Sofia Balula Dias pretende, juntamente com uma equipa europeia espalhada por seis países, diagnosticar precocemente a doença de Parkinson. O método proposto é simples: o utilizador descarrega uma app no smartphone e um algoritmo previamente treinado procura sinais da doença. Leia a conversa do Link To Leaders com a investigadora portuguesa.

O projeto chama-se iPrognosis e é apoiado pelo programa europeu Horizonte 2020 com quatro milhões de euros. Encontrar uma nova forma não invasiva de detetar precocemente a doença de Parkinson é a missão da investigadora da Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade de Lisboa (FMH), Sofia Balula Dias e da respetiva equipa – que está espalhada por 11 grupos de trabalho, em seis países europeus.
Atualmente, existe a possibilidade de estender a aplicação para outros países como o Brasil, Emirados Árabes Unidos, Índia e Bélgica.

O Link To Leaders conheceu a líder do projeto em território português no evento da SingularityU Portugal focado em saúde, onde a doutorada em Ciências da Educação foi uma das oradoras.

Porquê Parkinson e não outra doença?
Há mais de um milhão de pessoas na Europa afetadas por Parkinson. É uma doença que não tem cura e nós também não pretendemos encontrá-la com este projeto, mas sim mitigar os sintomas da doença e melhorar a qualidade de vida dos pacientes. O “i” no iPrognosis significa que vamos utilizar metodologias inteligentes, sistemas inteligentes e soluções inovadoras. O “Prognosis” porque pretendemos prognosticar e detetar precocemente esta doença.

Em que fase estão neste momento?
Somos 11 organizações de seis países europeus. O projeto começou em 2016 e neste momento já estamos numa fase bastante desenvolvida. 2020 será o último ano e digamos que nos encontramos na reta final: na parte da intervenção, propriamente dita, porque nós, para além da deteção precoce, temos um pilar que é o suporte de intervenções para os doentes de Parkinson para mitigar os sintomas desta doença. O terceiro pilar é estender esta aplicação e este tipo de intervenções através da gamificação, que também está bem desenvolvida neste projeto, e estender ao máximo a sua qualidade. Atualmente, a app está divulgada em oito países – o target inicial era de três países. Digamos que foi um caminho bastante difícil de percorrer, mas um dos objetivos deste projeto abranger o maior número de pessoas.

E que número é esse ?
O nosso target é 5 mil utilizadores da app. Temos cerca de 1.800 downloads atualmente.

Como fazem o diagnóstico através da app?
Esta app tem várias vertentes. Uma delas, e é o que acontece aqui em Portugal, é recolher dados do maior número possível de pessoas  – que tanto podem ser saudáveis, como podem ter Parkinson ou qualquer outra doença. A app recolhe dados ao nível da voz, do manuseamento do telemóvel ou, por exemplo, através do texto quando escrevemos uma mensagem. Digamos que eu estou a escrever uma mensagem a um amigo: através da análise de dados e de algoritmos de inteligência artificial a correr no background da app, tentamos perceber o que distingue o comportamento de uma pessoa saudável de uma que tem Parkinson.

Já conseguem fazer o diagnóstico aos potenciais doentes?
É por esse motivo que precisamos dos 5 mil utilizadores. Precisamos de validar para transferir esta aplicação para a sociedade, para os contextos reais. Neste momento, a general data em que toda a gente pode participar, é muito importante para agrupar os saudáveis e não saudáveis e para, assim, ter a referência mais fidedigna e válida para depois fazer a extrapolação. Contudo, cientificamente já publicámos dois artigos e já conseguimos, através de validação científica com um pequeno número de utilizadores, dizer que – ao escrever o texto no teclado criado por nós e que está disponível na aplicação mobile –  conseguimos medir o índice de bradicenisia e de rigidez, que são duas características dos pacientes de Parkinson. Ou seja, ao escrever uma simples frase,  conseguimos dizer de zero a seis, por exemplo, qual será o seu índice comparativamente aos doentes de Parkinson. Isso foi um salto qualitativo e quantitativo exponencial. No futuro e no final do projeto, para além desses dois parâmetros, a rigidez e a bradicinesia, teremos, por exemplo, seis ou sete parâmetros que nos ajudem a escolher os melhores para fazermos esta deteção precoce.

“Através deste dispositivo vamos medir essas alterações que poderão ser muito importantes para o setor médico.”

