudo a acontecer em primeira mão. E, mesmo nesta altura, será um grande desafio perceber qual a start-up certa para integrar. Haverá muito trabalho a fazer, ou talvez não, mas aprenderá imenso com tudo pelo que passar”, afirma Tregaskes.

Também é muito importante dar um passo atrás, respirar fundo e ver se se encontra em posição para correr o risco de se lançar numa nova aventura. Por exemplo, embora “ninguém queira literalmente saber” se começou uma empresa que não deu em nada aos seus 23 anos, à medida que vai envelhecendo, poderá ter mais responsabilidades de dependentes do seu sucesso, o que torna tudo financeiramente mais difícil, refere. “Trata-se da maneira mais rápida de acabar com o dinheiro que tem, caso não saiba o que está a fazer, acredite em mim. E a maior parte das pessoas não sabe o que está a fazer”, diz Tregaskes.

Perceba qual a sua tolerância ao risco. Qualquer amigo meu que está a pensar em criar a sua empresa, vem falar comigo. Não quero ser maldoso, mas, na maior parte dos casos, estão completamente fora e sem qualquer noção daquilo em que se estão a meter. Ou então, são demasiado velhos ou têm demasiadas pessoas dependentes deles, para que possam arriscar neste jogo”, admite.

Outro aspeto para o qual Tregaskes alerta todas as start-ups, é gastarem sabiamente o seu dinheiro, mesmo que tenham levantado elevados montantes de financiamento.

“Na nossa vida pessoal, podemos gastar dinheiro a ir jantar fora ou em festas e queimar dinheiro rapidamente. Agora, imagine que não se trata apenas de gerir o seu dinheiro, mas o dinheiro da empresa, pagar salários, pagar por serviços que precisa, advogados, e por aí fora. Pode começar a queimar grandes quantias de dinheiro rapidamente. Não importa quão rico é, porque pode gastar tudo o que tem, se não for cuidadoso. Mesmo que seja refletido, convém ter uma abordagem muito consciente dos custos. De outra forma, ou se irá arrepender, ou então é alguém sem escrúpulos”, conclui Tregaskes.

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