Mudar? Eu?

Mudança, por natureza, ninguém gosta, a não ser que os benefícios sejam superiores aos custos, fazendo com que haja uma clara vantagem para o beneficiário.

Falando em termos organizacionais, a mudança é quase sempre uma dor de cabeça, porque dificilmente se consegue uma convergência em torno dos planos de mudança, principalmente se, na maior parte dos casos, a mudança, aparentemente, não for favorável aos colaboradores no imediato. Neste caso, não se vai conseguir congregar todos, e quem tentar implementar a mudança, encontrará resistências e vai dividir a organização nos que estão a favor e nos que estão contra.

Uma analogia

Utilizando uma analogia, eu costumo dividir a pessoa em hardware e software, sendo o hardware a parte cognitiva física, e o software o conjunto de valores cognitivos morais e conhecimento. Porquê essa analogia? Sabemos que, para os mais curiosos, o software, atualmente, faz muita coisa que antes era feita apenas com hardware. Dou um exemplo; atualmente, com o smartphone e um conjunto de aplicativos (apps), você conseguirá fazer coisas inimagináveis há uma década. Da mesma forma, julgo que a minha reserva cognitiva (software) é hoje invariavelmente superior relativamente à que era há 25 anos, significando que hoje posso fazer coisas que, na altura, não poderia fazer, porque não tinha conhecimentos.

Assim, com o mesmo hardware, o gestor poderá aumentar o trabalho e a produtividade, melhorando o software (quer falando de máquinas, quer falando de pessoas, no sentido de dar novas capacidades, informações, conhecimento e formações), pelo menos até onde as versões permitirem.

Limitações

Até onde as versões permitirem? Bom, no caso de máquinas, podemos substituí-las com alguma facilidade. Por exemplo, já há muito software informático que não corre em computadores de 32-bits e, nesses casos, você tem mesmo que substituir por um hardware de 64-bits (e o sistema não vai criar barreiras à mudança).

E no caso de pessoas resistentes à mudança, ou seja, quando a versão do hardware (a própria pessoa) já não é compatível com nenhum software (valores organizacionais), o que fazer? Efetivamente, nas organizações sempre encontramos pessoas resistentes à mudança, seja ela qual for, não só porque as pessoas são, por natureza, avessas à mudança, mas também, às vezes, por simples oposição. Julgo que, nessas situações, deve agir-se caso a caso.

O futuro é hoje

Portanto, qual será a realidade no futuro muito próximo? Não podemos dizer que é a substituição de pessoas (hardware) por robôs, porque isso já é o presente. Nos processos de fabrico (pintura, soldadura) mais agressivos para o homem, já só se utilizam braços robotizados. E no setor dos serviços, onde se utiliza mais o esforço mental e menos o esforço físico? Não vale a pena esconder a tendência para usar algoritmos na tomada de decisões, por exemplo nos processos high frequency trade nos mercados de capitais e cambiais. Aliás, no setor financeiro, a automação de processos end-to-end pode aumentar o volume de trocas e reduzir os erros. Mas, na medicina, já há estudos que mostram que computadores podem ultrapassar o padrão humano na previsão do tratamento mais eficaz para pacientes com cancro de mama.

A Índia, conhecida por ter muitos engenheiros altamente qualificados, vai enfrentar esse problema, segundo o Banco Mundial. A automação vai por em perigo 69% do emprego. Assim, não fiquemos admirados com a tendência de substituição de pessoas por robôs e algoritmos em atividades que não sejam manuais e repetitivas.

Concluindo

Se, por um lado, há colaboradores resistentes à mudança (com o discurso de sempre fizemos assim), por outro lado, temos algoritmos machine-learning, ou seja, algoritmos que permitem que a máquina aprenda a cada operação através do desenvolvimento de técnicas de aprendizagem profunda e de aprendizagem de reforço, baseadas em redes neurais.

Se, por um lado, há colaboradores resistentes à mudança, por outro lado, temos a inteligência artificial, a automação e a análise de dados.

Enquanto que há colaboradores resistentes à mudança, a realidade está a mudar e as tecnologias têm uma utilização cada vez mais disruptiva. Não se admire que, ao ligar para um call center, fale com uma chatbot pensando que está falando com um humano. Mesmo no campo religioso, pode obter aconselhamento do chatbot ePaul.

O futuro é cada vez mais a materialização da imaginação. Por isso, não estranhe que, amanhã, artigos possam ser escritos por máquinas com inteligência artificial, substituindo os humanos. Até lá, vamos aproveitando para escrever…

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Sobre o autor

Carlos Rocha

Carlos Rocha é administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi Administrador Executivo da CI - Agência de Promoção de Investimento. Doutorado em Economia Monetária e Estabilização macroeconómica e política monetária... Ler Mais