Confesso que me surpreendo com a crescente e cada vez mais insistente atenção mediática que tem sido dada às questões do género, orientações sexuais, escolhas pessoais e afins com que convivemos na nossa sociedade atual, especialmente quando a mesma grassa pelos mais diversos setores da nossa vida, desde a política, às empresas, escolas, religião, etc. etc.

Não é quase possível hoje em dia ler uma notícia, ver um comentário, folhear um livro, ler um post, seja de que natureza for, sem de alguma forma, mais ou menos encapotada, dar de caras com uma qualquer conotação ou adjetivação sobre igualdade sexual, educação sexual, preferência sexual, enfim, tudo que possa auxiliar o leitor a melhor caracterizar um determinado tema, pessoa ou grupos. E por ser assim, também confesso que já estou um pouco farto disso.

Não é novidade para ninguém que estas tónicas são as que chamam mais à atenção. Aliás, a comunicação social explora desde há muito este tipo de temas como chamariz para aumentar as suas audiências. Não há nada tão motivador para disparar os ratings como podermos ver o próximo em pelota na televisão, coscuvilhar a treta dos reality shows na esperança fugidia de que, algures durante aquelas horas intermináveis de publicidade, alguém se vá mostrar ao mundo como nasceu. Com alguma sorte até, dirão muitos, podemos inclusive ser bafejados com raros momentos de intimidade que nos permitam satisfazer o tradicional voyeurismo duma nação de brandos costumes que, apesar de tudo, quer sempre confirmar afinal como é a galinha do vizinho.

Costuma dizer-se que cada qual é para o que nasce e, muito honestamente, cada qual vê o que quer e, obviamente, os programas que nos são dados são em última análise aquilo a que a maioria aspira. Nada contra isso. Como dizia uma colega minha em tempos, quando não quero ler um determinado email, tenho sempre o botão delete ao dispor. O mesmo acontece nas televisões, revistas, jornais, etc., há sempre um botão para mudar de canal, uma revista ao lado mais interessante, o que for.

O problema que vejo não é a excessiva sexualização da oferta, mas sim a evidente comercialização da mesma e a sua imposição ao público em geral. Não consigo aceitar que seja mais notícia, fazendo inclusive manchetes gigantes, a orientação sexual de um determinado político ou figura pública, remetendo para segundo plano as suas ideias. Até consigo entender que determinada pessoa, fruto das suas opções privadas, molde de forma diferente as suas políticas públicas, mas usar tal como chamariz parece-me uma prostituição intelectual séria demais para ser levada de ânimo leve.

Também não tenho nada contra a educação sexual nas escolas, mas chegar ao ridículo de já não deixarmos as crianças serem isso mesmo, crianças, impondo-lhes desde tenra idade discursos sobre orientação sexual, parece-me atroz e errado. É evidente que devemos ensinar valores como a tolerância, a aceitação, a igualdade de géneros, isso nem sequer está posto em causa. Mas fazer isso, como se tem visto, numa altura em que as crianças ainda nem conhecem este tipo de temas é, a meu ver, formatação pró-partidária e ideológica que não aceito.

E que dizer então nas empresas, nos cargos públicos, na própria justiça? É evidente que a nossa sociedade é desigual, que as mulheres sofrem bem mais do que os homens, que têm muitas vezes de lutar o dobro e o triplo para terem metade ou um terço do que aqueles. Escamotear esta realidade é fazer de conta que vivemos noutra sociedade que não a nossa. Mas que dizer da constante propaganda sobre quotas? Sobre a visão unidirecional relativa à violência doméstica em que só o homem aparece como agressor? Faz sentido que toda a mensagem seja sempre assim? Um homem não é agredido nunca? Nunca se vê preterido numa posição por causa do género? Da orientação sexual? Obviamente que não há aqui respostas certas a não ser a constante mudança das mentalidades, mas não foram poucas as mulheres que conheci ao longo da minha carreira que orgulhosamente disseram que quando chegassem onde queriam não seria por serem mulheres mas sim, e tão só, porque eram melhores que os outros para um determinado cargo, sem ajudas, sem quotas, sem atalhos que dispensavam. Só pela qualidade.

E se pensarmos que o problema “só” se fica nestas realidades, veja-se o que já acontece também no desporto onde, até muito recentemente, foi lançada uma nova campanha publicitária relativa às diferentes famílias e modelos. É bonito de se ver, sem dúvida, mas mais uma vez lá está a temática em apreço a entrar por tudo o que é área da sociedade. E é assim tão necessário fazer isto? Temos mesmo de meter o sexo em tudo o que acontece? Pelos vistos não há maneira de não o fazer. Os jornais que mais vendem são os que exploram esses temas. Os livros mais vendidos são os que detalham fantasias sexuais. Os filmes mais vistos metem cenas quentes. Os atores tornam-se conhecidos por aparecerem nus. Os políticos ganham fama pelas escolhas e orientações sexuais. As figuras públicas fazem manchetes pelos detalhes privados. A religião não é medida pela mensagem, mas pelos escândalos sexuais. As pessoas tornam-se virais nas redes sociais na inversa proporção da roupa que usam. É o que é. Como dizia o outro, com tanto sexo, eu é mais bolos…

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Sobre o autor

Nuno Madeira Rodrigues

Nuno Madeira Rodrigues é atualmente Chairman da Lusitano SAD e da BDJ S.A. Anteriormente, foi Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona para as Energias Renováveis. É... Ler Mais