Para além de utilizarem a app no smartphone também utilizam smartwatches…
Sim. Para além disso, utilizamos um smartbelt. Nós partimos sempre dos sintomas. O smartwatch, por exemplo, vem no seguimento dos problemas ao nível do sono – um distúrbio comum nas pessoas que têm esta doença. Através deste tipo de dispositivos vamos tentar melhorar a qualidade do sono. Ao nível do andar também temos testes feitos para, através dos ritmos e das batidas, tentar sincronizar o ritmo do paciente com as batidas e, assim, melhorar ao nível do tremor – outro dos sintomas.

O smartbelt, que também é criado por uma empresa portuguesa, permite monitorizar e analisar as mudanças de comportamento que existem ao nível dos sons dos intestinos, já que os problemas intestinais são mais um dos sintomas destes pacientes. Através deste dispositivo, vamos medir essas alterações que poderão ser muito importantes para o setor médico.

 No caso do smartwatch, como é que melhoram a qualidade do sono dos pacientes?
O smartwatch tem alguns parâmetros, mas há uma intervenção que decorre durante a noite e que, ao utilizar a banda, permite monitorizar de que forma a qualidade do sono é afetada nestes pacientes. Digamos que um utilizador tem 60% de qualidade de sono numa noite e na seguinte tem 80%. Nós vamos ver se há uma relação entre os vários parâmetros [para ver se algum determina a qualidade de sono]. O smartwatch dá-nos essa informação, mas podemos sincronizar com outros dispositivos e a Internet of Things também está englobada nestas intervenções e monitorizações.

“Temos também a visão de que esta aplicação possa ser benéfica para outras doenças, como o Alzheimer.”

O projeto termina em 2020. Qual é o objetivo a partir daí? Querem comercializar a tecnologia a seguradoras, por exemplo?
Há um caminho exponencial a ser percorrido. Atualmente, a aplicação é gratuita em oito países europeus – foi submetida a todas as questões de ética, portanto tem todas as legais salvaguardadas. Claro que se formos para o mercado haverá novas versões e terão de ser revistas para haver retorno de investimento. O mesmo se passará com os jogos que estamos a fazer, a gamificação. Temos 14 jogos para doentes de Parkinson já desenvolvidos. Temos também a visão de que esta aplicação possa ser benéfica para outras doenças, como o Alzheimer, por exemplo, ou até mesmo para pessoas saudáveis.

Há aqui uma transferabilidade para vários setores. No caso das seguradoras, como referiu, eu gostava de, enquanto cliente, ter uma aplicação que me pudesse dizer se sou um potencial doente de Parkinson. Estamos a trabalhar para uma geração futura porque eu com 35 ou 40 anos posso ter Parkinson. Eu gostaria muito de ter uma aplicação que me dissesse “se calhar é melhor consultar um médico enquanto tem 40 anos” e não aos 65 ou 80 quando os sintomas já estiverem todos exteriorizados, que é o que acontece atualmente – não há uma deteção precoce desta doença em particular.

Portanto, sim, há transferabilidade para outros setores e a visão estratégica passa um bocado pela deteção precoce de doenças ou pela monitorização de mudanças de comportamento.

Em relação a estes jogos, como é que pretendem mudar a vida das pessoas?
O design de todos os jogos partiu do pressuposto de que estes poderiam também ser realizados por pessoas saudáveis. Contudo, o iPrognosis desenhou e desenvolveu os jogos em quatro dimensões distintas: “exergames” [focam a melhoria da atividade física], “dietarygames” [nutrição], “handwriting and voice games” [melhorar sintomas ao nível da gravação da voz e da caligrafia]e “emogames” [expressão facial – os doentes de Parkinson têm dificuldades em se expressar]. Ao todo construímos 14 jogos, que já estão na reta final de desenvolvimento o que também é incrível porque há muita solicitação e, mais uma vez, existe esta componente de transferibilidade para outros setores.


Terminado o prazo do iPrognosis, em fevereiro do próximo ano, Sofia Balula Dias vai continuar a trabalhar num projeto que já está em vigor desde dezembro de 2018: o Protein, que tal como o iPrognosis é financiado pelo Horizonte 2020, mas que conta com o dobro do investimento. que pretende contribuir para um estilo de vida mais saudável também através de uma aplicação de smartphone.

Refira-se, ainda, que esta semana foi entregue uma candidatura para mais um projeto Horizonte 2020 onde Sofia Balula Dias está inserida: o objetivo deste último passa por melhorar a qualidade de vida dos pacientes de cancro através dos “exergames” e dos “dietarygames”.

A investigadora da FMH adiantou também ao Link To Leaders que este novo projeto vai utilizar parte da tecnologia que foi criada para os dois projetos anteriores (iPrognosis e Protein), salientando a importância da transferibilidade dos sistemas que foram criados primeiramente para estas duas iniciativas.

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