Não posso deixar de vos lembrar que não é indiferente para mim estar a escrever esta minha primeira história no Link to Leaders em pleno Natal…

Lembro-me de que, quando «ganhei» uma bicicleta no Natal de 1957, o mais difícil de toda a história foi tentar perceber como é que os dois volumes (Pai Natal e bicicleta) tinham descido por uma vulgar chaminé de um prédio de três andares, em Lisboa, na Avenida Dom Rodrigo da Cunha. E depois, ver que, de acordo com a severa sentença da minha mãe, a bicicleta não tinha rodinhas auxiliares e que depressa teria de aprender a equilibrar-me.

Entre a imaginação e o equilíbrio, passei até agora mais sessenta natais e sempre descobri que não há outra época do ano para extravasarmos os nossos sentimentos e nos contermos nos padrões da época.

Não fiquei particularmente triste quando, finalmente, soube que o Pai Natal não era mais do que a mímica do meu pai que, da paciência do seu mais de meio século, se transvertia no velho senhor de barba de algodão, pois os óculos já ele tinha e a barriga não lhe sobrava.

Foi assim até os meus irmãos crescerem na sabedoria de quem já não acredita nessa coisa do Pai Natal. Mas isso nunca chegou para domar a infindável coragem criativa com que o meu pai nos levava a representar autos, farsas e outros miniespetáculos que davam luz aos trapos que, sabiamente, a minha mãe ia arquivando ao longo do ano!

Ele escrevia as nossas falas, ele montava luzes coloridas que adornavam o escuro corredor, mas, sobretudo, sonorizava e depois fotografava e filmava. E tudo isto adoçou a nossa memória familiar nos anos seguintes e nas limpezas das gavetas, quando, inesperadamente, aparecia o Natal de mil novecentos e não sei o quê, numa fotografia a preto e branco, datando a época em que as cores eram ainda um privilégio de poucos, como lá em casa.

O Natal é, assim, um momento para o espírito, pois o peru que a tia Madalena mandava a Odelta cozinhar, e eu conhecera lá para os meus dez anos, só ganhou verdadeiramente foros de manjar quando, no Natal de 1973, em pleno mato, na Guiné, decidi oferecer aos meus companheiros de aventura militar o Peru à Tia Madalena. Peru ou parecido não foi difícil encontrar, mas o delicioso recheio e todas as mezinhas que distinguiam aquele gluglu, só existiram na imaginação daquela centena de homens, exilados no calor de um Natal que todos conhecíamos habitualmente agasalhados.

Mas foi a agasalhar o espírito que guardo essa recordação, fotografada num discurso cheio de saudade e de juvenil revolta e esperança, como que a predizer uma liberdade que estava quase a chegar.

Não é que me faltasse, a mim, a liberdade, coisa em que o meu pai sempre fora muito ativo, para eu perceber que o equilíbrio era o mais importante dom dessa certeza de criar, mas, habituado a não ter nada que os outros não pudessem ter, cedo aderi a essa luta de independência e autonomia que a vida me tem deixado exercer.

Estamos em mais um Natal. Tanto mudou, mas as músicas são as mesmas, ou quase!

Silent Night de Simon & Garfunkel é a que nunca esqueço, a que, sem lamechices, me leva sempre para esse, agora já longínquo, Natal de 1973, sem presentes nem afetos, mas com o Peru à Tia Madalena e as palavras livres, sentidas e tão ingénuas a ecoarem para sempre no destino de alguns homens perdidos na geografia de Portugal, mas juntos nesse dia de Natal, entre a criatividade da lembrança e o equilíbrio da esperança.

Sabem, tenho esperança de que, entre as lembranças e as memórias que fazem de mim o homem que sou, o meu grito suave de Bom Natal ecoe em todos, como aquilo que sou e vos quis apresentar nesta minha primeira história.

Bom Natal, até para o Ano!

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Sobre o autor

Joao Palmeiro

João Palmeiro é presidente da Associação Portuguesa de Imprensa e presidente da Direção da Visapress, entidade de gestão coletiva de direitos de autor dos editores e jornalistas portugueses. É Provedor do Leitor (Ombudsman) do jornal online Setúbalnarede. Foi Presidente da... Ler Mais